início da navegação

Sexta, 4 de abril de 2025

RESENHAS

(para fazer uma pesquisa, utilize o sistema de buscas no site) VOLTAR IMPRIMIR FAZER COMENTÁRIO ENVIAR POR E-MAIL

O Pobre de Deus

Nikos Kazantzákis*

Páginas 83 a 86

Tínhamos encontrado no caminho um grande chocalho de carneiro. Francisco agitava-o nas ruelas da aldeia e gritava. Os aldeões, homens e mulheres, ouvindo, corriam para ver o que trazíamos e distribuíamos de graça. Francisco subia então sobre uma pedra e começava a falar sobre o amor. "Amemos Deus e os homens, amigos e inimigos; amemos os animais e os pássaros e também a terra que pisamos". Falava sobre o amor, arrebatado, e, quando já não podia encontrar as palavras, era tomado pelo pranto. Muitos, ouvindo-o, riam; outros aborreciam-se; as crianças atiravam-lhe pedras, e algumas pessoas se aproximavam às ocultas e beijavam-lhe a mão. Íamos depois a cada uma das portas e estendíamos a mão para pedir esmola. Davam-me um pedaço de pão seco, bebíamos água de poço da aldeia e partíamos, dirigindo-nos a uma outra aldeia. Não lembro quantos dias e semanas passaram; o tempo avançava rapidamente, rolando como uma bola.

Numa cidade pequena, de cujo nome não me lembro, um velho amigo de Francisco, que outrora o tinha acompanhado num divertimento, viu que ele se achava no meio da praça, que dançava, cantava e anunciava suas novas mercadorias.

Surpreso, ele acorreu:

– Francisco, meu velho amigo – bradou-lhe , como degeneraste
desta maneira? Quem te pôs neste estado?

– Deus – respondeu Francisco, sorrindo.

– Onde estão tuas roupas de seda, a pluma vermelha de teu chapéu e
teus anéis de ouro?

– Satanás tinha-me feito tais empréstimos e já lhos devolvi.

O amigo olhava-o de cima; a capa em frangalhos, os pés nus, a cabeça
descoberta; interrogava-se e não podia compreender.

– De onde vens, Francisco? – perguntou enfim, compadecido.

– Do outro mundo – respondeu Francisco.

– E aonde vais?

– Para o outro mundo.

– E por que cantas?

– Para não perder o caminho.

O amigo sacudiu a cabeça, desesperado. Devia ter bom coração esse jovem porque pegou Francisco pela mão e me fez sinal para segui-los.

– Francisco, meu velho amigo, se compreendi bem, queres salvar o mundo. Mas ouve-me a mim também: entrou o inverno. Vem à minha casa para que, dando-te eu uma roupa quente, não morras de frio; em caso contrário, como salvarás o mundo?

– Trago Deus comigo – disse Francisco –, não tenho frio.

O amigo riu:

– Trazes Deus contigo – disse –, mas não basta. Tens necessidade de uma roupa quente. Tu que te compadeces de pisar até num verme, compadece-te também do teu corpo. Ele também é um verme. Envolve-o numa veste... E não esqueças que o corpo necessita de ti para salvares o mundo.

Sem ele...

– Tens razão – respondeu Francisco. – Isso deve dizer um homem instruído, pois tens muito bom senso. Sim, ainda é necessário o corpo. Vamos!

Chegamos à casa dele. O amigo era rico. Entrou num quarto e saiu segurando uma vestimenta longa de Iã grossa, um par de sandálias como as usadas pelos pastores e um cajado de pastor.

– São as vestimentas de meu pastor – disse ele –, veste-as,

Francisco olhou a roupa de lã e mediu-a em seu corpo; ela chegava até os pés. Ele punha o capuz, tirava-o e ria como criança.

– Gosto da roupa – disse enfim –, porque sua cor é idêntica à cor da terra, no outono, quando a cavam e, assim, faz lembrar a terra. Rufino, dá, pelo amor de Cristo, uma vestimenta semelhante também ao meu irmão Leão.
O amigo ficou contente.

– Seria divertido – disse ele – que eu permanecesse na memória dos homens por ter-te dado esta vestimenta, da qual fizeste um hábito de frade! Tens intenção, também tu, de fundar, como são Benedito, alguma ordem de monges?

– Eu? Ou Deus? É a Ele que deves perguntar. A Ele eu também pergunto.

Francisco afastou-se, vestiu o novo hábito, pegou um pedaço de corda no pátio e passou-o em torno da cintura. Entretanto, o amigo trazia-me também a minha vestimenta. Vesti-me, passei a corda em torno da cintura, e minhas costas aqueceram-se. Rufino pegou meu alforje, entrou na despensa e encheu-o de provisões.

Francisco estendeu a mão ao amigo e disse-lhe:

– Pega esta mão feita de terra! – O amigo riu e apertou-lhe a mão.

– Meu caro amigo, irmão Rufino, que Deus te conceda entrar um dia com este hábito de frade no Reino dos Céus. Até a vista.

– Onde? – respondeu Rufino, rindo. – No Reino dos Céus?

– Não, no reino da terra. Que Deus te conceda entrar um dia, tu também, no caminho da alegria perfeita.

Entramos de novo na estrada. O céu estava nebuloso e fazia frio.

– Viste? – disse Francisco, rindo. – Quando não pensas no que vais comer e vais
vestir, Deus pensa por ti e envia-te um Rufino com um alforje de alimentos e com duas mudas de roupa de lã.

Avançamos para leste. Estávamos, os dois, orgulhosos como crianças com nossas roupas novas. Dir-se-ia que tínhamos vestido nossa armadura e corríamos para a guerra.

– Não há alegria maior no mundo, irmão Leão, do que fazer a vontade de Deus.

Sabes por quê?

– Como posse saber, irmão Francisco? Esclarece-me!

– Porque aquilo que Deus quer é exatamente isso que também nós queremos, mas não o sabemos. E Deus então vem, desperta nossa alma e mostra-lhe o que ela quer, sem sabê-lo. Esse é o segredo, irmão Leão. Faço a vontade de Deus significa: faço a minha vontade, aquela que mais profundamence está oculta em mim. No íntimo, mesmo no homem mais indigno, há um servidor de Deus adormecido.

– Por esse motivo reconstruíste a capela de são Damião? Era uma vontade tua e não a conhecias e, assim, Deus veio em teu sonho e fez-te a revelação! Por isso abandonaste teu pai e tua mãe?

– Sim, por esse motivo. É por isso mesmo que abandonaste tudo e me segues.

– Mas às vezes – retruquei eu –, às vezes, irmão Francisco, temos muitas
vontades. Como saber qual delas é a vontade de Deus?

– É o mais difícil – respondeu Francisco, suspirando.

Fizeram-se ouvir trovões distantes. O ar exalava odor de chuva.

– E agora, Irmão Francisco, que vontade profunda tens em teu íntimo? Podes descobri-la antes que Deus te faça tal revelação?
Francisco abaixou a cabeça, como se estivesse de ouvido à escuta, e suspirou novamente.

– Não posso – disse por fim. – Sei perfeitamente o que não quero, mas não sei o que quero.

– O que não queres, irmão Francisco? O que odeias e temes acima de tudo? Perdoa-me por perguntar-te.

Francisco hesitou um instante. Abriu a boca e fechou-a de novo. Por fim, decidiu-se e disse:

– Ouve! Não gosto dos leprosos. Não posso vê-los. Basta ouvir de longe os guizos que trazem para que os transeuntes ouçam e se afastem; eu desmaio. Perdoa-me, meu Deus. Nada me repugna mais no mundo que os leprosos. Ele cuspiu. Repentinamente sentiu náuseas e tontura. Apoiou-se numa árvore para reanimar-se.

– E má, fraca e infeliz a alma do homem – murmurou. – Má, fraca e infeliz... Quando, Senhor, tu terás piedade dela, e quando a salvarás?
Começou a chover. Pusemos as capuchas, andávamos depressa para chegarmos à aldeia. Passou uma jovem.

– Abençoai-me, santos de Deus – disse ela, saudando-nos.
Francisco pôs a mão sobre seu coração, retribuiu a saudação sem erguer os olhos para vê-la. Ela era bela, bem-feita e graciosa.

– Por que não ergueste os olhos para vê-la, meu irmão? – perguntei-lhe.

– Como posse erguer os olhos e encarar a noiva de Cristo? – respondeu ele.
Caminhávamos continuamente na região deserta. Não havia, em parte alguma, sinal de ser humano. Fomos alcançados pela noite, e a chuva tornava-se cada vez mais forte.

– Procuremos uma gruta para abrigar-nos – disse eu. Deus não quer que prossigamos.

– Deus não quer que prossigamos, irmão Leão; tens razão. Então, nós também não o queremos!

Procuramos por todo o lado, na escuridão, na ladeira da montanha. Quando encontramos uma gruta, entramos. Francisco então deitou-se satisfeito.

Sobre o Autor

Nikos Kazantzákis: (1883/1957) nasceu em Heráklion (Creta). Freqüentou, por dois anos, na ilha de Naxos, uma escola de monges franciscanos. Em 1906, concluiu o curso de Direito, em Atenas. De 1907 a 1909 dedicou-se à filosofia, em Paris, recebendo grande influência de Bergson. Traduziu obras desse filósofo e também de Nietzsche. Além dessas, vale destacar traduções de outras grandes obras como A divina comédia, de Dante, o Fausto, de Goethe, a Ilíada e a Odisséia de Homero.
Kazantzákis escreveu uma tragédia de título Cristo (publicada em 1928); retomou o tema de Cristo na Odisséia (1938), e bem mais tarde, em 1945, publicou seus dois romances: O Cristo recrucificado e A última tentação de Cristo (adaptado para o cinema). Em 1956, recebeu o International Peace Award.

 

< ÚLTIMA RESENHA PUBLICADA | TODAS | PRÓXIMA RESENHA >

LEIA MAIS

As "Páginas de Terra" de Mia Couto,  por Viegas Fernandes da Costa.
De fato, em "Terra Sonâmbula" a prosa é o veio por onde corre o lirismo de um escritor cujos olhos recaem sobre seu povo e sua história. A história de uma terra estuprada pelo colonialismo português e de um Moçambique destruído pela guerra, onde "os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte", como escreve já no primeiro parágrafo deste seu livro.  Leia mais
UMA METAFICÇÃO INTELIGENTE,  por Mauro Rosso.
Contos de Alberto Lins Caldas retomam a tradição de J.J. Veiga, Murilo Rubião e Cornélio Pena  Leia mais

Faça uma pesquisa no sítio

Utilizando-se uma palavra no formulário, pesquisa-se conteúdo no Sítio VerdesTrigos.

Ir ao início da página