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RESENHAS

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Da Pena Ao Vento

William Lial*

São apenas 97 páginas de poesia. De uma poesia que emociona. Sobretudo de uma poesia de verdades. De uma poesia que inquieta. De uma poesia que indaga. De uma poesia que pede resposta. Que diz coisas. Porque por aí em fora há muita poesia que não diz nada. Sem conteúdo, despida de emoção e de mistério.

William Lial não deu a conhecer ao público o seu Noturno. Nem em noite de autógrafo. Entretanto Noturno não pode continuar escondido na noite. É preciso que o público conheça um livro assim. Assim denso. De alguns sonhos e mais de desencanto. Nada de pessimismo doentio. É assim de um pessimismo essencial. É a visão poética de um jovem sem muito encanto diante das coisas. Dos homens. Do mundo. Do seu país. Aliás, não se pode ufanar de muitas coisas deste País. Por isso "Declamo as dores que vejo /a regozijarem-se na cara poluída/ do outro". Como aplaudir um lugar em que "Roubaram os beijos/ das minhas crianças (...) "Proibiram/ com palavras mudas/ que sonhassem/ sonhos d´ouro". Em que (...) "Entregaram-lhe as armas,/transformando seus/ sonhos em filmes/ norte-americanos". E já houve "Um tempo em que/ peitos tremiam/ diante da boca desejada". E os miseráveis do país "Parecem monstros/ humanos saídos de/ algum pesadelo medonho".

William Lial fez uma dedicatória assim como um poema: "Os caminhos são tortos, tortuosos mas são caminhos, e, como tais, precisam ser navegados, transitados. Então marquemos o passo e vamos!"

Permeiam sim, nos versos de William Lial, um certo desencanto. Desencanto racional e justo. Nada de pieguismo. Diga-se um desencanto universal. Inevitável. Olhe-se a veracidade destes versos: "As mesmas bocas que antes me amaram/ Agora me escarram;/ Os mesmos braços que antes me envolveram/ Hoje me expulsam".

A poesia de Noturno tem suas imagens e figuras sem abuso algum. Assim: "... Desse corpo constantemente açoitado/ Pêlos chicotes dos dias/ Nas mãos dos exércitos da noite".

Os temas universais enchem as páginas: a dor, o medo, a dúvida, o infinito. A dor que é o fundamento da vida: "Algumas vezes esqueço a dor que me assola". E é nesses momentos em que se se pode dizer feliz. Porque a felicidade são raros momentos de esquecimento. Enquanto o ser humano se agarrar à vida, o medo está ao lado. "Seu medo é ouvir seu medo/ Soquear forte seu peito/ Gritar ao seu ouvido que está só/ E seu mundo é três paredes". É a ânsia de infinito e a busca incessante do transcendental do ser humano: "Olhou o céu/ Analisou as estrelas/ E desejou ser infinito".

Com certeza, o amigo vai gostar de versos assim: "Então a boca rasgou um grito/ Ofendeu os céus/ Cuspiu no infinito/ E o corpo caiu aflito". E estas indagações: Por que busco a glória/ se sou apenas mediador? Por que desejo o ápice,/ se sou apenas um degrau?" Ou assim: "Quando um dia sorri / Ignoraram-me/ Quando um dia pedi ajuda/ viraram-se as costas / Quando um dia abri os braços/ Não veio ninguém".

Em geral, o verso de Noturno é um verso curto. De uma palavra só, às vezes. Quase sempre de duas. Com visível economia de adjetivação, o que é salutar, pois o adjetivo é sempre uma faca de dois gumes.

Não tenho certeza de que se trata de um livro de estréia. Em caso positivo, o Autor já tem um bom começo. Com bons versos poéticos. Com boa escolha vocabular. Com imagens - não muitas - mas bem adequadas e bem fortes. Sem dúvida, os caminhos das letras - sobremodo da poesia - são tortuosos. Mas William Lial já começou com passos seguros. Deles emocionantes capazes de avivar o prazer estético. Deles ricos em conteúdo cultural e mental. Certamente que não são versos acabados. Ninguém chega aos versos perfeitos e acabados. Porque aí estaria privado da capacidade de aperfeiçoar.

"... Quando um dia escrevi/ Ao lixo levaram meus versos..." Absolutamente. Versos como os de Noturno não podem ter o destino do lixo ou das prateleiras abandonadas. Deles muitos vão durar no tempo e no espaço.

(Dias da Silva. Jornal: Binóculo, Fortaleza - Novembro - 2004 - Ano VI - Nº- 43)

Sobre o Autor

William Lial: William Lial, nasceu em 02 de fevereiro de 1973, em Fortaleza, Ceará. Iniciou sua vida literária aos oito anos de idade quando venceu um concurso de poesia colegial, em homenagem ao dia das mães. Desde então, não mais parou de escrever e ler. Ao terminar seus estudos básicos, devido a paixão pela literatura, entrou na faculdade de Letras da Universidade Estadual do Ceará. Nesse período já havia publicado o seu primeiro livro, Sombras. Este, vindo a público de forma independente, contou com a ajuda financeira de um amigo, Luiz Augusto Sobral, um dos sócios das empresas Sobral & Palácio. Posteriormente, enquanto ainda se encontrava na universidade, publicou, Noturno, que teve mais uma vez a ajuda de Luiz Augusto e de um outro amigo, o grande advogado tributarista, Francisco Cavalcante. Este segundo livro, distribuído entre vários escritores do Brasil, obteve uma boa aceitação, sendo alvo de elogios e congratulações de autores como Ana Maria Machado, Affonso Romano de Sant´Anna, José Mindlin, Dias da Silva, Dimas Macedo e da própria Universidade Estadual do Ceará. Atualmente, o autor escreve, eventualmente, crônicas e artigos, para o jornal O Povo e para o site Verdes Mares.

 

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