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MALIGNA: Gregory Maguire vira o reino de Oz pelo avesso

por Chico Lopes *
publicado em 04/06/2007.

Está chegando às livrarias um best-seller que abalou a América: MALIGNA (no original, "Wicked"), de Gregory Maguire. O livro vendeu milhões de exemplares, despertou os maiores elogios da crítica e arrancou de John Updike, no New Yorker, a seguinte expressão: "Romance assombroso". Outros críticos de renome disseram que era possível colocar a história em algum lugar entre Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, e O Hobbit, de Tolkien. Colocado nesse nível altíssimo, não faltou nem quem notasse na prosa fantástica e paródica de Maguire ecos de Jonathan Swift (As viagens de Gulliver) e até de Gabriel Garcia Márquez (Cem anos de solidão).

Tive a honra de traduzi-lo para o português. E me deparei com um mundo fremente, divertido, bizarro, revelador, poético. O romance é de fato grandioso, de uma maneira que não se vê habitualmente, e faz com o que o leitor sinta a sua imponência, ainda que derive de outro clássico, O mágico de Oz, de L. Frank Baum. Não se pode entender MALIGNA sem ter tido alguma informação, ou mesmo lido por inteiro, o romance do qual é uma paródia brilhante, inventiva e...libertadora. Muitos talvez só conheçam o filme, a que o romance de Baum deu origem, com Judy Garland clássica e eterna no papel de Dorothy. Mesmo esses, porém, correrão o risco de nunca mais encarar Dorothy com tanta inocência.

MALIGNA nos dá "A versão da Bruxa", ou seja, nos conta quem era Elphaba, a Maléfica Bruxa do Oeste, que toda uma geração conheceu e temeu. Verde, terrível, descendo naquela vassoura e espalhando destruição, Maguire sabe que todos nós nos lembramos dela apenas como uma assombração, uma coisa de Deus-me-Livre, mas decidiu contar a sua história, dar-nos o seu ponto de vista sobre os acontecimentos, sobre o reino de Oz.

É o primeiro de uma série de gestos transgressores, subversivos, que o livro faz. Temos, então, um romance construído sobre a vida de um vilão odiado por todos. Isso não poderia resultar senão num texto corrosivo e provocador o tempo todo. O anti-herói dá as cartas, e o livro tem que seguir a sua lógica, ainda que tortuosa, tornando-se imensamente divertido e desmistificador. Somos levados a saber o que seria a vida de uma bruxa como aquela, em tudo oposta à doçura, à submissão e ao encanto juvenil da adorada Dorothy. A "boazinha" é implacavelmente desmistificada, e a Malvada talvez nem fosse tão malvada assim...

MACONDO AMERICANA

Está certo quem comparou Maguire a Garcia Márquez: ao contar a história de Oz como um reino que é na verdade uma ditadura, ele nos mostra uma América fantástica (toda uma geografia mitológica não disfarça que é dos Estados Unidos que Maguire faz uma paródia descomunal) e a genealogia bizarra de uma família, aquela que deu origem à bruxa Elphaba, constituída por uma bela mulher, sensual e entediada com o casamento, Melena, e seu marido, o fanático pastor puritano Frex, com que Maguire elabora uma excelente sátira do protestantismo norte-americano, concebendo um personagem tão rígido quanto os de A letra escarlate, de Nathanael Hawthorne. Mas que acaba sendo debochado por Maguire, já que há revelações bem chocantes lá pela frente, que colocam por terra essa tal rigidez.

Da união da sensualidade e da repressão religiosa (hipócrita) nasce Elphaba, que espanta todo mundo porque é um bebê de enormes dentes e é...verde. E vamos acompanhar toda a sua vida, de criança rejeitada (até pela mãe, que sente horror a ela) a jovem rebelde, quando faz sua ida à universidade de Shiz, onde vai ser discriminada por sua cor e por sua boca subversiva e ferina. Aí, Maguire terá a oportunidade de fazer uma enorme sátira à vida universitária americana, onde reina a hipocrisia do "politicamente correto".

Tudo isso nos cheira à Macondo de Garcia Márquez pela energia inventiva, pelo deboche, pela criatividade incessante dos personagens e situações, que surgem sempre numa perspectiva paródica e aniquiladora dos falsos valores. E as desproporções, as brincadeiras e distorções nos conduzem ao mundo de Baum tanto quanto o de Swift, Carroll e Tolkien. Não faltam elfos, duendes, fadas e outras coisas que se espera do mundo da literatura que se convencionou chamar de Fantasia, mas o tom é adulto e descabeladamente gozador. Esse é, decididamente, um mundo de Oz que não entraria de jeito nenhum em algum desses programas infantis bobinhos da tevê.

A prosa de Maguire seduz em virtude disso. Além do mais, ele dispõe de um talento peculiar para fazer com que o Bizarro funcione como crítica social. Elphaba não será apenas uma bruxa: será uma ativa militante em defesa dos Animais (que, no romance, têm um papel fundamental, discriminados pela sociedade ditatorial de Oz) e uma mulher com uma consciência política aguda. Militando contra o despotismo terrorista do Mágico (Maguire não o trata de maneira complacente de modo algum; ele simboliza a própria arbitrariedade cruel e estúpida do Poder), ela virará terrorista e mergulhará na clandestinidade (os episódios que relatam a sua militância clandestina, ameaçada pela polícia imperial de Oz, chamada Tropa da Tormenta, lembram curiosamente os dos subversivos em fuga à ditadura militar de algum país latino-americano). Mas, também será uma mulher atraente, a despeito da esquisitice de sua pele e de sua figura.

Maguire ergue um mundo mítico cujas correspondências derivam da Oz de Baum, mas vão muito, muito além, a ponto de esse mundo adquirir uma configuração muito própria e ser sustentado com uma coerência espantosa do começo ao fim das 416 páginas do romance. Seu talento para descrever a Natureza, as viagens, lugares e situações, é completo, e ele está em absoluto domínio de sua arte em MALIGNA. Além disso, cunha as chamadas made up words (os nossos neologismos) com um brilho muito próprio, o que lhe confere outra semelhança com Carroll.

Não foi à toa que o livro se tornou um tão grande best-seller e deu origem, inclusive, a um musical da Broadway, do mesmo nome, que ficou anos em cartaz e rendeu aos produtores um prêmio Tony, razão pela qual Maguire, na seqüência do livro, chamado FILHO DE UMA BRUXA, dedica este segundo livro a Joel Grey, entre outros atores e produtores do espetáculo da Broadway.

É preciso conhecer MALIGNA, livro de uma força peculiar, capaz de seduzir gerações de leitores, que a Ediouro coloca em bom momento no mercado.

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

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