início da navegação

RESENHAS

(para fazer uma pesquisa, utilize o sistema de buscas no site) VOLTAR IMPRIMIR FAZER COMENTÁRIO ENVIAR POR E-MAIL

Pedalando

Chico Lopes*

Quem conhece o advogado e escritor Antonio Luiz Fontela, uma figura popular no mundo dos livros de Poços de Caldas desde o lançamento de seu livro “Memórias de um descasado”, um depoimento entremeado de ficção em que se misturam o humor e o existencialismo, pode estranhar o Fontela que está em suas mãos neste momento.

Um Fontela místico e espiritualista é com certeza, algo inesperado. Freqüentando o escritor, conhecendo-o de encontros pelos bares e cafés de Poços, de conversas em seu escritório na Rua Rio de Grande do norte, no entanto, garanto que a preocupação com assuntos espirituais vem rondando-o já há bastante tempo, que, ao menos para mim – e suponho que para outros amigos seus – a “virada” não é tão grande surpresa. Em longas conversas que tivemos sobre os meandros da arte e do complexo espírito humano, uma vez ele me falou de experiências suas que não tornaria públicas por temer a incompreensão, mas pareceu-me visceralmente sincero, mesmo inquieto, com o que vira, sentira e confirmara. Sensível como é, o assunto o perturbava; exigente também, não aceitava qualquer explicação; lutavam nele o homem formado no catolicismo, tradicional e um Outro – o ignoto Outro que sufocamos socialmente – voltado para formas insólitas de religião e sobrenaturalidade. Achei, no momento em que me fez uma confissão particularmente dramática, que cedo ou tarde teríamos um livro tratando daquilo.

Eis o livro, de cuja gênese ele me falou numa tarde em que, incrédulo, mas nem tanto – porque é um brincalhão, mas sabe ser profundamente sério – ouvi-o falar de psicografia e espiritismo. “Pedalando” é um romance que nos dá um novo Fontela.

Os que já o conhecem vão encontrar resquícios do antigo, naturalmente – o espírito de Padre Ralf, afinal, encontrou um psicográfico adequado ou vice versa: é um espírito humanista, um homem sem preconceitos, amigo e solidário. Esse mesmo homem viverá momentos dramáticos, dentro de vários contextos sociais e políticos, que culminarão na luta pelo abrigo aos oprimidos judeus durante a Segunda Guerra. É a primeira parte. Na segunda, mergulharemos na Transcendência.

Embora em geral cético, estou longe de ser ateu. Creio em Deus e deuses à minha maneira (não é uma afirmação original: cada um tem uma única maneira de crer ou descrer: a sua). Mas, meu espírito é submisso demais para aceitar qualquer espécie de religião organizada: crenças, dogmas, ritos etc, para mim. Sempre se confundiram com servidão intelectual; prefiro pensar e sentir livremente. Na arte, território da criatividade a falta de talento.

Experiências com vozes de mortos, escritores “recebendo” mensagens que, em juízo frio, não sabem como foram possíveis, têm sido registradas com freqüência. Como são caminhos altamente propícios ao charlatanismo, os mais sóbrios se retraem. Porém, elas persistem, de tal modo e com tal regularidade que não se pode permanecer completamente cético. Vivi e testemunhei coisas estranhas – a prática de toda uma vida com a criação literária já me levou a ter premonições e me garantiu alguns sustos insondáveis. Passo todas essas coisas para meus personagens, porque na ficção, melhor que na realidade, muitas verdades difíceis ficam mais cômodas e assimiláveis.

Fontela crê. A sua conversão é, aliás, registrada num depoimento no posfácio. Com sensibilidade de poeta, psicografou um padre ciclista que é uma figura humana verossímil, apesar de estranheza. Com ele saiu pedalando pelo Cosmo. Quem acompanhá-lo nessas pedaladas se deparará com um livro em que o diálogo entre o espírito desencarnado e seu veículo leva a muitos lugares, mas, sobretudo, à poesia.

É subir na garupa e fazer, no mesmo vôo, as descobertas que eles fizeram.

Chico Lopes
Poços de Caldas, junho de 2003.

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

Mais Chico Lopes, clique aqui


Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

 

< ÚLTIMA RESENHA PUBLICADA | TODAS | PRÓXIMA RESENHA >

LEIA MAIS

Pra começo de conversa,  por Viegas Fernandes da Costa.
São 35 crônicas selecionadas pelo próprio autor dentre as melhores que publicou na mídia. Segundo a escritora Urda Alice Klueger, que assina a apresentação da obra, “são textos que nos podem fazer rir quanto revirar o que temos de mais íntimo e nos apunhalar de dor; são como afiadas espadas de luz que Viegas cria com leveza ou angústia, e que nos esperam no livro para nos atravessar”  Leia mais
Ao vencedor, mais dores,  por Jorge Pieiro.
O crítico literário Paulo Franchetti deixa de ser pedra e vira vitrine. Ele estreou com o livro "O sangue dos dias transparentes" reunindo 31 contos curtos pela Ateliê Editorial.  Leia mais

Faça uma pesquisa no sítio

Utilizando-se uma palavra no formulário, pesquisa-se conteúdo no Sítio VerdesTrigos.

Ir ao início da página