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RESENHAS

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GARBO: Barry Paris tenta entender o mito.

Chico Lopes*

Enquanto existir uma coisa chamada Cinema e outra, o cinéfilo, livros sobre Greta Garbo não deixarão de sair. Um amigo que sabe que gosto dela apareceu-me dia desses com um livro imenso (554 páginas), biografia por Barry Paris, edição da Nova Fronteira, e deu-me de presente.

A capa e a contracapa trazem fotos tão belas de Garbo que o fã corre o risco de comprar o calhamaço só pela sedução que exercem. Terá más surpresas lá dentro - as fotos internas, embora de importância histórica inegável, são em geral reproduções bem fracas e precárias.O livro acaba valendo de fato é pelo que Barry Paris escreveu.

Mas, no caso de biografias de astros e estrelas de cinema, o fenômeno básico do "star-system" - o da idolatria cega do espectador a seus deuses - continua em pé. Duvido que alguém que gostasse de, por exemplo, Lana Turner, e com certo discernimento literário, pudesse apreciar o que a falecida estrela de "A imitação da vida", adorada nos anos 50, escreveu sobre si mesma (com auxílio de algum "ghost-writer") num livro da Francisco Alves chamado "Lana", ainda encontrável em sebos. Leu como fã, e nada mais. Mais uma leitura de fã é sempre apaixonada, uma espécie de consumo vicioso, e os livros desse tipo são consumidos sem muita exigência de que o escritor seja bom. Basta ser competente, na linha dos fazedores de best-sellers meticulosos e bons pesquisadores que os Estados Unidos produzem às pilhas. Ninguém se importa muito, na verdade: amar as estrelas de cinema é uma espécie de fraqueza intelectual só justificada pela paixão, que às vezes se confessa não sem certa vergonha. Como cinéfilo, cometo dessas fraquezas com regularidade - acumulo um bom número de livros sobre atrizes e atores cuja qualidade está entre o dúbio e o razoável.

Barry Paris, autor desse "Garbo" tão bonito de capa da Nova Fronteira, é um desconhecido entre nós - escreveu para publicações como "The New Yorker", "Vanity Fair" e "American Film". Biografou também outro mito, mas menor que Garbo, do cinema mudo: Louise Brooks, Lulu em "A caixa de Pandora", de Pabst.

Paris parece ter tido muito cuidado em seu empreendimento - um monte de gente é citada, agradecimentos por depoimentos ouvidos são feitos em profusão e o livro tem um ar digno e convincente. Mas, há algo com as biografias de estrelas que é paradoxal: queremos saber muito, mais, mais, mais, queremos saber toda a verdade (se tal é possível), juramos exigir qualidade e rigor nisso, mas ao mesmo tempo ignoramos as manipulações, adulterações, ajustes etc que podem ter sido feitos pelos biógrafos - estamos ávidos por bisbilhotices saborosas, historinhas que nunca, na verdade, poderão ser comprovadas, detalhes engraçados, grotescos, comoventes. Em suma, todo mundo, ao ler um livro desse tipo, é suspeito: suscetível de ser alimentado por mentiras ou meias-verdades intoxicantes, tem como matéria de seu interesse o ídolo, que, como objeto de devoção, desperta um apetite pela irracionalidade que pode ser despudorado e sem limites.

Garbo, em toda a sua vida, foi vítima precisamente disso, da idolatria que sufoca, que interroga desesperadamente, que quer entrar em todos os poros do idolatrado, não deixar um respiradouro para o ser humano, a pessoa que há por trás do mito. Essa curiosidade sempre lhe pareceu apavorante. Era uma moça de grande beleza não lapidada, ao chegar a Hollywood, levada pelo diretor sueco Mauritz Stiller, e foi refeita (tinha dentes tortos e era gordinha) para ser formatada pela Metro como a divina Garbo que o mundo conheceu e amou. Com atos e perguntas ingênuas, falando Inglês com dificuldade, simplória como uma camponesa sob muitos aspectos, ficou isolada em Hollywood, detestando o sol e o calor da Califórnia, morrendo de saudades da Suécia. Molhava-se o tempo todo, para combater o calor, e sonhava com neve. Stiller tentava cuidar de sua vida, mas envolvia-se perigosamente com michês homossexuais, e, por excesso de ego, não agradou aos produtores norte-americanos, mais ególatras que ele e com o poder de erguer e desfazer carreiras. Voltou para a Suécia sem fazer filme algum e morreu esquecido. Garbo ficou só, tendo que construir sua carreira com dramalhões em geral horrorosos. Detestou tudo aquilo e, forçada a adaptar-se aos modelos publicitários dos estúdios da Metro, foi aos poucos rebelando-se contra toda aquela hipocrisia puritana, alimentada por fuxicos sádicos, recolhendo-se, esquivando-se. Como tornou-se um grande sucesso, aprendeu a fazer as coisas à sua maneira e a impor seu temperamento. A "griffe" Garbo passou a incluir a recusa obstinada à publicidade. Era uma aversão verdadeira e foi tomada como pose. Mas, ela estava envolvida com contradições insolucionáveis - ser uma estrela de cinema amada por todo mundo e ao mesmo tempo uma eremita é coisa para enlouquecer.

Entre a fama e a reclusão

É muito boa a parte relativa à sua infância, quando Paris a mostra como uma menina que parecia ter consciência de que era predestinada a ser uma rainha solitária e mostrava já um enorme medo da fama. Isso não parece charme - Garbo era, ao que parece, patologicamente sensível aos terrores da superexposição, e, mesmo com um apetite vaidoso, humanamente compreensível, por tornar-se famosa, nunca se reconciliou com os preços inevitáveis trazidos por isso. Sofreu com essa situação mais que outra estrela que se conheça. Esse é seu maior enigma, e parece uma brincadeira particularmente cruel do Destino que uma mulher tão fóbica a essas coisas tenha se tornado a criatura mais famosa do planeta.

Avançamos para os filmes, mas alguém escreveu que Garbo passava por eles como uma condessa fazendo uma visita a uma favela. E é verdade: alguns são peças de museu que não precisam ser revistas, embaladas pela música de um certo Herbert Stothart, compositor da Metro que roubava escandalosamente melodias de Tchaicovsky. Seus galãs foram, no mais das vezes, atores fracos, quando não infames. Os únicos filmes que se salvam são "Rainha Cristina", "Ninotchka" e "A dama das camélias", porque neles foi mesmo insuperável. Há também a sua interpretação marcante para "Ana Karenina", quando parece amar mais o filho que o amante (Vronski, vivido por Fredric March) e está soberba como a suicida de Tolstoi.

Sua carreira termina nos anos 40, com o fracasso de uma comédia, "Duas vezes meu", que parece nem ser lembrada no Brasil (ou em qualquer outro lugar do mundo), quando foi dirigida por George Cukor. Já tinha criado uma fama dúbia - diziam-na lésbica, mas nada se provava, embora tivesse muitas amigas homossexuais e gostasse de ser cortejada por elas. A Metro inventou que tinha um caso com o galã John Gilbert (risível em "A rainha Cristina"), e ele na certa esteve apaixonado por ela, mas Garbo era avessa ao casamento, avessa a ligações, e sempre foi assim - parecia querer ser amada, adorada sim, mas tocada, não. Os casos mais ou menos públicos que teve foram célebres - com o maestro Leopold Stokowski e com o fotógrafo Cecil Beaton. Beaton era homossexual assumido e talvez por isso não a incomodasse muito (a agressividade que ela supunha ser inseparável dos homens heterossexuais a apavorava). Ele foi oportunista com ela, mais que a amou: fotografou-a e divulgou as fotos sem sua autorização, e ela nunca o perdoou. Traiu-a no que prezava mais: sua privacidade. Tudo indica, com Gilbert, Stokowski, Beaton e com as amantes que condescendeu em ter, que Garbo foi bissexual, mas sem entusiasmo. Referia-se a si mesma, na intimidade, como um homem, de vez em quando: "O garoto aqui fez isso...o garoto aqui fez aquilo". Lançou uma moda andrógina, andava de calças masculinas, fez das suas, e garantiu para sempre um culto entre os homossexuais, mas, a rigor, era tudo e era nada, sexualmente.

Quando se afastou do cinema, já uma mulher muito rica (e com fama de sovinice fora do comum), Garbo reassume, na verdade, uma personalidade um pouco banal superestimada pelo fato de ser uma reclusa. Volta e meia ameaça voltar às telas com roteiros que lhe são oferecidos por dezenas de diretores e produtores que a veneram, mas não volta. Dedica-se aos amigos e a uma vida em fuga a repórteres, fãs, revistas, jornais, televisões - sempre apavorada com ser reconhecida, multiplicando pseudônimos, arranjando endereços e números de telefone a que pouquíssimos tiveram acesso. Passará a sua vida, envelhecerá, como uma criatura "à deriva" (ela mesma dizia isso), amiga de milionários que compreendem sua esquivança, escondendo-se na Suiça, andando pelas ruas de Nova York como uma caminhante comum, debaixo de roupas sem graça e óculos escuros.

É onde o livro fica enfadonho. Garbo começa a nos parecer insuportável, abusiva com os amigos de quem exige códigos, mudanças de comportamento, dezenas de concessões e ajustamentos para que não seja perturbada, para que os importunos não apareçam. Não desperta simpatia essa ociosa que decide viver numa vadiagem sem sentido, abastecida por uma conta bancária segura, pelo resto da vida. Parece uma "perua" neurótica, desocupada e com mania de dietas, remédios, de freqüentar charlatões "esotéricos" etc. É dada a rompantes de generosidade, mas em geral, como quase toda pessoa muito rica, tem um culto doentio ao dinheiro pelo dinheiro, e fica com jeito de uma velha avarenta, egoísta, que não gostaríamos de ter como vizinha. Como leitor, a gente sente vontade de dizer que seus sofrimentos são uma frescura, que seu exílio de rainha do passado é uma chantagem emocional para manipular todos ao redor, e espera que alguém de seu círculo tenha um dia a coragem de lhe dizer isso. Mas, todo mundo a venera e tolera. Ela não podia se queixar: teve idólatras e fãs embasbacados até o fim da vida. Carregou para seu pequeno círculo o mundo de adulação pública que teve na Metro, nos anos de cinema. É duvidosa a sua ojeriza a ser paparicada - contraditoriamente, ela gostava bastante disso. O que queria era ser paparicada de modo muito peculiar, segundo um código bastante restrito.

O que há de poesia, nessa árida segunda parte, é uma confissão patética: saía de casa em Nova York e se punha a seguir qualquer pessoa desconhecida na multidão, indo onde ela fosse, apenas para ter um objetivo, confundir-se com uma humanidade de que sempre procurou ficar distante. Nesses passeios, era reconhecida por muita gente - outros famosos, como o escritor Truman Capote. Faziam parte de um grupo informalmente conhecido como os Vigilantes de Garbo. Há uma beleza nisso - gente que protege a solidão de um mito das implacáveis investidas e da curiosidade estúpida do mundo. E morreu assim, com pouca gente por perto,sem voltar ao cinema, rarefeita, só lembrada pelo rosto e por ter sido o único encanto (aliás, persistente) de muitos filmes ruins.

Garbo é material contraditório e o livro é um pouco estafante, apesar de detalhado e bem escrito.Foi o mais completo que li sobre a estrela, e reconheço que, quem não a admire muito, não poderá ser atacado pela falta de paciência para ir até o fim com a leitura.

Mas, vale a pena comprá-lo, mesmo que não seja para lê-lo. Muita gente ficará satisfeita só de olhar para a capa e a contracapa. Nunca houve rosto como aquele.

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Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

 

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