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Carl Sagan, “Cosmos” e o Dente-de-leão

por Antônio Ribeiro de Almeida *
publicado em 11/12/2005.

Quando faço minhas caminhadas, acompanhado sempre pelo UAI, um teimoso poodle, trago numa das mãos um pequeno terço de dez contas que marca as orações pelos meus amigos, amigas e pelos que partiram. Orar por aqueles com quem convivo atualmente, ou com quem convivi, ou por pessoas que nunca conheci, mas que admiro profundamente, tornou-se um hábito na minha vida de católico. O que cada um deles precisa, não sei. Tenho certeza que Deus os conhece e até pode ouvir a minha oração. Por que não? Curiosamente nunca esqueço os seus nomes, e a lista é grande. Depois de assistir a série "Cosmos", que foi reeditada em comemoração aos seus 25 anos, ( e que a gente compra numa banca de jornais os cinco DVDs ) passei a incluir nas minhas orações o nome de Carl Edward Sagan (1934-1996).

Este norte-americano filho de judeus, criado no Brooklyn, New York, me encantou pela sua simpatia e pelo grande professor que foi. Sempre com um sorriso aberto parece que fala diretamente a cada um de nós. Na série" Cosmos", sucesso de televisão há 25 anos, ele nos dá uma exata noção da pequenez do nosso planeta Terra dentro do sistema solar e na galáxia a que pertencemos, a Via Láctea. O aparecimento da Vida, sua evolução até chegar ao homem mostra-nos a importância de sermos solidários com as outras formas de Vida que existem neste planeta. Não somos exclusivos, mas como animais predadores, destruímos aquelas vidas que no processo da evolução permitiram que nós chegássemos ao que somos hoje.

À medida que Sagan nos conduz nesta viagem pelos cosmos as noções de tempo e espaço se desdobram para milhares de anos-luz numa viagem hoje impossível de uma galáxia para outra. A nossa inteligência não consegue conceber estas distancias. Há 25 anos conhecíamos relativamente bem os planetas do nosso sistema solar. Vênus, Marte, Saturno, Júpiter são mostrados pelas sondas que enviamos e como são hostis à nossa forma de vida. Sagan, no final de cada episódio, apresenta uma atualização na qual revela o que foi descoberto depois daqueles 25 anos. Assistir, eu diria mais do que assistir, mas ver e rever cada episódio de "Cosmos" deixa-nos mais humildes, mais temerosos e mais esperançosos da aventura humana se entendermos a nossa pequenez frente a este Universo que começamos a conhecer. A palavra do salmista ganha então todo significado: " Quando vejo o céu, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que fixaste, que é o homem, para dele te lembrares...(Salmo, 8, 4-5) .

Sagan foi um inspirado divulgador do universo para leigos como nós. Contribuiu criativamente nos projetos da NASA e no lançamento de naves da série Pioneer. Foi dele a idéia de colocar mensagens destinadas a serem decifradas por uma espécie inteligente e que revelam a composição da Terra, a música, ilustrações, etc. Ele, alias, foi pioneiro da exobiologia ( ciência que estuda a vida fora da Terra) e promoveu o projeto de Pesquisa para busca de Inteligência Extra-Terrestre.

No primeiro capítulo do DVD "As margens do oceano cósmico" vemos Carl Sagan, jovem e forte, caminhando em direção ao mar e colhendo na abertura de uma rocha um dente-de-leão todo branco. Ele passa a ser o símbolo de sua viagem pelo universo e com a leveza que o singulariza sai voando de sua mão em direção ao infinito. O dente-de-leão reaparece em todos os episódios da série e pelo uso da computação gráfica se transmuda numa nave a penetrar no espaço intergaláctico.

Devo à minha neta a descoberta de Sagan . Numa tarde em que conversávamos sobre Sagan eu lhe perguntei se havia assistido no DVD 4 o episódio "O Limite da Eternidade". Ainda não havia visto. Disse-lhe que era muito bonita e profunda a parte em que ele discorre sobre a cosmogonia dos Hindus e que tem pontos de contato com a visão da Astronomia moderna , embora tenha sido formulada há mais de 5 mil anos. Sagan, até onde percebi, não acredita que o Universo tenha sido criado por Deus. Passou para mim a imagem de um ateu tranqüilo ou um agnóstico que sempre valorizou a Ciência. Isto, evidentemente, nunca impediu que rezasse por ele nas minhas caminhadas e perguntasse ao Cristo, sem ter resposta, porque levara tão cedo uma pessoa tão notável? Mal havia colocado o DVD para iniciar a sessão "O Limite da Eternidade" quando um inesperado dente-de-leão veio voando do meu pequeno jardim e passou entre nós. - Olha , vô ! disse, surpresa,a minha neta. Acaso, coincidência ou um sinal? Para mim foi um sinal, um sinal de agradecimento deste fascinante astrônomo, que, do outro lado da Vida, soprou aquele dente-de-leão. Nota : no meu pequeno jardim não tenho esta planta.

Sobre o Autor

Antônio Ribeiro de Almeida: Jornalista e escritor de São José do Rio Preto/SP.

Doutor em Psicologia Social, FFCLRP-USP



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