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RESENHAS

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Cartas não blefam

Jorge Pieiro*

A verdadeira primeira lição de um jogador de baralho, depois de saldar-se em olhares furtivos às mãos do outro ou em visões mágicas e reveladoras de cartas, parece ser aquela que se dá pelo aprendizado da arte de blefar. Da mesma maneira, essa fórmula se torna bastante eficaz com o texto literário. O blefe na literatura pode ser acompanhado na listas das obras mais vendidas, ou nas fórmulas inquisitorialmente corretas de enunciação defendida pela academia, ou, ainda, nas concorridas e incontáveis tertúlias em que se põe a lume a mais recente obra do tal aclamado escritor ou poeta de plantão.

No entanto, como poderíamos distinguir o valor literário de uma obra, se a discutível intencionalidade do autor fosse, suponhamos, desgarrar o texto da sua própria e exigível condição dentro dos parâmetros de uma época? Como uma crítica isenta, se existisse, recomendaria ou não a voz de um texto para aquém ou além das expectativas do leitor? Ora, esses exercícios de pensar apenas colaboram com as nossas próprias inquietudes, portanto, mais um blefe que pode ou não ser bem sucedido.

Se esses acidentes para uma provocação são vitais para a escritura de uma resenha, de uma sinopse ou de um ensaio crítico, que mais importaria ao provável leitor, senão a escolha de algum texto que servisse de pretexto a um possível deslumbramento? Na verdade, todo leitor é atraído ou, com perdão pelo trocadilho, traído por algum texto. Entre um e outro, nada além do blefe.

Sondagens mentais como essas foram alinhavadas por conta da leitura da obra de estréia, em prosa, do premiado poeta mineiro Iacyr Anderson Freitas (1963). Em seu livro Trinca dos traídos (2003), editado pela Nankim Editorial, em parceria com a Funalfa Edições, o novo contista reúne em três partes designadas "Oito de copas", "Oito de Ouros" e "Oito de espadas", vinte e quatro textos que se revezam entre o gênero conto propriamente dito e uma forma híbrida, neste caso, mais aproximada do espírito da crônica sem cotidiano.

Nessa bifurcação não tão bem revelada, no que tange ao hibridismo dos gêneros, também a trinca escolhida para subtítulos, a nosso ver, não condiciona textos que, entre si, poderiam permitir uma chave comum de leitura. No entanto, talvez esse tenha sido o grande blefe do autor, ao deixar o leitor perdido entre as cartas de uma suposta existência: nem querer "fazer gênero" nem assumir uma partilha de idéias, visando a uma bitolada edição de textos.

Neste caso, retomamos o infiel trocadilho, pois ora somos atraídos pelo primor das narrativas, como o dos contos "No dorso dos domingos" e "Eis o tamanho de minha orfandade"; ora somo traídos, não só pela infidelidade ao gênero escolhido, mas também pela trivialidade temática, como, por exemplo, dos textos "Probatório" e "Workshop, ou ponto de fuga".

Mas, como poeta que é, Iacyr Anderson Freitas sabe domar palavras, fazê-las surpreender o leitor em frases de efeito, do tipo "a mesma tarde que, de leve, puxava os meus cabelos para o esquecimento" (In: "No dorso dos domingos"); ou "orfandade, eis o tamanho de minha orfandade, ó traição, pois não quiseste ouvir os sinais, e tua morte está decretada" (In: "Eis o tamanho de minha orfandade"); ou "sonda com as mãos o próprio e castigado corpo. Ele está vivo, ele está vivo, segundo lhe disseram." (In: "Tamanhos rigores").

Não tratamos aqui de desvendar métodos ou tentamos provar que nem sempre os acidentes são fatais. A literatura por si só já é uma fatalidade ou uma tentativa de fugir de parâmetros, ou nada disso, apenas é. Quanto à crítica, esse blefe instrumental, vale apenas por alguns momentos de perspicácia. Depois, um silêncio a ser provocado.

De Iacyr Anderson Freitas, digamos que se ele não traiu a poesia, tentou mostrar que sabe escrever também em prosa. Deu-nos uma prova. Mas também soube trair, soube blefar. A nós, leitores, cabe escolher a sorte nessas cartas e descobrir, com ele, ou tentar, contra ele, o blefe, já que cartas não blefam por si. Esperemos, pois, o próximo jogo.

Sobre o Autor

Jorge Pieiro: Jorge Pieiro é escritor e professor de literatura. Auto de várias obras:
• Caos Portátil (contos). Fortaleza: Letra & Música, 1999.
• Galeria de Murmúrios (ensaio). Fortaleza: [s/n], 1995. (Cadernos de Panaplo).
• Neverness (poema). Fortaleza: Resto do Mundo/Letra & Música, 1996.
• O Tange/dor (poemas). Fortaleza: [s/n], 1991.
• Fragmentos de Panaplo (contos breves). Fortaleza: [s/n], 1989.
• Ofícios de Desdita (ficção). Fortaleza: IOCE, 1987.

 

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