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O Heterônimo

por Ademir Pascale Cardoso *
publicado em 15/06/2007.

Dentro do elevador, cabisbaixo e com o olhar serrado, dentro de um deselegante paletó bege, Paulo Nogueira se preparava para mais um dia de labuta. - O 12º andar era o seu segundo lar.

Paulo toca o interfone e, logo em seguida, a grande porta de vidro se abre. Abaixo dos negros mocassins, o lindo e limpo tapete vermelho. A altura dos olhos, fixada na parede, a logomarca, o brasão da empresa, o orgulho do velho careca: "TecNolog Corporation". Abaixo do xodó do velho, a velha rabugenta atendia aos telefonemas dos que não tinham o que fazer, afinal, eram 7h 50 da manhã. - A velha, quatro olhos, Maria Inês, dizia roboticamente: "Tecnolog Corporation,bom dia. Um momento por favor" - apertava outro botão e repetia: "Tecnolog Corporation, bom dia. Um momento por favor". Naquela cena, Paulo se sentira um fantasma, um Zé ninguém, apenas um número na folha de pagamento da empresa. Como gostaria de adentrar-se na empresa todas as manhãs e vislumbrar uma bela musa como telefonista, ou, pelo menos uma velha simpática. Um bom dia seria verdadeiramente o começo de um "bom dia", mas, de início, as trevas prevaleciam.

A nova maleta executiva preta e brilhosa, continha apenas cinco itens: uma marmita, uma escova de dentes, uma pasta de dentes, um fio dental e um livro de Álvares de Azevedo, intitulado Lira dos Vinte Anos. - Paulo se envergonhava de carregar a marmita e tentava camuflá-la na linda maleta executiva. Sempre que levava a tal marmita para ser requentada no refeitório, pronunciava baixinho nomes profanos e medonhos de seres infernais. - "Como seria bom um ticket neste momento", pensava diariamente Paulo, com os olhos lacrimejando de tristeza e ódio, enquanto que o muquirana do velho careca, almoçava todos os dias no Barbacoa. Paulo não entendia por que os que trabalhavam tanto não tinham nada, e os que não faziam nada, tinham tanto e, só não confundia o velho careca Bernardo, seu chefe, com o Bernardo I do Rei da Vela de Oswald de Andrade, porque ele não era agiota e sim, um grande idiota. Queria ele ser a personagem Bernardo II, tomar-lhe todo o dinheiro e ver esse filho do mesgramado exalando o último alento em uma vala comum.

Paulo adentrou-se no banheiro para ajeitar os ruivos cabelos e, enquanto os penteava com seu antiquado pente de bolso, olhava-se no espelho e pronunciava anáforas, vez ou outra, soltava uma elipse: Eu me mato de trabalhar, eu estudo, eu escrevo, eu leio, eu não me atraso... chega dessa palhaçada. De hoje em diante, não serei mais palhaço; Tenho que sair desse inferno de serviço, ou melhor, começarei a ganhar sem fazer nada.

5 pras 8, hora da labuta. Paulo foi-se chegando, quase que voltando. No final da repartição, uma conhecida careca reluzente atrás de um monitor LCD 19". Era Bernardo, o velho rabugento, chefe de Paulo. Paulo pronuncia um bom dia amarelado, o velho rabugento apenas estica o braço e verifica as horas, nada fala, volta para seu habitat, atrás do monitor.

Paulo se senta em sua cadeira giratória, afrouxa a gravata, arregaça as mangas do paletó e prometi pra si mesmo que hoje o dia será diferente. Uma mão confiante liga o computador, enquanto que o monitor cuidava de retratar o reflexo de um novo homem, um novo homem... Paulo se compara à personagem de Mário de Andrade, Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, o anti-herói, o anti-herói da Tecnolog Corporation -, o chefe, o careca chefe rabugento? Gigante Piaimã... isso mesmo, ele não será o Bernardo I do Rei da Vela e sim o Gigante antropófago Piaimã de Mário de Andrade. Teria morte mais ridícula do que morrer afogado em uma imensa panela fervente de macarronada? O primeiro sorriso do mês estampa a cara deslavada e sardenta do novo homem, do novo Paulo Nogueira. Como Gaetaninho de Antônio de Alcântara Machado, Paulo não ouvia mais os ruídos da vida, os ruídos da velha rabugenta da recepção: "Tecnolog Corporation, bom dia. Um momento por favor". Não ouviu o colega, vizinho da repartição, pedir repetidamente grampos para o grampeador. Não ouviu a copeira oferecendo por três vezes o costumeiro amargo cafezinho. Não ouviu a faxineira pedir "Com licença seu Paulo Nogueira", para retirar o cesto de lixo. É, a diferença entre a personagem Gaetaninho, é que Paulo Nogueira não tem uma voz materna para ouvir na repartição. Outro sorriso, o segundo do mês e em um mesmo dia, algo notável para o velho Paulo Nogueira, mas não para o novo, pois para este, os sorrisos serão constantes.

Paulo Nogueira ajeita-se mais uma vez na cadeira giratória, abre o navegador da internet e digita a url do site: www.vamosbaterumpapo.com.br . Seleciona uma sala de bate papo por cidade e, a escolhida, claro, a sua, São Paulo. Havia 8 pessoas na sala, com Paulo, 9. Uma das pessoas da sala virtual, chamou a atenção de Paulo Nogueira, na verdade, o nome... não, não, o sobrenome, o nickname chamou a atenção: Caeiro este era o nickname do dito cujo, Caeiro. Paulo é um excelente estudioso da literatura portuguesa e, lembrou imediatamente de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa. Que felicidade, que imensa felicidade, pensa Paulo Nogueira, lançando o terceiro sorriso em um mesmo dia, o terceiro do mês. Paulo Nogueira convida Caeiro para tc.

Vamos ver o que rola na sala de bate-papo, enxerido? Brincadeira, curioso... isso, apenas curioso. Este é o meu primeiro sorriso de hoje, o primeiro do mês.

(8:04:17) Paulo fala para Caeiro: Quer tc?

(8:04:29) Caeiro fala para Paulo: Sim, claro. Não vou perguntar de que cidade é, afinal, esta sala é para residentes de São Paulo. Eu nasci no interior, mas hoje, moro em São Paulo. Eita cidade grande, né?

(8:05:57) Paulo fala para Caeiro: Sim, muito grande... Posso fazer uma pergunta?

(8:06:18) Caeiro fala para Paulo: Claro, manda ai...

(8:06:32) Paulo fala para Caeiro: Por que "Caeiro"?

(8:06:59) Caeiro responde para Paulo: Ahh, rsrsr. Gosto muito de Fernando Pessoa e, me identifico com o heterônimo, Alberto Caeiro.

(8:07:14) Paulo fala para Caeiro: já imaginava que vc gostava de Fernando Pessoa, mas queria só confirmar, rsrs... :)

(8:08:09) Paulo fala para Caeiro: Sabe, Caeiro. Trabalho numa droga de empresa de softwares. Minha seção é a de desenvolvimento. Meu chefe é um ridículo metido a besta, dono da empresa, fica justamente na minha seção e sófala comigo quando é para reclamar de algo. Queria que esse velho rabugento morresse com sua língua de cobra...rsrs. Neste momento estou olhando sua careca atrás do monitor. Ficarei aqui fingindo que estou trabalhando, pois de hoje em diante, só enrolarei, farei como todos os outros funcionários des... (espaço de caracteres esgotado)

(8:09:48) Paulo fala para Caeiro: E vc, trampa onde?

(8:10:07) Caeiro fala para Paulo: Trabalho aqui no bexiga, numa empresa de softwares.

(8:10:35) Paulo fala para Caeiro: Sério??? Eu também...

(8:11:41) Paulo fala para Caeiro: Tem alguma vaga aí para desenvolvedor de softwares? :)))

(8:12:02) Caeiro fala para Paulo: Tem sim. Temos uma vaga. Abriu justamente hoje.

(8:12:43) Paulo fala Caeiro: Não acredito, sério? Por favor, fale o endereço e com quem tenho que falar. Irei ai hoje mesmo na hora do almoço.

(8:13:13) Caeiro fala para Paulo: Infelizmente a vaga não vai dar pra você.

(8:13:27) Paulo fala para Caeiro: ué, por quê? vc nem me conhece direito, dá essa chance, por favor, ai com certeza deve ser melhor que aqui, fora isso, tenho uma lista de clientes que poderei passar para vocês.

(8:14:19) Caeiro fala para Paulo: É, não vai dar mesmo. Depois de saber tudo o que você acha do seu chefe e, pior ainda, faz espionagem industrial. Acha que terá chances nesta empresa? Bom, vou te passar o endereço daqui. Dá uma olhada para o velho careca que está atrás do monitor, bem na sua frente.

Neste momento, o sangue de Paulo Nogueira congela nas veias. O rosto sardento fica mais branco do que já é. Um suador quente, vez ou outra, frio. Com o olhar arregalado, bem diferente do início da manhã, serrado. Paulo pensa uma, duas, três, quatro vezes. Olha em direção ao velho careca. Os olhares se cruzam - um frio, outro pegando fogo.

Paulo lembra e se compara ao que Álvares de Azevedo escreveu: "...Trata-se de um usurpador do bem alheio...". - Paulo se sentira um ladrão, ao se lembrar que desejaria levar a lista de clientes de sua empresa para outra. Paulo ainda se lembra do trecho: "Era uma estrela divina que ao firmamento voou!". - Naquele exato momento, Paulo morreu para a empresa.

Sobre o Autor

Ademir Pascale Cardoso: Crítico de cinema e editor do Portal Cranik, Ademir Pascale, é criador de um projeto de inclusão social e cultural, intitulado “Vá ao cinema!”, o qual já beneficiou mais de 5 mil e quinhentas pessoas de baixa-renda de todo o Brasil com o acesso gratuito às salas de cinema. Idealizador e Editor do Portal Cultural Cranik “www.cranik.com” desde 2003, é também crítico de cinema e coordena uma equipe de jornalistas e estudantes da área de comunicação social em seu portal ( http://www.cranik.com/equipe_cranik.html ), colunista de diversos sites culturais, Ademir Pascale é também um dos grandes divulgadores da sétima arte e do incentivo à leitura no Brasil, possuindo parceria com as maiores distribuidoras de filmes e editoras, o qual disponibiliza concursos culturais em seu Portal, incentivando a leitura e a ida ao cinema. O Editor já foi aluno de alguns dos maiores cineastas da América Latina, como: Paulo Betti, Guilherme de Almeida Prado, Toni Venturi, Imara Reis, André Sturm, Fernando Bonassi, Vera Hamburger, Lina Chamie, De Blasiis, Kátia Coelho, entre outros, além de ter concluído seu curso de roteiro para cinema com o conceituado autor e produtor norte-americano “Hugo Moss”.

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