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PAUL BOWLES: autobiografia e contos de um viajante sem volta

por Chico Lopes *
publicado em 08/03/2008.

Paul Bowles como escritor e personagem começou a me despertar interesse - como acho que em quase todo mundo que o leu - pelo filme "O céu que nos protege", de Bernardo Bertolucci. O filme mexeu com gente menos convencional, precisamente por tratar de dois viajantes nada convencionais, Paul e sua mulher, Jane Auer. Bem óbvio que eles eram a fonte direta de inspiração do casal vivido no filme por John Malcovich e Debra Winger.

Nos anos 90, com esse sucesso cinematográfico obtido em nichos mais intelectualizados, houve um interesse editorial pela obra de Bowles no Brasil e, na ocasião, comprei dois livros seus editados pela Rocco, "Chá nas montanhas" e "Um amigo do mundo", que ainda, com sorte, podem ser encontrados em sebos e promoções.

Uma escritora amiga, Yara Camillo, falou-me de Bowles no final do ano passado e se referiu a uma autobiografia do escritor que eu não conhecia: "Tantos caminhos", lançada no Brasil pela Martins Fontes (edição de 1994).

Yara acabou me emprestando "Tantos caminhos" e mergulhei na leitura. Achei o livro muito interessante, decisivo para se entender a personalidade do escritor a partir de sua vida, e é uma pena que seja item de sebo, porque muita gente poderia se aproveitar da leitura. Poderia ser reeditado, mesmo com a onda Bowles tendo passado. Aliás, uma das vantagens da "poeira assentada" na questão das modas literárias é que se pode conhecer melhor um autor e sua obra tempos depois que o incensamento automático e duvidoso já sumiu de vista e os consumidores de cultura, tão fúteis, novidadeiros e desmemoriados quanto quaisquer outros, nem têm mais nada a dizer a respeito de dada figura e de seus livros. Com paixões e foguetórios apagados, faz-se um juízo mais sóbrio do que houve (tem-se a impressão de que essas ondas são ainda mais levianas entre nós, porque pouca gente lê de fato o que diz estar lendo; quase tudo é citação vaga para impressionar patotinhas presunçosas).

Em "Tantos caminhos", partindo da infância de Bowles, de sua formação no meio de uma família norte-americana branca, rígida, puritana, rica e tipicamente ianque, já se desenha o Bowles inconformista, nada entusiasta da cultura norte-americana, que preferirá a África e o Oriente e as incertezas da vida em países do dito Terceiro Mundo ao sufoco de um país cuja mistura de racionalidade materialista e puritanismo tacanho parece abominar. Claro que, sem o dinheiro americano, ele nem poderia viajar e se aventurar tanto.

Há aí um ponto embaraçoso e antipático, que permite certas especulações cínicas a respeito de gente que pode ser anti-convencional à vontade, devido às heranças de família e às contas bancárias. Mais tarde, Bowles poderá até comprar uma ilha no Sri Lanka. Motivos para não se levar muito a sério sua preferência por países estrangeiros e condições de vida difíceis não faltarão - quem disser "com toda essa grana, até eu...", terá lá as suas razões. No filme de Bertolucci, inclusive, Paul e Jane parecem turistas de luxo, envolvidos numa tragédia que parece uma punição até lógica para frescos endinheirados com idéias birutas. O filme só começa a incomodar e fascinar depois que se supera essa impressão inicial.

Porque Bowles é fascinante, mesmo debaixo de tantos motivos para aversão e desprezo. É um inconformista visceral, não quer aquela vida, aquela família, aqueles parentes. Tem a chamada "excentricidade" do artista verdadeiro no sangue. O que procura são mundos onde essa estranheza não seja tão estigmatizada, porque já são lugares de estranheza e desterro, intratáveis e isolados por si só, e por isso acaba se fixando em Tanger, passando a atrair muita gente famosa e excêntrica da cultura americana para lá. Qualquer turista, mesmo o mais esquisito, desde com dinheiro, pode ser bem tratado no lugar mais intolerante. Mas as coisas, claro, são muito mais amplas e ambíguas do que esse cinismo baseado na dúvida utilitária de quem não acredita muito em Arte.

Dos dois livros de contos seus que li, "Chá nas montanhas" me pareceu o melhor. Bowles não é um escritor qualquer, até porque, com seu currículo de compositor, a prosa lhe veio tarde (começou com poesia, e Gertrude Stein, a própria - pois era sua amiga - fez com que compreendesse que não era poeta coisa nenhuma). Sua prosa de contista é simples, fluente, sem inovações formais, invencionices joyceanas ou cansaços do gênero, e se planta em paisagens e culturas estranhas de um modo que parece o mais adequado para colher as impressões mais fortes e verdadeiras: sem julgamento.

O que há de explosivo em sua literatura são os assuntos. Nenhuma história, embora simples, é comum. Tudo trata de uma radical diferença, de um abismo impossível de transpor entre personagens que, grosso modo, podem ser classificados como reflexos do casal Paul-Jane em viagens, em países miseráveis onde qualquer diálogo com o outro é ilusório: mesmo sob dinheiro de turista rico, o estrangeiro não se converte em nada familiar e tranqüilizador. Bowles desanima os bem-intencionados ideólogos que acham que o mundo pode se aproximar e afinar, com suas diferenças. Ele registra com a maior precisão (precisão aterradora, para dizer a verdade) a estranheza entre personagens de culturas diferentes: não há entendimento possível.

A melhor narrativa nesse sentido, pois é quase paradigmática, é a de "Um episódio distante". Nela, um professor se perde na África do Norte, é capturado por nômades que lhe cortam a língua e transformam-no num brinquedo grotesco, num palhaço, até que, quando ele decide reagir à situação completamente atroz, só pode fazê-lo da forma mais bestial. A Civilização (ou certa idéia tão amável quanto falsa que emana dela, muito acalentada por esses visitantes de lugares inóspitos) é completamente dissolvida nesses contos. Mas Bowles não é ingênuo: sabe que o mal-estar e a inquietação que carregam esses personagens para fora, para muito longe de sua cultura original, é uma acusação pesada a esta, e que eles são é descontentes da tradição judaico-cristã-capitalista atraídos por paraísos obscuros onde terão que se defrontar com a derrocada de suas ilusões e a emergência de seus demônios, deixando a nu sua má-fé de "cultura superior" também - a culpa vem de todos os lados. Nada terá solução pessoal pacífica.

Um conto particularmente perturbador, com um tema dificílimo - uma atmosfera de sedução homossexual entre pai e filho - é "Páginas de Cold Point", que se lê com um incômodo crescente. Em "O Eco", uma filha vai se defrontar com a amante de sua mãe na Colômbia e ser excluída do "casal" que se formou numa paisagem tropical à beira de um precipício. Bowles tem um curioso prazer em desmontar certos estereótipos das culturas brancas atraídas pela possibilidade de fazer coisas proibidas em países estranhos - mete seus "turistas" em encrencas particularmente difíceis para estabelecer um irônico relativismo em que se mesclam crueldade e compaixão, mas os contos são sempre bem escritos e distanciados, causando choques maiores devido à velha máxima de Kafka: "O que faz o monstruoso é a naturalidade com que é apresentado". Ele não escapou às suas contradições e não deixa ninguém escapar.

"Chá nas montanhas" tem, na edição que li (da Rocco), uma capa linda, reprodução de uma pintura de Jean-Leon Gerome chamada "The snake charmer". Lá está o encantador de serpentes da tradição turística. Mas, que ninguém se iluda quanto aos choques e desmentidos que a literatura de Bowles se encarregará de produzir lá dentro.

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
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