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Herzog, Anderson, Oz e Wright: passagens pelas locadoras

por Chico Lopes *
publicado em 12/05/2008.

Eis alguns resultados de minhas idas freqüentes a locadoras, nos últimos meses. Espero que as dicas sejam úteis para adeptos e incautos:

O SOBREVIVENTE - Werner Herzog, o gênio alemão que nos deu filmes como "O enigma de Kaspar Hauser", "Nosferatu", "Aguirre - A cólera dos deuses" e tantos outros, ainda está na ativa. Há um excelente documentário seu nas locadoras, "O homem urso", e, de repente, quando se pensava que ele se restringira a este gênero, surgiu essa produção de 2006 com Christian Bale, o último "Batman", no papel principal.

Ele é um personagem verídico (Herzog já filmara um documentário a seu respeito), o alemão Dieter Dangler, que se engajou como piloto na América no início dos anos 60, mas teve a má sorte de pegar os primórdios da guerra do Vietnam, nos bombardeios sobre o Laos. Seu avião sofre um acidente e ele cai na selva. Será capturado e levado a uma prisão, que dividirá com outros, americanos e asiáticos supostos inimigos dos vietcongs, em condições inumanas.

Tudo isso faz pleno sentido dentro da arte cinematográfica e dos temas usuais de Herzog, que filma como ninguém selvas e personagens visionários perdidos em sonhos patéticos. A fotografia é soberba, e o início é deslumbrante, com bombardeios feito um delírio pirotécnico em câmera lenta, ao som da música maravilhosa de Klaus Baldet, que parece um pouco derivada do Adagietto da Quarta Sinfonia de Gustav Mahler utilizado em "Morte em Veneza", de Luchino Visconti.

Mas as coisas começam a se perder com as apelações - torturas, comer vermes, vísceras soltas. De repente, o filme parece ter caído na vala comum dos "Rambos" e "Braddocks" e já se sabe que Christian Bale, o sobrevivente, será macho-paca, matará quantos vietcongs puder e sofrerá o diabo, mas será um herói resgatado pelos americanos. Ele planeja a sua fuga para o dia 4 de julho (em matéria de simbologia, nenhuma sutileza; decididamente, não é Herzog, mas mão pesada de produtor).

Há coisas bonitas nesse filme, e os atores estão muito bem - Bale, Jeremy Davies e Steve Zahn foram dirigidos como nunca em sua vida. No entanto, o comercialismo tem um peso desfigurador, mesmo para um grande diretor como Herzog, e sabe-se que o filme será sucesso nas locadoras para aquele tipo de espectador que curte "Jogos mortais" e na certa vai querer ver o ator que faz o Batman comendo vermes na cena particularmente repugnante e de um sensacionalismo desnecessário. Para esse espectador, as belezas da direção de Herzog serão invisíveis, e sinto informar que ele representa 80% do público de hoje em dia. O final de "O sobrevivente", decididamente, é de uma pieguice e de uma demagogia vergonhosas.

Esse é um filme contraditório, e, se Herzog bobear, vira um diretor conforme os padrões do "Cinemão", fazendo com os que o admiraram por "O enigma de Kaspar Hauser" e outras obras-primas fiquem totalmente na saudade. Ele, quem diria, pode acabar nos escombros de Hollywood...

VIAGEM A DARJEELING - Sob a direção de Wes Anderson, um nome do cinema americano que vem sendo prestigiado nos últimos anos (mas talvez seja um equívoco), este é um filme cujo título é um convite à locação, especialmente para alguém como eu, que gosta da Índia no cinema e de filmes de viagens. Em todo caso, nada me preparava para a decepção que tive.

Decididamente sem gênero, é uma das maiores bobagens cinematográficas que já vi em minha vida (e me espanta que certa parte da crítica tenha gostado). Que é que Anderson queria fazer: uma comédia, uma alegoria, um retrato realista de três irmãos americanos meio birutas que não se dão muito bem e procuram a reconciliação ao gênero "em busca da verdade interior com um guru indiano"? Nada funciona, nem a veterana Anjelica Huston, que interpreta a mãe e aparece pouco, aliás, envelhecida e feia.

A favor de Anderson, diga-se que faz enquadramentos muito bonitos, que a fotografia, com cores e paisagens indianas, é muito eficiente, e que o elenco é esforçado. Mas é também supremamente sem graça, refletindo a decadência que o cinema americano vem experimentando em termos de atores cômicos. Owen Wilson e Jason Schwartzman fazem dois bobocas, nada menos. Fazer bobocas, nada contra - Jerry Lewis fez inúmeros, mas com genialidade. Wilson e Schwartzman provam que nada é pior do que a cretinice que não faz rir.

O pior, no entanto, fica para Adrien Brody, que decididamente não é um cômico, não é nada definível, aliás, e marcou tanto pela interpretação premiada em "O pianista" que nunca mais conseguiu convencer em outros papéis. Tem um rosto específico e excêntrico demais para que o aceitemos senão como o sofrido personagem de Polanski naquele filme, esta é a verdade. E conseguiu até arruinar algumas produções de outros gêneros de que participou. "Viagem a Darjeeling" é mais uma.

MORTE NO FUNERAL - Bom diretor de comédias, Frank Oz já provou seu talento com algumas como "Os safados" e "Os trapaceiros", que me lembre.

Em "Morte no funeral" está à vontade filmando, em Londres, uma família inglesa que vive o momento solene e melancólico da morte do patriarca e se reúne em torno de um caixão. Desde o início, no entanto, sabe-se que haverá confusão, começando pelo fato de o corpo chegar trocado no caixão: a cara compungida de Mathew MacFadyen ao descobrir que aquele não é seu pai dá o tom de todo o filme para o espectador.

Depois, tudo acontece: o namorado de uma filha, nervoso, a conselho dela toma ácido com mescalina e outras drogas de um vidro que ela julgava ser de Valium, e suas alucinações serão hilariantes para o andamento do funeral; um tio velho, em cadeira de rodas, irascível, circulará entre os personagens feito um embaraço vivo, com suas vísceras soltas; um anão misterioso quererá conversar em particular com o filho incumbido do funeral e fazer revelações; a certa altura, todas as tramas e subtramas se precipitarão numa confusão simultânea de deixar o espectador atônito e deliciado. Oz sabe fazer essas coisas muito bem.

Mas, eis a fraqueza: as revelações do anão são previsíveis (e o anão obsceno é um clichê de certo tipo de comédia) e a cena do desafogo das vísceras do tio velho é horrenda. Conclui-se que parece impossível no cinema atual, mesmo para um diretor algo mais refinado como Oz, não apelar para essas baixarias de programas de auditório os mais desqualificados da tevê aberta.

É talvez um filme muito mais sensacionalista do que divertido. Há nele um tom de humor negro e escatológico que o deixa ligeiramente mais para sinistro. E aquela branquelice dos ingleses (revelada na nudez do personagem Simon sobre os telhados, drogado e ameaçando pular) é mesmo muito feia. Mas as interpretações - ressalve-se - são todas de primeira.

ORGULHO E PRECONCEITO - O diretor Joe Wright fez este filme, que o revelou, antes de realizar o sucesso "Desejo e reparação", que o levou ao Oscar neste 2008. Wright prometia, mas pouca gente viu "Orgulho e preconceito", por alguma razão que me escapa.

É um triunfo. Nunca uma adaptação de romance de Jane Austen me pareceu tão bem sucedida. O elenco é muito bom, ainda que Keira Knightley, no papel principal, de Elizabeth Bennet, pareça um pouco insegura. Mas Mathew MacFadyen (que vai se revelando excelente ator, como vimos na comédia comentada acima) faz um Mr. Darcy de primeira, apaixonado, contido, contraditório, orgulhoso, esnobe, perplexo com o que sente por Elizabeth a ponto de arrancar lágrimas. Amor contido é aquilo: vê-se o objeto de nossa paixão, e tudo nos confunde, nos parece sublime, urgente e sem remédio. Tudo que falamos, mesmo a coisa mais banal e sem nexo do mundo, parece dizer outra coisa, mais essencial e também mais desesperançada. O olhar de Mathew diante de Keira é perfeito.

A história de Austen envolve uma família inglesa do campo, cinco filhas e seus pais preocupados com o futuro delas - em resumo: bons partidos masculinos para casar. Tudo é muito sórdido na questão de espólios, patrimônios e injustiças jurídicas da Inglaterra do Rei George, mas Austen tem finesses de humorista e sutileza de sobra, e seus diálogos chegam à tela com muita dignidade, mantendo a inteligência crítica.

O filme avança entre romance e drama, observações sociais precisas e seguros movimentos de câmera, jamais se tornando monótono, com uma fotografia que, retratando a beleza dos campos ingleses, chega a lembrar pinturas de Constable. Além disso, traz dois veteranos comoventes como os pais: Blenda Blethyn e Donald Sutherland.

"Orgulho e preconceito" termina com uma dignidade que faltou ao filme de guerra de Herzog. Cabe a Sutherland dizer a frase que encerra o filme, deliciosa, poética, engraçada e realista, a um só tempo. A impressão que fica no espectador é a melhor possível: vimos gente realmente nobre, ambígua, interessante e humana em ação, e nossa alma, ufa, se lava!...

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

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