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Um olhar sobre a mulher

Ana Valença*

Mulher hoje: liberada ou ainda oprimida? Quando dava aulas de redação, esse era o meu tema predileto. Em forma de pergunta, deixava os alunos ansiosos pela resposta. Então vinha a produção das idéias e o debate, que era sempre excitante. Mas eu sempre constatava a presença da dúvida. Quase ninguém conseguia responder com certeza sobre a liberação ou opressão da mulher. Penso, por isso, que se trata de um mote sempre vivo e atual, capaz de fertilizar discussões.

A evolução social da mulher é um tema já conhecido. Cientistas sociais procuram entender as modificações que a libertação feminina acarretou para a família. O assunto é inesgotável. O cinema e a literatura constituem também bons caminhos para compreensão da matéria . Há bons filmes sobre o tema. Quanto à literatura, abro aqui espaço para referir-me ao conto A ossatura – que dá título ao livro de Jeová Santana. ( A ossatura, Recife: Ed. do autor, 2002).

Jeová Santana é sergipano de Maruim, onde nasceu, em 1961. É professor, graduado em Letras pela UFS e mestre pela Unicamp. Seu livro anterior chama-se Dentro da Casca – também contos, de 1993.

O conto em pauta é bem representativo do debate sobre a opressão/ libertação da mulher. A personagem vive ainda a plena opressão: do pai que a espanca, ela transita para o marido, que fará o mesmo. Mas o que ressalta na narrativa é a revolta da personagem, sua consciência forte e seu desejo de libertação. Textualmente, assim está: “Que outras mulheres irão conviver com relações menos sustentadas na força movida pelo dinheiro, já de agora eu queria me incluir entre elas, mas sabia que os resultados desse empenho não seriam saboreados por mim. Abrir mão do desejo da luta é o que não faria nunca.” (p. 59).

No texto é, portanto, a luta da personagem contra a opressão o que mais se destaca. Como o pai agressor, o marido é também um homem da terra. Mas a mulher do texto a ele tem asco, aos seus olhos barrentos, aos seus presentes, às suas carícias, as suas mãos. A revolta contra a tirania daquele casamento forjado, sem amor, está representada no texto com a intensidade que o final atesta: o marido opressor desaparece, empurrado para a morte pela personagem. A ela, a cadeia e a manutenção das algemas. Liberada, mas presa. O conflito permanece.

Em A ossatura, outro conto que evidencia o sofrimento feminino é Caixa Postal. Aparece também o pai irado que não permite o namoro das filhas: “Namoro na porta, só quem tivesse emprego e já viesse com a data do casamento na ponta da língua.” (p. 40). A personagem Flora, para fugir da tirania paterna, cultiva o sonho de encontrar um amor, capaz de libertá-la da rudeza do pai. Dedica-se intensamente a escrever cartas para o correio sentimental das revistas e nessa atividade deposita toda a esperança. Ela acreditava que de outra cidade poderia vir um pretendente, que lhe traria a redenção. Hoje, a antiga carta foi substituída pelo e-mail, pelo amor virtual. A tirania sobre a mulher ainda existe?

O livro de Jeová vai além desse interesse pela condição feminina.. Outros temas estão presentes abrangendo o ciclo da vida e seu contraponto – a morte. Ao leitor, a tarefa de ler os contos e descobrir o olhar do autor; sua visão de mundo sobre a existência humana.

Em tempo: o autor está sendo estudado pelo grupo de pesquisas literárias da UFMG. O estudo vai mapear a produção dos autores afrodescendentes.

Sobre o Autor

Ana Valença: Professora de Produção de Texto
macedovalenca@hotmail.com

 

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