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Um livro que ninguém lê

por Noga Lubicz Sklar *
publicado em 12/01/2008.

"não se preocupe, não sou tão intelectual quanto pareço. nunca li Nietzsche nem Hegel,
e o Ulisses de Joyce dorme há anos na minha cabeceira, esperando eu ter coragem de atacar.
no entanto, já vi muita coisa... os filmes velhos todos, de Aurora a Caligari. e Fred Astaire e Boggie...
depois Fellini, Almodóvar..."

Noga Lubicz Sklar em "Hierosgamos"


"Eu nunca li "Ulisses" de Joyce e provavelmente nunca o lerei", afirma com uma espécie besta de orgulho o francês Pierre Bayard, autor de um volume fininho e baratinho intitulado "Como falar de livros que não lemos?". Mesmo assim ele se considera apto a fazer referência a Joyce em suas aulas, já que está por dentro do assunto e da "situação" do épico romance. Azar o dele.

Não dá pra negar que uma breve sinopse de Ulisses tem lá sua breve utilidade, o que não substitui em hipótese alguma o prazer de mergulhar plenamente nele. Digamos assim: o enredo é um roteiro de viagem, um bem-bolado folheto de propaganda da agência com uma ou duas páginas e uma bela imagem na capa. Mas quem imagina que só isso basta, que já provoca o tesão - pessoal e insubstituível - da descoberta de um mundo novo, uma outra cultura, paisagens exóticas e o clima excitante do desconhecido, tsk tsk: se ilude. É como, mal comparando, visitar o Louvre pela internet e acreditar-se um connoisseur de história da arte. Ou se contentar com a Monalisa em foto de celular.

Vou contar pra vocês como é que estou lendo Ulisses. Sim, no presente: estou lendo. Porque mesmo que você leia esta crônica daqui a uns dez anos, quando ela finalmente for publicada em papel, isto é, se o papel existir até lá, eu ainda estarei lendo Ulisses. Algo dentro de mim, mais forte que eu, me garante que estar lendo Ulisses é um estado apaixonado de alma, mais ou menos assim como estar casado com a sua alma gêmea. Exagero, dirão alguns. Muitos. Quase todos.

Comecei lendo o Ulisses em português, na versão do Houaiss: a que eu tinha em casa há um bom tempo e nunca tinha tido coragem de abrir. Logo de cara me defrontei com a dificuldade: gente!, não estou entendendo nada!, que raio de palavreado estranho é esse? Tudo truncado, trocado, travestido? Foi quando um amigo querido me indicou a versão online do original em inglês, que acabei comprando pelo correio. Alívio. Tudo começa a fazer sentido, aimeudeus, graças a Deus: eu já estava me sentindo burra. Continuei a leitura, satisfeita, desta vez em inglês e português ao mesmo tempo... Até perceber que, pra fazer jus a uma ou duas crônicas que escrevi e a trechos de traduções que cometi, me sentia obrigada a ler a nova versão para o português de Bernardina Pinheiro. O caso é que com todo o sentido imenso que o Ulisses faz, a gente fica meio perdido num desvio filosófico ou outro, fascinado pelo ritmo, pela droga inebriante da rima, pela graça irônica do texto genial de Joyce e acaba se enganando, acreditando que aquilo é tudo. Que nada. É um vício exigente este tal de Ulisses. Não dá uma semana e você se vê envolvido com especialistas, interpretações, diferentes visões, correspondências mágicas, subtexto do subtexto do subtexto. E de quebra ainda faz uns bons amigos, isso é que é panelinha boa: eu recomendo meesmo. O problema é que nesse ponto você percebe que apenas arranhou a superfície da mina, se satisfez com a pirita dos tolos e nem chegou perto da verdadeira pepita. Tem que começar tudo de novo, já agora tendo lido a sinopse, a descrição dos dezoito capítulos que não existem no livro, o delírio pleno de Joyce que o próprio Joyce deixou de fora, embora mais tarde o confirmasse. É mais ou menos assim como quem se sente o fodão da madrugada aos vinte anos, convencido de que ejaculação é orgasmo. Ou pra falar do ponto de vista feminino que conheço mais, mais sobre isso mais tarde: se contentar com o ardor por desconhecer a vertigem.

Pelo sim pelo não: leiam Ulisses.

"Resumir um romance é tarefa fadada ao fracasso", escreve o crítico José Castello a respeito de Macunaíma, o símbolo modernista da literatura brasileira. "Sua força está na linguagem vigorosa e na mistura de seu enredo". Mário de Andrade acreditava que chegou a ter nas mãos material para obra-prima, mas deixou passar. Foi ele mesmo que apelidou o livro: "Macunaíma - a obra-prima que não ficou obra-prima". Acrescenta o Castello: "uma rapsódia, como as histórias de Homero". Não é o caso do seu contemporâneo irlandês. James Joyce teve nas mãos material para obra-prima. E a criou. Ele mesmo, aparentemente, nunca teve a menor dúvida quanto a isso, e nisso se deu muito bem. Ninguém leu? Azar de quem perdeu, não uma rapsódia, mas - Ó! Maravilha! - uma bem-mais-que-melodiosa sinfonia.

Acompanhe online a criação do meu próximo livro: Crônicas irônicas de Ulisses

Sobre o Autor

Noga Lubicz Sklar: Noga Lubicz Sklar é escritora. Graduou-se como arquiteta e foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica exclusivamente à literatura. Hierosgamos - Diário de uma Sedução, lançado na FLIP 2007 pela Giz Editorial, é seu segundo livro publicado e seu primeiro romance. Tem vários artigos publicados nas áreas de culinária e comportamento. Atualmente Noga se dedica à crônica do cotidiano escrevendo diariamente em seu blog.

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