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RESENHAS
Literatura brasiliense à moda antiga
Ronaldo Cagiano*
Dezembro Indigesto, livro de Ronaldo Cagiano, reúne contos muito distintos entre si. Mas, em comum, suas narrativas curtas têm a característica de conferir pouca importância à fábula. O causal, o anedótico recebem destaque bem menor que a situação existencial das personagens. São contos que pouco apostam na seqüência dos eventos e na surpresa do desfecho. Investem é na remoagem da experiência, seja para ampliá-la pela exposição de variados ângulos, seja para repisá-la, como se a absorção pela consciência fosse impossível.
Há contos que são flagrantes de estados mentais. Outros, fragmentos de um conflito. Existem, ainda, aqueles que ficam mais próximos da reflexão do que de uma célula dramática. Mas duas vertentes prevalecem na coleção de contos: uma é a da investigação de certo estado de ânimo, a outra é a da temática social. Filia-se a esta última um dos contos de melhor realização do volume: Legião Estranha. Já o que encerra o livro — Desencontros, Desencantos: Exício — é exemplar da primeira tendência, a que busca apreender uma situação e disposição de vida de modo a pôr em causa o que nela é acessório ou essencial.
O livro tem a peculiaridade de conter registros do percurso de leitura do autor. Atualiza seus diálogos com escritores diversos. Faz isso de tal modo que alguns contos se tornam performáticos. O que fundamenta o comentário de Luiz Rufatto, na quarta capa, de que Ronaldo Cagiano é um autor à moda antiga. De fato, paga tributos a estilos novecentistas. Frases torneadas ao gosto e feição de outros tempos podem deixar surpreso o leitor de hoje.
O aspecto lingüístico não é, porém, o único traço de outras épocas dessa reunião de contos. Cagiano tem uma queda pela focalização onisciente, aquela que confere ao narrador o conhecimento total do narrado e, desse modo, resiste a dúvidas e contradições. Vai, portanto, na contramão do procedimento narrativo contemporâneo, em que o narrador expõe a ação sem dela extrair certeza ou convicção. Procura manter o distanciamento e atestar a relatividade do saber.
Em certos contos, o autor aproxima-se do narrador primordial, aquele que, além de deter o conhecimento da experiência, assume a privilegiada posição de julgá-la por meio de intrusões. As intrusões do narrador são aqueles comentários que, feitos ao longo da narrativa, traduzem — ou traem — a posição ideológica e afetiva de quem conta a história.
É o que acontece, por exemplo, no momento em que classifica de paranóica a incessante busca do pai por determinada personagem. Quando esse tipo de intrusão ocorre, o espaço de inserção do leitor se restringe. Encolhem-se as entrelinhas. Diminuem as possibilidades de interpretação.
Intrusões são inevitáveis, uma vez que são partes do ato de linguagem. Ao longo da história literária, essa prática teve adesão de nomes célebres como Balzac. O lugar que ocupam no relato, no entanto, se não for controlado, impede a variada percepção de quem lê. A ostensiva projeção da subjetividade do narrador, sopesando e opinando sobre tudo o que narra, inibe a doação de sentidos diversos por parte dos demais. Circunscreve um espaço onde não deve haver limites, além daqueles próprios a qualquer relato ficcional.
(Resenha de autoria da jornalista Zuleika de Souza, do Correio Braziliense, encaminha por Ronaldo Cagiano para divulgação)
Sobre o Autor
Ronaldo Cagiano:
De Cataguases, cidade mineira berço de tradições culturais e importantes movimentos estéticos, surgiu Ronaldo Cagiano. É funcionário da CAIXA. Colabora em diversos jornais do Brasil e exterior, publicando artigos, ensaios, crítica literária, poesia e contos, tendo sido premiado em alguns certames literários. Participa de diversas antologias nacionais e estrangeiras. Publica resenhas no Jornal da Tarde (SP), Hoje em Dia (BH), Jornal de Brasília e Correio Braziliense, dentre outros. Tem poemas publicados na revista CULT e em outros suplementos. Obteve 1º lugar no concurso "Bolsa Brasília de Produção Literária 2001" com o livro de contos "Dezembro indigesto”.
Organizou também várias antologias, entre elas: Poetas Mineiros em Brasília e Antologia do Conto Brasiliense.
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