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RESENHAS

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A presença judaica na literatura brasileira

Berta Waldman*

A crítica literária e teatral Berta Waldman já fizera uma instigante leitura da obra de Dalton Trevisan (Do Vampiro ao Cafajeste), além de se debruçar sobre o trabalho de Clarice Lispector (A Paixão Segundo Clarice Lispector) e Nelson Rodrigues (Flor de Obsessão, em parceria com Carlos Vogt). Em sua pesquisa mais recente, Berta procura detectar a interferência da cultura judaica na literatura brasileira. O resultado é o livro de ensaios Entre Passos e Rastros (240 págs., R$ 30), recentemente publicado pela editora Perspectiva, com lançamento previsto para quarta-feira, a partir das 18h30, na Livraria Cultura (Av. Paulista, 2.073).

A partir de autores contemporâneos (Clarice Lispector, Samuel Rawet, Moacyr Scliar, Moacir Amâncio e outros), Berta Waldman busca articulações formais e temáticas dissonantes que surgiram a partir da imigração judaica, especialmente a ocorrida no fim do século 19 e o início do 20. Esse encontro afeta o processo de criação literária, tanto na linguagem como nos temas, que passam a cruzar o imaginário judaico com a experiência local. “Um dado geral é que o encontro entre culturas cria dissonâncias no texto, e é preciso calibrar o olho para enxergar esses elementos”, afirma a pesquisadora, em entrevista por e-mail ao Estado.

Estado – Tomando as distinções entre memória e história, qual teria sido a que mais influenciou (ou ainda influencia) os escritores brasileiros que atuam sob interferência judaica?

Berta Waldman – Sabe-se que memória e história mantêm relações radicalmente diferentes com o passado. Reduzindo e facilitando, pode-se dizer que a história rompe com o passado, reconstituindo-o através dos vestígios que dele restaram. Já quando o passado é veiculado pela memória, ele continua no presente, reatualizado. A história nunca foi a guardiã da memória judaica, o que se confirma na escassa produção historiográfica de judeus até o século 19. O povo judeu é o povo da memória por excelência, urdida na fidelidade cotidiana ao ritual da tradição. Com a Haskalá (Iluminismo judaico, criado a partir da Filosofia das Luzes), inaugura-se a cisão entre memória e história no judaísmo, e aí passa-se a escrever uma história na qual a memória coletiva não tem mais lugar. Foi o afastamento da fé, durante a Haskalá que deu início à história. Subtraiu-se a sustentação na sacralidade e em sua transmissão de geração em geração, separando-se definitivamente memória e história. No caso dos textos analisados em meu livro, há a participação da memória e da história: é graças à memória que o passado flutuante pede passagem e se deposita de diferentes modos no texto literário, marcando, por exemplo, uma sonoridade do iídiche no português, ressonâncias em nosso idioma de usos “traduzidos” de outra língua, um ritmo particular da frase, além de temas que retomam experiências, formas de convívio familiar judaico do passado. Por outro lado, há textos que registram uma pesquisa histórica e o reaproveitamento, em outra pauta, de episódios marcantes da trajetória do povo judeu. Eu, pessoalmente, gosto de descobrir no texto inscrições dissonantes que escapam às intenções do próprio autor, que vêm, portanto, de algum lugar da memória ou do inconsciente.

Estado – Qual a perspectiva de futuro de uma literatura que registra aspectos de outra cultura?

Berta Waldman – No caso específico das marcas literárias relacionadas ao fluxo imigratório de fins do 19 até meados do 20, a propensão, me parece, é a de diminuir. À medida que o fenômeno da imigração vai se tornando mais distante, vai se acentuando a tendência a uma certa erosão dos laços simbólicos com o grupo de origem, o que não quer dizer que não possam surgir marcas desses grupos mais adiante. Por outro lado, há grupos migratórios menores que sucederam a grande imigração que veio para substituir o braço escravo na lavoura. Num processo substitutivo, em futuro próximo, podem aparecer textos literários com marcas da imigração coreana, por que não? Há, no Brasil, uma rotatividade populacional benéfica e desejável que preserva a diferença, trocas, tensões e lutas, enquanto os demais grupos imigrados vão obtendo um maior grau de inserção no país.

Estado – Quais as influências (positivas e negativas) da globalização nesse processo?

Berta Waldman – Em tempos de globalização da economia, de processos de mundialização da cultura, têm sido, paradoxalmente, exaustivos os estudos que sublinham o particular: feminismo, estudos de gênero, fronteiras. São propostas interessadas, em princípio, em preservar lugares identitários de resistência, seja do ponto de vista continental, nacional ou intranacional. Os estudos culturais que recrudescem nos anos 80-90 marcam a instalação do “politicamente correto” nos EUA, com o acirramento das reivindicações das “minorias”, a contestação das hierarquias culturais e das fronteiras entre alta cultura e cultura de massa. O perigo que vejo aí é a crítica se engessar em polarizações e conceitos teóricos, perdendo de vista o fenômeno literário, o texto. Sou uma professora que gosta de ler e ensinar literatura e, quanto mais passa o tempo, mais percebo a riqueza de me deixar levar pelo texto, encarando seus desafios, e a necessidade de me reorganizar sempre, em função dele.

Estado – Em relação ao conceito de etnicidade, no que a interferência judaica na literatura brasileira difere das demais (russa, japonesa, etc.)?

Berta Waldman – Por que as pessoas migram? A maioria das pessoas não deseja abandonar sua casa e sua comunidade. Se fosse possível escolher, todos – com exceção dos aventureiros – permaneceriam em seus lugares de origem. A migração começa, portanto, quando se descobre que não será possível sobreviver na comunidade de origem, ou por fome, ou por perseguição (nacionalidade, religião), etc. Quando os problemas são superados, o retorno torna-se possível. Se essas considerações valem para todos os grupos nacionais – conste que metade dos italianos imigrados voltou à Itália, o mesmo ocorreu com uma porcentagem semelhante de portugueses – não vale para os judeus. Seu lugar de origem é a Polônia, a Rússia, a Alemanha etc, mas eles não são russos, nem poloneses, nem alemães: são judeus, e não têm para onde retornar. A história da 2.ª Guerra Mundial e o extermínio de minorias mostram, com clareza, a complicação que envolve o grupo judeu, um grupo que se manteve com a língua, porém sem o estado, durante séculos. Um povo no exílio que, em geral, incomodava os hospedeiros, que não lhes atribuíam os direitos de cidadania. Quando os traços de etnicidade são lidos na literatura, não há padrões apriorísticos. Um dado geral é que o encontro entre culturas cria dissonâncias no texto, e é preciso calibrar o olho para enxergar esses elementos. Há casos gritantes, por exemplo, o macarrônico de Juó Bananere; há outros exemplos mais sutis, como a inserção de sons e ritmos de outros idiomas no português, há estruturas de composição que se repetem e que são próprias de uma comunidade específica, além dos temas alusivos ao lugares de origem, sendo a última ocorrência a mais fácil de se trabalhar.

Estado – É possível detectar uma dicção “estrangeira” na prosa e poesia produzidas pelos autores mais recentes?

Berta Waldman – O exemplo mais radical de estranhamento da linguagem que encontrei em minha atual pesquisa é a poesia de Moacir Amâncio. Trata-se de uma forma hermética, que recusa a concessão e a facilidade. A poesia soa estranha e, depois de ler e reler repetidas vezes, eu me dei conta de que o poeta trabalha o português, tomando como suporte o hebraico que é um idioma consonantal e muito distante do nosso. Como ele é estudioso do texto bíblico e talmúdico, há a pregnância desses modelos em sua poesia. É claro que pude me dar conta desse dado, porque conheço o hebraico, a cultura relacionada ao idioma, e porque me detive muito no texto. Mas isso não quer dizer muita coisa; o leitor brasileiro que desconhece o hebraico perceberá a estranheza do poema e reagirá a ela à sua maneira. Além disso, Amâncio passa de um idioma a outro com uma facilidade incrível e a língua estrangeira (espanhol, inglês, hebraico) que utiliza funciona como senha que abre passagem para uma poética imbricada em outras tradições. A língua é o lugar do exílio em sua poesia.

Estado – A abertura para uma interpretação multiplicadora é a marca mais notória do judaísmo na obra de Clarice Lispector?

Berta Waldman – Contrariamente à disposição da escritora, há uma referência judaica mais bem abstrata que se inscreve no texto de Clarice Lispector. Há nele uma busca reiterada (da coisa? do real? do impalpável? do impronunciável? de Deus?) que conduz a linguagem a seus limites expressivos, atestando, contra a presunção do entendimento, que há um resto que não é designável, nem representável. Nesse sentido, a escrita de Clarice permanece fiel à interdição bíblica judaica, de delimitar o que não tem limite, de representar o absoluto. Esse movimento da linguagem clariciana retoma a tradição dos comentários exegéticos presos ao Pentateuco, que remetem ao desejo de se aproximar da divindade – tarefa de antemão fadada ao fracasso –, particularidade de ser o Deus judaico um nome, uma inscrição na linguagem, onde deve ser buscado, mas não encontrado, obrigando a retornar sempre. Nesse sentido, a abertura para uma interpretação multiplicadora é uma marca importante do judaísmo na obra de Clarice. Mas há outras marcas e é curioso como ela mantenha seu judaísmo sempre em quarentena, no meio fio, querendo se desvencilhar dele.

Estado – Atualmente, entre as novas gerações surgidas a partir dos primeiros imigrantes, há uma tendência para se afastar ou para valorizar os traços da tradição?

Berta Waldman – Eu não saberia responder, porque acho que varia, que há de tudo, é difícil definir o que leva alguém a escrever e sobre o que escrever. Mas lembro aqui uma citação de Hanna Arendt que diz o seguinte: “...o fim de uma tradição não significa necessariamente que os conceitos tradicionais percam poder sobre as mentes dos homens. Pelo contrário, às vezes parece que este poder das relações e categorias cediças e puídas torna-se mais tirânico à medida que a tradição perde sua força viva e se distancia da memória de sua origem. Ela revela toda sua força coercitiva somente depois de seu fim, quando os homens nem ao menos se rebelam contra ela.” (O Que É Tradição?). Se Hanna Arendt tem razão, você reprime a tradição, mas ela escapa pelo ladrão e retorna...

(Entrevista concedida por e-mail ao Estado e reportagem de UBIRATAN BRASIL - Caderno 2 - Domingo, 11 de Maio de 2003)


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Sobre o Autor

Berta Waldman: Berta Waldman nasceu em São Paulo. Estudou Letras na Universidade de São Paulo. Professora de Literatura Brasileira e Teoria Literária na Unicamp, dedica-se também à Literatura Hebraica, disciplina em que se tornou professora-titular no Departamento de Letras Orientais da USP, junto ao programa de Língua e Literatura Hebraicas.
Em sua bibliografia figuram três importantes contribuições para a crítica literária e teatral brasileiras: Do Vampiro ao Cafajeste – Uma Leitura da Obra de Dalton Trevisan, A Paixão Segundo Clarice Lispector e, em parceria com Carlos Vogt, Nelson Rodrigues: Flor de Obsessão, além de capítulos de livros, elaboração de verbetes em dicionários de literatura, resenhas e ensaios em jornais e revistas nacionais e internacionais.

 

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