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Ciranda de Pedras

Rubens Shirassu Júnior*

Quem quiser saber o que pensa a mulher submissa da década passada e do começo do século 21, encontrará, talvez, uma resposta melhor em Rio das Pedras, de Rosângela Vieira Rocha, do que nos estudos de psicólogos e sociólogos. Uma resposta mais completa e complexa não pode deixar de lado a literatura. É, sem dúvida, um caminho muito mais difícil, exigindo do leitor, um grande esforço de interpretação e discernimento como declarou Sigmund Freud, que "sempre teve a curiosidade intensa em saber de que fontes esse estranho ser, o escritor, extrai o seu material". Rosângela usa a imaginação com intuição e fluxo de consciência, não tem os limites fixados pelo pensamento científico e acadêmico.

Ela não é (nem quer ser) nenhuma Clarice Lispector. Rio das Pedras também não é um romance dos séculos 19 e 20, daqueles que ainda hoje se escrevem no Brasil, com abertura, retrospecto, resumos e tramas. O livro de Rosângela Rocha não tem enredo no sentido tradicional, os incidentes arbitrariamente concatenados numa ordem lógica. Nem isso seria de se esperar numa mulher como ela. Rio das Pedras é um texto sobre a condição de uma mulher, pequena burguesa, numa sociedade em transição. Não é um livro fácil, com a assimilação instantânea dos veículos da cultura de massa, ou a superficialidade interpretativa da cultura da mídia. Sua linguagem clara e coloquial, de forma reta, força a participação ativa do leitor, afinal, tenta retratar uma experiência emocional, estética e com uma certa reflexão.

Composto de fragmentos que vão se justapondo por uma técnica de montagem, Rio das Pedras rompe com todos os procedimentos da narrativa tradicional. Abolindo as fronteiras entre prosa e poesia, o livro condensa de forma circular, um conjunto de impressões simultâneas e apresenta uma visão dos pequenos e convencionais dilemas da família burguesa. Imune ao psicologismo dos introspectivos abissais, sem influir no trato saudável e sólido das palavras, em sintonia com as experiências de fluxo de consciência de James Joyce, Virginia Woolf, Hermann Hesse e Katherine Mansfield, com uma adequação pessoal, reelabora essas técnicas importadas sob critérios próprios. Para a devida aferição de um pensamento numa espiral que gira em falso, entre conceitos e pré-conceitos, mas ainda pesadamente vinculada, no plano cultural, aos cânones do passado, aos mitos dos trópicos. Nesta obra, a autora avalia as relações humanas e procura a verdade, a sua razão de ser mulher, seja ela influenciável, frágil ou cruel.

A maior lição que fica da leitura de Rio das Pedras, porém, em instantes de revelação, perplexidade, absurdo, é o descortinar do mundo dentro de si e isso que torna fascinante - e até mesmo complicado - o encontro de dois mundos.

Sobre o Autor

Rubens Shirassu Júnior: Designer artístico, jornalista e autor entre outros de Religar às Origens (Ensaios, 2003) e Oriente-se: Manual de Procedimentos no Japão, 1999.
É o autor da coluna OLHO MÁGICO na VERDES TRIGOS.

Contato: jrrs@estadao.com.br

Veja também o "ORIENTE-SE: Manual de Procedimentos no Japão"
Edição Independente de Rubens Shirassu Júnior
Site do Livro: http://www.stetnet.com.br/orientese/

 

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