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O Nome da Rosa

Antônio Ribeiro de Almeida*

Este romance de Umberto Eco já alcançou, no Brasil, a venda de mais de 500 mil exemplares e no mundo a cifra chega a mais de dois milhões. Tal é sua força, e reconstrução histórica, que foi levado para o cinema num filme dirigido por Jean-Jacques Annaud e magnificamente estrelado por Sean Connery, como o frei Guilherme de Baskerville, e o jovem Christian Slater como o aprendiz Adson de Melk. Pelos nomes dos dois principais personagens já se percebe a influência de Connan Doyle e seu Sherlock Holmes. Mas fica somente nisto. O romance vem recolocar a necessidade de se rever na formação do brasileiro a reintrodução do Latim como disciplina de estudo para maior domínio da nossa língua. O livro é cheio de citações em Latim (não traduzidas) e o leitor perde muito da sua leitura se não consegue compreender o que Eco escreveu. É uma reconstrução muito bem feita, onde o autor mostra grande conhecimento da filosofia medieval, da política da Igreja e do ambiente que dominava as abadias dos beneditinos.

O ritmo do livro é setenário, pois toda a história ocorre em sete dias, e cada dia é dividido nas partes que a Igreja usava para que seus clérigos rezassem: Matinas, Laudes, Primeira, Terceira, Sexta, Nona, Vésperas e Completas. O Nome da Rosa é um mergulho nos anos de 1316 a 1334 quando João XXII era o Papa. Sete mortes misteriosas ocorrem durante aquela semana e todas elas ligadas à existência ou não de um livro de Aristóteles sobre a Comédia. Eco critica impiedosamente as questões, mais do que sibilinas e ridículas, que os teólogos trocavam entre si se Jesus Cristo sorriu alguma vez na sua vida, de alguma situação ou de alguém. Para eles, tal comportamento era incompatível com a gravidade da missão do Filho de Deus. Ele não poderia demonstrar alegria, e, realmente, os Evangelhos não mostram nenhum momento em que o Cristo tivesse sorrido.

Pelo seu grande poder de indução, Frei de Baskerville começa a investigar aquelas mortes misteriosas que são todas ligadas ao livro de Aristóteles que estaria oculto numa das partes da complexa biblioteca. Quem ganhar, neste Natal, este livro deverá munir-se de um bom dicionário de latim para traduzir passagens que entram no texto sem que o leitor espere. Eis alguns exemplos: «o cavalo como verbum mentis ou ainda Alan das Ilhas dizia que omni mundi creatura quase líber et pictura nobis est in speculum». Não sei, portanto, como em nosso país este magnífico livro foi um best-seller.

Durante alguns séculos, no Brasil, a Igreja sustentou o patrimônio que a língua latina nos deixou e os padres (e quem estudava nos seus seminários) sabiam muito bem e o seu latim. Com a influência, negativa, do Ponto IV, diga-se, dos Estados Unidos, na década de 50, caiu o estudo do latim para que se desse uma formação mais técnica aos ginasianos. Hoje, nem os seminários da Igreja Católica ensinam, como se esperava, o latim. Como poderão os padres e os filósofos, teólogos e outros terem acesso aos clássicos do pensamento que escreveram em latim ou grego e estão na Patrologia de Migne? É urgente, se desejamos escapar à globalização americana da nossa cultura, que recuperemos decididamente a nossa origem latina. Somente os bárbaros que não sabem construir uma frase é que podem perguntar «Para que serve o latim?». A resposta mínima que posso dar é: «Para você ler, pelo menos, O Nome da Rosa, pois, caso contrário, tenho que colocar, sub rosa, a sua ignorância».

Sobre o Autor

Antônio Ribeiro de Almeida: Jornalista e escritor de São José do Rio Preto/SP.

Doutor em Psicologia Social, FFCLRP-USP



 

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