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RESENHAS

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Carpintanejaria poética

Ronaldo Cagiano*

Embora tenha escrito literalmente a "Biografia de uma árvore", Fabrício Carpinejar jamais viveu nas suas sombras. Nem na dos pais. É um autor no batente, na forja, na usinagem da palavra, procurando encontrar o ponto de liga: sua a camisa, arregaça as mangas e não vive às expensas do pedigree familiar (apenas a fusão patronímica dos sobrenomes da mãe Maria e do pai Carlos lhe serve de referência nominal, não de muleta para absorção pelos leitores ou críticos). A sua herança poética é uma compilação de sua experiência de carpintaria, na vida e na poesia. Uma antologia precoce apenas na hierarquização temporal, mas suficientemente madura para respaldar a sua compreensão do universo humano a partir de si. Seus parâmetros visuais, auditivos, olfativos e táticos mobilizam seu estilete interior. Carpinejar sabe tocar a pele das coisas, a epiderme do mundo, as vísceras da consciência, o fluxo dinâmico das emoções que caminham num leito pressuroso rumo ao mar - como ele que antes dos trinta anos já sabia de cor as outras margens do rio existencial, a terceira e a que está por ser desvendada, margens que levam aos setenta anos nessa adolescência poética a intencionar outras idades sem queimar etapas.

Se não carrega o peso da procedência, muito menos se vale do rescaldo das luzes poéticas da casa. Fabrício tem sua própria incandescência, cujo facho muitas vezes flexiona-se para a retaguarda, com aquela mesma sutileza semântica de que um dia nos falou Pedro Nava, a propósito da experiência (seja ela literária ou humana), como sendo um "automóvel com os faróis voltados para trás".

Há dois temas recorrentes em toda sua poesia: a memória afetiva e a relação familiar, principalmente esboçada na figura do pai, que merece, ao longo de suas expansões (entre o onírico e o poético), um certo ritual de (re)conhecimento, em que ambos se apresentam e se desnudam. E é a partir dos encontros & desencantos, da recuperação do herói devolvido em suas deambulações semânticas que se instaura um forte testemunho de quem, tão jovem ainda, viveu todas as épocas e tem tutano para regurgitar fantasmas e estofo para o exorcismo dos demônios da caminhada.

Com espírito aguçado a olhar o futuro com a sensação metafísica de já ter curtido tudo, o autor lança sua antologia precoce. Em "Caixa de sapatos" reúne o que recolheu de seus livros anteriores ("As solas do sol", "Um terno de pássaros ao Sul", "Terceira sede" e "Biografia de uma árvore"), depois de mergulhar sua bateia no amplo aluvião de uma produção poética que traz a contundência das descobertas e a sutileza das sentenças filosóficas . O resultado não poderia ser melhor: o mosaico de uma obra que vem num crescendo, que insiste (e por isso vai longe) em libertar-se, a cada livro, dos cânones, dos ismos, dos cacoetes, impregnada que está de uma autonomia que só compreende as dissidências e detestas a unanimidades.

"Caixa de sapatos" é uma pequena artilharia contra o tédio e uma esperança na vitalidade de uma nova dicção da poesia brasileira.



O poeta gaúcho Fabrício Carpinejar é um dos destaques da 49ª Feira do Livro de Porto Alegre. Acompanhe também o BLOG do Poeta.




Sobre o Autor

Ronaldo Cagiano: De Cataguases, cidade mineira berço de tradições culturais e importantes movimentos estéticos, surgiu Ronaldo Cagiano. É funcionário da CAIXA. Colabora em diversos jornais do Brasil e exterior, publicando artigos, ensaios, crítica literária, poesia e contos, tendo sido premiado em alguns certames literários. Participa de diversas antologias nacionais e estrangeiras. Publica resenhas no Jornal da Tarde (SP), Hoje em Dia (BH), Jornal de Brasília e Correio Braziliense, dentre outros. Tem poemas publicados na revista CULT e em outros suplementos. Obteve 1º lugar no concurso "Bolsa Brasília de Produção Literária 2001" com o livro de contos "Dezembro indigesto”.

Organizou também várias antologias, entre elas: Poetas Mineiros em Brasília e Antologia do Conto Brasiliense.

 

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