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Os caminhos de Rafaela

por Airo Zamoner *
publicado em 08/06/2004.

Transeuntes voltados para dentro de si mesmos, a pé ou motorizados, ruminavam seus problemas íntimos em busca dos sonhos diários, quando Rafaela apareceu em minha vida de forma repentina. Não a chamara. Não a invocara. Mas ali estava ela, gritando seu silêncio retórico, esbravejando suas angústias no trajeto pelo caminho imenso, sujo de esperanças infantis.

Rafaela chegou, tomando conta de meus pensamentos. Tentei afastá-la de minhas conjecturas, mas ela insistia em me interromper, invadindo minha privacidade com toda a leveza de sua alma, com a insistência e teimosia de sua idade dos sonhos.

Parada diante da janela de meu carro, era pintura viva. Olhou-me com olhos agudos, claros, invasores. A inexpressividade da pequena boca de Rafaela puxou minha perplexidade. Contrastava intrigantemente com seus olhos. Era estática, alheia, muda! Os olhos, estes sim, eram excepcionalmente densos de mensagens disparadas incessantemente, uma após a outra. Assim, ela se expunha inteira, assumindo meu enquadramento cômodo, sem pudor algum, deixando-me indeciso, sem palavras.

Tentei, de algum modo, agarrar aquele instante, congelar para uma análise mais demorada. Não deu tempo! O verde insistiu lá do sinal teimoso a organizar o caos e as buzinas impacientes me empurraram grosseiras, na pressa cansativa, cega, coletiva. Ainda pelo retrovisor pude vê-la franzina, miúda dentro da moldura do mundo, com seu vestido escorrido, desbotado, esfiapado, ralo. Meus olhos atingiram rápidos, os pequenos pés de menina, emporcalhados, tristes, dedos nus dobrando-se com força, na tentativa de agarrar o meio-fio, para equilibrá-la no desequilíbrio da paisagem. Quase abalroando o carro da frente botei, a cabeça para fora e gritei para trás:

– Como é seu nome?

– Rafaela! – gritou, acenando um adeus do nada.

Muitas vezes mais, num passeio inútil, inconfesso, passei por aquela esquina. Surpreso comigo mesmo, flagrei-me, buscando Rafaela para me livrar do peso de seus pequenos pés que me atormentam eternamente. Precisava ver novamente os olhos de Rafaela que me revelaram tantas impensadas coisas. Precisava decifrar suas mensagens sensatas, reveladoras de nossa imundície de almas abjetas a decidir destinos. Eles viam caminhos deslumbrantes. Seus pés, porém, seus tristes pés, não conseguiriam jamais percorrê-los, mas ela sabia.

Nunca mais a encontrei! Colecionei tentativas frustradas até transbordar o cântaro da consciência. Hoje, inexplicavelmente, quando a mentira, mais uma vez, assola descaradamente o espaço na abertura do dia, da hora, do minuto, reaparece Rafaela, entrecortando minha monótona leitura do mundo em abismo. Olhar penetrante, boca inexpressiva, pés pequeninos, sem caminhos. Levanto meus olhos enojados de mágicos ocidentais, orientais, e me estremeço. Minha boca abre num espasmo de grito e Rafaela surge intempestiva, parada em minha frente. Os mesmos olhos, contudo, desta feita, sua boca é que sorri. Ando em sua direção. Ela corre de costas, sorrindo, na brincadeira que afoga mandarins. Acelero o passo. Uma rajada de vento constrói nuvens de pó. O pó de meu tempo absurdo. O pó da inconsciência malvada a sonegar trilhas para seus pés esperançosos. Furioso, sacudo braços ensandecidos numa besta tentativa infantil de limpar a imagem. Meu corpo roda para todos os lados, não contenho a vergonha do grito:

– Onde está você, Rafaela!

Transeuntes em conluio nojento com a paisagem, os mesmo ruminantes de outrora, saídos momentaneamente de dentro de si mesmos, seguram-me pelos braços, sacodem-me, gritam:

– Chamem uma ambulância!

Sobre o Autor

Airo Zamoner: Airo Zamoner nasceu em Joaçaba, Santa Catarina, criou-se no Paraná e vive em Curitiba. É atualmente cronista do jornal O ESTADO DO PARANÁ e outros periódicos nacionais. Suas crônicas são densas de conteúdo sócio-político, de crítica instigante e bem humorada. Divide sua atividade literária entre o romance juvenil, o conto e a crônica, tendo conquistado inúmeros prêmios e honrosas citações.

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