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RESENHAS

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Cronista desvela a alma de Brasília

Ronaldo Cagiano*

Tida como cidade fria e burocrática, onde as relações humanas não passam de contatos superficiais e a permanência das pessoas um misto de fugacidade e solidão, a idéia preconceituosa que se faz de Brasília pelo resto do País é desmontada pelo jornalista e escritor Rogério Menezes. Em seu novo livro “A solidão vai acabar com ela” (Versal Editores, Rio, 2003, 160 pg., R$ 19), reúne 60 crônicas entre as muitas que publicou entre 2000 e 2003 em sua coluna diária no Correio Braziliense, textos que registram a cidade que o acolheu há mais de seis anos e sobre a qual lança um olhar poético e investigativo, procurando conhecê-la, entendê-la e reconhecer-se nela.

Com o subtítulo “60 histórias de uma Brasília desconhecida”, a obra de Menezes rastreia uma cidade que, por ignorância ou por má fé, não é alcançada normalmente pela imprensa ou pela literatura, quando não estigmatizada ou estereotipada. As crônicas, mais do que revelar uma cidade real, organismo vivo, pulsante, com suas dores e delícias, seus sonhos e frustrações, descobre sua gente, seus pontos, suas “ruas” e “esquinas” tão iguais quanto as que encontramos em qualquer cidade do mundo.

A cidade que Rogério Menezes dimensiona - com uma leitura ao mesmo tempo cirúrgica, realista e telúrica, que transcende o mero registro jornalístico - existe apesar e além do complexo administrativo e político, não se cinge aos escaninhos oficiais da mi(s)tica Praça dos Três Poderes e da imponente Esplanada dos Ministério e outros guetos demarcadores pela oficialidade. O autor desnuda a capital de carne e osso, cuja nervura é seu povo, com todo seu potencial humano e sua carga de emoções, oscilando entre paradoxos e possibilidades, vivendo numa terra que, desde os primórdios, tem atraído gente de todas as regiões em busca de uma utopia, na maioria das vezes, irrealizada, mas ainda recorrente na imaginação dos que nela aportam.

Em cada crônica descortina-se uma Brasília sem disfarces - a psicológica e a social, a arquitetônica e a excluída, o Plano Piloto e a periferia - mapeando um cenário heterogêneo num território que é a síntese do Brasil. Junta os pedaços de um mosaico urbano, multifacetado de cores, gestos, cheiros, costumes, jeitos de viver e conviver numa Capital que a cada dia vem superando projeções e desafiando estatísticas. Estão no livro os verdadeiros protagonistas de uma realidade eclética, mas profundamente humana, que pode parecer surreal ou inalcançável aos que insistem em não perceber a Brasília habitada por criaturas deste mundo. Ao ler essas crônicas, muitos surpresas são reveladas em meio ao usual ou ao bizarro, ao comum ou ao inusitado das vidas que circulam pela cidade. Uma cidade que o autor demonstra conhecer como poucos, pois a sente a partir de suas vísceras, conhecendo-a em suas deambulações diárias, refletindo com fidelidade sobre o homem que nela vive e se relaciona, entre o gozo e a decepção.

Segue abaixo uma das crônicas do livro:

Saudade presente


por Rogério Menezes


Brasília e eu já beirávamos os trinta, quando nos conhecemos: eram os idos de 1986, talvez agosto. Vim de São Paulo para cá passar uns dias. Buscava consolidar novo-e-louco amor que se configurava no meu amargurado coração. Depois de horas de exaustiva viagem de ônibus e de tentativas vãs de ocupar o mesmo edredon de alguém que habitava (e ainda habita) esta urbe, fracassei espetacularmente.

Meu mundo caiu. Voltei sozinho para São Paulo mais macambúzio do que nunca, coração destroçado, aos pedaços. Tão despedaçado que não agüentei voltar de ônibus. Peguei avião, cuja passagem paguei em doze (pouco) suaves e (muito) suadas prestações mensais. Ainda assim, este jeito-feliz-de-cidade que nada tinha a ver com as cidades que havia habitado até então me perseguiu por muitos e muitos anos. Perguntava aos meus botões de vez em quando: – Como seria possível morar em lugar que parece ilustração daqueles livros didáticos de inglês dos tempos do ginásio, tipo Quick and Easy, em que tudo parecia nos devidos lugares, como numa cidade de brinquedo?

Mas não foi exatamente para Brasília – visitada em duas outras oportunidades, já com o coração devidamente reconstituído – que pensei em ir quando, onze anos depois, tudo começou a dar errado, a desandar, a sair do eixo, em São Paulo. Era 1997, e Deus, ou quem de direito, parecia ter deixado todos os raios de ira que guardava sob o divino sovaco se abaterem sobre esta modesta pessoa.

Sabe aquele momento em que tudo dá errado na vida da gente? Estava no olho desse furacão.

Pela minha cabeça enlouquecida passavam mil e uma possibilidades que, com o passar dos dias, se revelavam as mais absolutas das des-possibilidades. Tipo voltar a Salvador. Ou morar em Paris, que eu e meus botões achávamos, e continuamos a achar, a mais linda cidade do mundo. Nada deu em nada. A Bahia parecia não me querer de volta. A França parecia muita areia pro meu caminhãozinho: viver do quê naquela caríssima metrópole, sem dinheiro no banco e com precárias noções de língua francesa?

De repente, quando o patíbulo parecia estar ao alcance da mão, fez-se a luz.

Os meus botões me perguntaram, assim meio de supetão: – Por que não Brasília?

Fiz-me de surdo: – O quê?

Berraram: – POR QUE NÃO BRASÍLIA? ESTÁ SURDO?

Respondi: – Por que não. Se as coisas estão dando errado aqui e em Salvador, onde conheço tanta gente, por que dariam certo em cidade em que praticamente não conheço ninguém?

Os meus botões, sábios como sempre, filosofaram: – A idéia fixa é o mais capital dos pecados. Se São Paulo, Paris e Salvador parecem não querê-lo, por que não tentar outros caminhos? TENTE!

Lembrei (por que não havia lembrado antes?) então que tinha amigo querido nesta cidade – o jornalista Carlos Wilson Andrade Filho, hoje consultor de comunicação da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). Desesperado, não perdi tempo. Alguns minutos depois, enviava-lhe aflito e-mail. Nele chorava minhas (muitas) pitangas e declarava-me disposto a mudar-me para cá se algum convite houvesse.

Meus botões estavam cobertos de razão – e, por esse e por outros muitos motivos, ser-lhes-ei eternamente grato. Duas semanas depois, graças aos jornalistas Ana Castro, Paulo Pestana, Ricardo Noblat e, principalmente, Carlos Marcelo, assumi as funções de subeditor do Correio Dois e do suplemento literário Pensar, deste jornal.

Foi quando tudo começou a mudar.

Nunca fui tão bem-recebido num lugar, como fui aqui em Brasília – se soubesse, teria vindo antes: fosse por colegas jornalistas desta redação, fosse pelos brasilienses em geral, nas quebradas da cidade, madrugadas afora, copos de uísque-com-gelo-e-água-mineral nas mãos e recuperada-alegria-de-viver-e-de-dançar na cabeça.

Quatro anos e quatro meses em Brasília, a bordo de paixões fortuitas e/ou definitivas, encontros notáveis, comigo e com outrem, e muitas realizações profissionais valeram mais que vinte anos de análises, freudianas e não. Resultado: meu ego, murchíssimo, quiçá falecido, renasceu das cinzas, ressuscitou. Em 21 de abril de 2002, sou outro sujeito, modéstia às favas, muito melhor do que o outro. Bem melhor.

Nenhuma cidade havia feito isso comigo antes, dividiu-em dois: Rogério Menezes A.B. (antes de Brasília) e Rogério Menezes D.B. (depois de Brasília.

Não tenho saudade nenhuma do Rogério Menezes A.B.

Como se não bastasse 1: foi em Brasília que romance, ruminado (e abortado) durante anos em São Paulo conseguiu ser finalmente parido. O que era apenas um (Um Elefante na Ópera, que odiava e que acabei jogando em lata de lixo localizada na porta do prédio onde morava em SP) virou três (Três Elefantes na Ópera, que gosto muito e que acabou sendo publicado pela Editora Record no ano passado).

Brasília me propiciou o milagre da multiplicação dos elefantes.

Como se não bastasse 2: foi em Brasília que consegui transformar o motivo de ter me tornado jornalista (escrever, escrever e escrever) em algo palpável, real, diuturno. Desde 2 de julho de 2000, não faço outra coisa na vida profissional a não ser escrever, escrever e escrever.

Ungido desde então ao cargo de cronista-da-cidade, posso eventualmente sofrer com faltas-de-assunto-sobre-o-qual-escrever, reações-iradas-de-leitores-que-não-gostam-dos-meus-hifens-e-de-otras-cositas-más e silêncios-sepulcrais de colegas de trabalho. Ainda assim, não tenho do que me queixar. Sou homem feliz: faço o que gosto.

Não que este homem com estes desejos de escrever não existisse antes. Existiu sempre. Mas foi Brasília que fez tudo isso desabrochar.

A escritora Vera Brant já havia me avisado quando aqui cheguei: Brasília, com a enorme amplidão que marca todos os seus espaços, obriga as pessoas a se revelarem. Tanto para o bem quanto para o mal.

Mas tenho percebido ultimamente: as pessoas desabrocham aqui, se revelam aqui, mas não ficam aqui. Um dia partem. Sempre foi assim. Talvez continue sendo assim.

É possível, pois, que este cronista-que-vos-fala um dia parta também. Mas até o final dos dias do meus dias, São Paulo e Salvador que me perdoem, a minha cidade inesquecível será Brasília, a cidade que, de fato, me pariu.

Sobre o Autor

Ronaldo Cagiano: De Cataguases, cidade mineira berço de tradições culturais e importantes movimentos estéticos, surgiu Ronaldo Cagiano. É funcionário da CAIXA. Colabora em diversos jornais do Brasil e exterior, publicando artigos, ensaios, crítica literária, poesia e contos, tendo sido premiado em alguns certames literários. Participa de diversas antologias nacionais e estrangeiras. Publica resenhas no Jornal da Tarde (SP), Hoje em Dia (BH), Jornal de Brasília e Correio Braziliense, dentre outros. Tem poemas publicados na revista CULT e em outros suplementos. Obteve 1º lugar no concurso "Bolsa Brasília de Produção Literária 2001" com o livro de contos "Dezembro indigesto”.

Organizou também várias antologias, entre elas: Poetas Mineiros em Brasília e Antologia do Conto Brasiliense.

 

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