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O veludo das serras abriga escorpiões

Chico Lopes*

Encantei-me com o Sul de Minas como quase todo mundo se encanta, em 1990, quando vim pela primeira vez para cá, consumar o pedido de casamento à família de minha mulher, que é mineira, da pequena Botelhos.

Em "Ave, palavra", Guimarães Rosa diz, no texto "Terrae vis", que o Sul mineiro é "a mais tranqüila jurisdição da felicidade" deste mundo. Dá essa impressão, realmente. Meu primeiro grande impacto foi com a garganta Duas Porteiras, na serra do Selado, descida de Poços de Caldas para Botelhos. Desci de um carro, aproximei-me da beira de um precipício, olhei para tudo aquilo e, diante do panorama de montanhas sem limite, nem sei o que senti e pensei. Para certas coisas, só a poesia. Ou um mudo escancarar dos braços.

Hoje, há doze anos morando e escrevendo em Poços, ainda, na verdade, só conheço de Minas um pouco desse Sul, e não retiro uma linha do que disse sobre a sua beleza. Mas, faz tempo que perdi ilusões sociais e humanas.
É curioso, na verdade, como a gente pode, tomado de deslumbramento pelos aspectos físicos de um lugar, cair ingenuamente na idéia de que as belezas naturais seriam moralmente benéficas. O sujeito pode ser muito experiente e estar vacinado filosoficamente contra essa sandice, mas é desarmado pelo encantamento e recai. Precisamos sempre nos precaver contra isso, mas é instintivo que percamos o senso crítico diante de coisas belas. Ninguém, vendo aquela Áustria de "Sissi", lembrando aquelas paisagens e aquele rosto de Romy Schneider, pensaria que aquilo era também a pátria de Hitler.

Em termos de Cinema, aliás, vou escrever sobre um livro que me evocou "Pérfida" ("Little foxes"), um William Wyler de 1941, melodrama elegante e frio daqueles em que ele era perito. Bette Davis, que é uma mulher ambiciosa e reprimida à medula, olha para o marido numa sala, à distância (com aqueles olhos!), observa-o tendo um ataque cardíaco e encontrando dificuldades para estender o braço e apanhar o remédio que o salvaria. Não sai do lugar. Continua olhando-o, gozando uma agonia pela qual não será incriminada. Olhando-o, tranquila. Até o desfecho.

Giffoni: a impiedade necessária

Luís Giffoni, um dos nomes mais saudados da literatura mineira nos últimos anos, residente em Belo Horizonte, falando do Sul de Minas (ele é nascido em Baependi), disse por e-mail que me mandaria um livro seu ambientado na região, "Adágio para o silêncio". Esperei-o com ansiedade, e, quando chegou, fui lendo-o depressa, com certo espanto. Espanto satisfeito, acrescento. Porque, habituado à má literatura que se produz por aqui em louvor às belezas naturais (repleta dessa má-fé inocente ou perversa com que os talentos medíocres entopem de açúcar o mundo real), eu tinha um pouco de medo. Graças aos céus Giffoni não é um desses mistificadores que tentam nos impingir deslumbramentos turísticos como boa literatura. É escritor de fato. Mas isso eu já sabia desde que lera os contos divertidos e atrozes de seu surreal "Os chinelos de raposa polar".

"Adágio para o silêncio""Adágio para o silêncio" tem algo de teatral. Entramos naquela família de dona Telinha pelo viés de uma empregada doméstica fiel, incumbida de apresentar-nos os membros e traçar a atmosfera geral de uma casa na fictícia Rio Verde, e nos sentimos entre O´Neill e Nelson Rodrigues. Avançando, fui me lembrando da literatura francesa, das atmosferas mesquinhas, terríveis e sulfúricas dos livros de François Mauriac e Julien Green. Lembrei-me também do universo mineiro sufocante de Lúcio Cardoso. E percebi que a intuição da ferocidade e do humor de Giffoni, que tinham me chegado via "Os chinelos de raposa polar", expandiam-se aqui, mas já num registro mais realista. Considero meio estúpido delimitar fronteiras entre real e fantástico, na literatura. Um escritor de talento trafega entre elas e em geral as abole. Lembrar Borges, que dizia não saber a que gênero literário o Universo pertence.

Há muito incômodo moral nesse livro, o que dá a medida de sua força: a impiedade é necessária e fecunda. Há, nas observações de Giffoni, uma crueza em captar o real que proporciona uns calafrios. Alguns personagens dessa saga de uma família de classe média interiorana mesquinha são particularmente irritantes - mas eles são assim, na vida real. Fui reencontrando, nessas páginas, muito do que descobrira na minha vida de Poços. As famílias fechadas, microcosmos concentrados em si mesmos, incapazes de entender generosamente o mundo em que se inserem, mas, muito por isso, capazes de virar grandes personagens, não importa se negativos. Gente rústica, deslumbrada por poder, moda, dinheiro, caipiras que aspiram a um verniz de cultura e tradição e sepultam, sob as aparências, tudo que não colabore para a perpetuação do equívoco narcisista. Podem ser miúda boa-gente, mas podem ser de uma crueldade ainda mais aguda porque dotada de um vasto poder de acomodação e disfarce. E unem-se numa hipocrisia homicida contra tudo que os possa desmascarar. O bairrismo no pior sentido - a pequena província como abrigo da pequenez. Sob o veludo das serras, os escorpiões - que, aliás, amarelinhos, são dos mais venenosos da terra brasileira.

Tratar os lugares que se ama ou onde se nasceu e viveu com impiedade realista não faz dos escritores uns monstros a serem execrados. Há, na boa e verdadeira literatura, um imperativo moral e estético: o escritor tem que dar a sua verdade, independente de quem fira. A ficção existe, aliás, não só para dissimular personagens reais, mas, para fantasiando, dar a medida da realidade, que nunca é facilmente captável e pode se perder em indulgências biográficas, em estreitezas documentais. A ficção é sempre mais punitiva por um lado, e, por outro, mais generosa. Temos que nos virar com nossos demônios, com as pátrias geográficas e psíquicas que carregamos, atávicas, sombrias, belas. Em Faulkner, o Sul dos EUA, em Mauriac, o Sul da França - em Giffoni, o Sul mineiro.

"Adágio para o silêncio", obra de um artista íntegro, me fez pensar que a perda de fôlego diante da beleza do panorama visto da serra do Selado sempre terá sentido. Mas que convém, sem perder o senso de poesia, não esquecer que o drama humano segue o mesmo, sob quaisquer céus. E que cartões postais não desculpam nem atenuam horrores e venenos.

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

 

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