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"Deus e o diabo na terra do sol": carta a alguns amigos _ depois de ver o filme

por Terezinha Pereira *
publicado em 03/07/2007.

Pará de Minas, 08 de fevereiro de 2007

Caros amigos:
Dia desses, vi um filme que me deixou uma sensação de arrebatamento que quero repartir com vocês. Nem sei se estão com tempo para ler, mas pode ser que algum dia algum o faça.

É um filme de 1964 que sempre esteve no meu imaginário. Não o vi na ocasião. Pode não ter passado nos cinemas de Pará de Minas na época em que foi lançado, que naquela época víamos filmes nacionais somente nos cinemas. No entanto, ouvi falar e li sobre esse filme em diversas fases ou circunstâncias de minha vida.

Desde minha primeira visita a Tiradentes, acho que em 1991, passei a me interessar pela história daquela singular cidade. Fui lá diversas vezes e a cada vez pude conhecer um pouco da história do lugar. Em 2000, visitei o Santuário da Santíssima Trindade, que nem faz parte do "circuito turístico" da cidade e lá pude ver uma imagem muito interessante do "Pai Eterno". Antes disso, nunca havia visto uma imagem de Deus, embora já tivessem visto muitas do diabo. (Mas não é bem esse o caso........) Lá, soube de uma romaria que acontece na cidade a cada ano, conhecida como Jubileu da Trindade. Isso me deu vontade de pesquisar mais, de até mesmo escrever um livro que tivesse Tiradentes e a festa da Trindade como pano de fundo. Esse livro está escrito, ainda não finalizado. (É também outro caso.)

Indagando, conversando com pessoas de Tiradentes, ouvi sobre a "Semana de Arte Moderna de 1922" e da viagem dos modernistas às cidades históricas de Minas, que ao ver de muitos historiadores e dos estudiosos da cidade, pode ser tida como um marco para o início da vontade de preservação das cidades históricas que hoje são o cerne do turismo em Minas Gerais. Em 1924, Tiradentes e mais algumas cidades de Minas foram redescobertas pelos modernistas, é a idéia. Como não havia ainda estrada asfaltada que levasse o turista a Tiradentes, o tesouro ainda ficou como que escondido por bastante tempo. Depois dessa viagem "modernista", foi criado o órgão responsável pelo patrimônio histórico no Brasil, acho que em 1927. No entanto, como se gastava mais de um dia de viagem para ir de Pará de Minas a Tiradentes, isso até lá por 1965, do Rio ou de S.Paulo, podia se levar dois dias pra se fazer uma viagem dessa e o trem era o transporte viável para tal percurso, durante muitos anos ainda não de dera uma nova descoberta.

Outra "redescoberta" de Tiradentes aconteceu quando Paulo Gil e mais alguns diretores "globais" visitaram Tiradentes em busca de cenário para uma novela. Nessa época, Paulo Gil, que havia sido assistente de Glauber Rocha em "Deus e o Diabo na terra do Sol", em 1963/64, fazia parte da equipe da Globo e acabou escolhendo também a paisagem e os moradores da terra para figurantes de seu para filme "Proezas de Santanás na Vila do Leva e Traz"

Interessante como muitas pessoas de minha amizade foram sendo, de alguma maneira, "arrolados" com o que senti e pude imaginar enquanto via o filme. Lembrei-me muito dessas pessoas, querendo mesmo estar junto com elas, para dividir o que estava sentindo.

Aqui, quero me dirigir ao professor, artista plástico e bombeiro voluntário de Tiradentes, Luiz Cruz, que me contou muito sobre Tiradentes, falou-me da visita dos modernistas e citou o poeta francês, Blaise Cendrars, que acompanhou os modernistas nessa viagem de 1924. Indicou-me alguns livros onde pude encontrar referências a tudo que ele disse e falou de um conto que Cendrars escreveu após essa visita, tendo Tiradentes como cenário, o qual ele havia lido somente em francês.

Por diversas vezes estive em Tiradentes durante a "Mostra de Cinema", que além de exibir filmes, promove conferências, mesas redondas, palestras, oficinas e homenagens a algum cineasta importante. Em 2002, Glauber Rocha foi um dos homenageados. Vi diversos filmes da programação e entre eles, um documentário sobre dona Lucinha Rocha, mãe do Glauber Rocha, que me deixou mais intrigada a respeito do trabalho dele. Pouco depois de ver o filme, tive o prazer de conhecer a dona Lucinha pessoalmente, que estava hospedada na mesma pousada onde meu marido e eu estávamos. Conversamos por mais de duas horas e ela me contou muita coisa a respeito do "Tempo de Glauber" que ela coordena no Rio de Janeiro com a intenção de recuperar todo o trabalho do filho.

Minha sobrinha Sílvia, que mora em Paris e faz doutorado em História é outra de quem me lembrei. Traduziu para mim o conto do francês Blaise Cendrars, citado pelo Luiz Cruz, "Vida Perigosa". (Aqui abro um parêntesis para lembrar Guimarães Rosa, o qual, em seus escritos, disse que "viver é muito perigoso" e que serviu de inspiração para Glauber nesse filme. Seria o dito de Rosa uma conclusão ao dito de Cendrars, "a vida é perigosa"?) Neste conto, Cendrars fala de uma conversa que teve com um homem que estava preso na cadeia de Tiradentes por assassinato. Esse preso, além de matar, havia comido o coração da sua vítima e isso o impressionara muito.Tive longas conversas com Sílvia a respeito dessas "descobertas" de Tiradentes e comentamos sobre a obra do Glauber, cujos participantes da equipe do "Deus e o Diabo", foram responsáveis por uma das "redescobertas" de Tiradentes. Nossas conversas foram entremeadas de literatura e história, objetos de estudo dela e também uma de minhas paixões. Quero contar a Sílvia que o filme menciona a História do Brasil, fala de uma guerra do final do século XIX, a Guerra dos Canudos, de Antônio Conselheiro, episódio que ocorreu pouco antes do movimento que ela enquadra no seu trabalho de doutorado_ a Revolta dos Marinheiros no Rio de Janeiro. Sílvia, acho que você gostaria de ver o filme e ver como diversos fenômenos que fazem parte da história do Brasil foram lembrados pelo Glauber em "Deus e o Diabo na Terra do Sol": o coronelismo que por séculos exerceu o poder sobre os menos favorecidos, tanto de dinheiro como de instrução; o messianismo de Antônio Conselheiro, representado no filme por um negro e ainda por cima de nome Sebastião, que caminha com seus seguidores por Monte Santo, que foi cenário de Canudos e também o cangaço nordestino, no caso após a morte de Lampião e bando, tendo continuação no filme pelo Corisco, que havia sido salvo da matança do bando.

Lembrei-me também de Dora Nunes, uma colega da Faculdade de Letras da UFMG, que recentemente apresentou sua monografia de mestrado, um belíssimo estudo sobre o cordel nordestino, onde ela priorizou a mulher cordelista. Glauber deu à narrativa de "Deus e o Diabo" o formato de cordel. Uma beleza, as letras que ele escreveu para músicas de Sérgio Ricardo, que estão inseridas no final desta carta. Outro ponto que me fez lembrar de Dora foi por ela ser de Vitória da Conquista, a terra natal do Glauber. Conversamos sobre o Glauber, quando comentei com ela que havia me encontrado com dona Lucinha Rocha em Tiradentes e visto o documentário sobre a vida dela e então soubera onde Glauber havia nascido. Segundo Dora, o trabalho de Glauber é motivo de orgulho para sua cidade.

A música me fez lembrar de Regina Marinho, Ana Cláudia e Júlio Saldanha. Regina, escritora e soprano: lembrei-me de você por causa de Villa-Lobos. Já tivemos longos papos a respeito da obra de Villa-Lobos. Embora leiga em matéria de música, sou apaixonada pela música dele. As "Bachianas Brasileiras" representam, para mim, o de mais belo que um brasileiro já pôde fazer em matéria de música erudita. É uma música contundente, que não me sai do ouvido por alguns dias quando a ouço. Glauber usou-as de maneira instigante e sublime em passagens epifânicas do filme.

Amigos, não sei lhes dizer se foi a música de Villa-Lobos, se foi a beleza da imagem com contrastes de sol e sombras, de escuro e claro, de "escravo" e coronel, de extrema lentidão e de contrastante agilidade, se foi a forma da narrativa, cujos cortes de cena são introduzidos pela voz de um cantador de cordel........ Creio que foi tudo isso junto que me levaram ao arrebatamento.

Aqui quero falar porque em lembrei de Ana Cláudia e Júlio, contadora e contador, que narram histórias pela palavra e pela música. Palavra e música foram fundamentais para a beleza desse filme. Senti a presença de vocês a meu lado.

Zé Roberto, autor, diretor e ator de teatro. Quero lhe dizer uma coisa. Uma vez, vi você ensaiando alguns jovens de oitava série do Ensino Fundamental para uma peça de teatro, baseada em "Dom Quixote", de Cervantes. Acompanhei você quando fez o roteiro da peça, quando propôs o roteiro aos estreantes atores e a sua garra quando dirigiu o grupo nos ensaios, até chegar a uma representação satisfatória. Senti a força do teatro. "Deus e o Diabo..." tem cenas que me fizeram lembrar seu trabalho de diretor. É um filme que, se não tiver visto ainda, acho que gostaria de ver para sentir o teatro, o jogo de sons, de falas e música com um silêncio que muito revela. Cenas longas, de extremo silêncio, outras com músicas, com expressões corporais. Essa coisa do filme me fez sentir dentro de um teatro.

Acho que me lembrei de mais gente, mas parece-me que vocês estavam comigo enquanto assistia ao filme. Abraços a todos e me desculpem por tanto palavrear. Seguem, abaixo, as letras das músicas do cantador, que também foram escritas por Glauber. (As melodias foram recolhidas do povo do sertão.) O que mais queria era um telão de cinema para ver esse filme de novo outras vezes.



Deus e o Diabo Na Terra do Sol
Composição: Glauber Rocha / Sérgio Ricardo

Romance do Deus Diabo

I
Anunciando ao público, marcante e lento:

Vou contar uma história
Na verdade e imaginação
Abra bem os meus olhos
Pra enxergar com atenção
É coisa de Deus e Diabo
Lá nos confins do sertão

Narrativo, lento:

Manuel e rosa
Vivia no sertão
Trabalhando a terra
Com as próprias mãos
Até que um dia -pelo sim pelo não-
Entrou na vida deles
O santo Sebastião
Trazia a bondade nos olhos
Jesus Cristo no coração

Agitado, na feira:

Sebastião nasceu do fogo
No mês de fevereiro
Anunciando que a desgraça
Ia queimar o mundo inteiro
Mas que ele podia salvar
Quem seguisse os passos dele
Que era santo e milagreiro
Que era santo
Que era santo
Que era santo e milagreiro

Fúnebre, triste, lento:

Meu filho, tua mãe morreu
Num foi da morte de Deus
Foi de briga no sertão, meu filho
Dos tiros que o jagunço deu

II
Lento, dramático:

Jurando em dez estrelas
Sem santo Padroeiro
Antonio das mortes
Matador de cangaceiro
Matador de cangaceiro!
Matador, matador
Matador de cangaceiro!

III
Narrativo, despertando, anunciando:

Da morte do monte Santo
Sobrou Manuel Vaqueiro
Por piedade de Antonio
Matador de cangaceiro
A estória continua
Preste lá mais atenção
Andou Manuel e Rosa
Pelas veredas do sertão
Até que um dia -pelo sim pelo não-
Entrou na vida deles
Corisco o diabo de Lampião

IV
Narrativo, triste, evocado da morte:

Lampião e Maria Bonita
Pensava que nunca
Que nunca morria
Morreram na boca da noite
Maria Bonita
Ao romper do dia

V
Trágico, anunciando desgraças:

Andando com remorso
Sem santo Padroeiro
Volta Antonio das Mortes
La ia la ii
Vem procurando noite e dia
La ia la ii
Corisco de São Jorge
La ia la ii

VI
Anunciando o final trágico:

Procurou pelo sertão
Todo o mês de fevereiro
O Dragão da Maldade
Contra o santo Guerreiro
Procura Antonio das Mortes
Procura Antonio das Mortes
Todo o mês de fevereiro

VII
Em diálogo, feroz, ritmo de luta:

- Se entre Corisco
- Eu não me entrego não
Eu não sou passarinho
Pra viver lá na prisão
- Se entrega Corisco
- Eu não me entrego não
Não me entrego ao tenente
Não me entrego ao capitão
Eu me entrego só na morte
De parabelo na mão
- Se entrega corisco
- Eu não me entrego não

VIII
Vivaz, alegre
Farrea, farrea povo
Farrea até o sol raiar
Mataram Corisco
Balearam Dadá (bis…)
O sertão vai virá mar
E o mar virá sertão

Tá contada a minha estória
Verdade e imaginação
Espero que o sinhô
Tenha tirado uma lição
Que assim mal dividido
Esse mundo anda errado
Que a terra é do homem
Num é de Deus nem do Diabo (bis)


Perseguição
(Sergio Ricardo e Glauber Rocha)

Se entrega Corisco!
Eu não me entrego não
Eu não sou passarinho Pra viver lá na prisão

Se entrega Corisco eu não me entrego não
Não me entrego ao tenente
Não me entrego ao capitão

Eu me entrego só na morte de parabelo na mão
Se entrega Corisco (se entrega Corisco)
Eu não me entrego não! Eu não me entrego não
Eu não me entrego não

Sobre o Autor

Terezinha Pereira: Terezinha Pereira é romancista, contista, cronista, graduada em Letras, membro da Academia de Letras de Pará de Minas

Publicações:
_ "Em confidência", romance publicado pela Mazza Editora, Belo Horizonte, 2000, premiado em concursos literários realizados no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais;
_ "Uma pianista numa noite branca..." , Caderno Literário de contos, 2004, pela Academia de Letras de Pará de Minas em parceria com o Jornal Diário;
_ Contos, na "Revista da Academia Mineira de Letras" (4 revistas);
_ Artigo, projeto de estudo do livro "Dom Quixote" para alunos de 8ª série do Ensino Fundamental, publicado na revista "Presença Pedagógica", de setembro/2005;
_ JB Online, Café Literário: Colunista da Semana, 23 a 29/11/2005.

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