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A Estréia Poética De Sílvia Rubião

por Rogério Miranzelo *
publicado em 20/09/2005.

O maior acerto de Sílvia Rubião, em seu livro de estréia (Tangências, 7Letras, 2005), é o tom comedido e sincero de seus relatos: poesia limpa, sem ser asséptica; amorosa, sem ser piegas.

Ao invés de expor feridas latejantes, a autora expõe cicatrizes que, embora indeléveis, parecem inevitáveis. São poemas de alma feminina, que falam de pele, chão, pés, contatos táteis e visuais, papéis, espaços físicos e temporais. Enfim, de tangências.

No inspirado poema Memória da água, que abre o livro, a inútil tentativa de moldar os pés nas pegadas antigas, o que permitiria, na imaginação poética, refazer percursos. E a oposição seiva/deserto. Indaga a poeta: O amor derramado / ora nódoa seca e sem visgo / por que veias, por que valas se esvaiu?.

Fachos de luz percorrem a memória da autora: solidão e desencontros amorosos transformados em poemas sem vício de autopiedade. Se Tangências, Luz de ilusão e Na orla são exemplos disso, Círculo, aqui transcrito na íntegra, tem um vigor especial:

No vácuo em que te moves
retomo o caminho de dentro
e fecho o círculo

Já não me exasperam
o desamor e suas verdades:
as almas jamais se entendem
expressam-se na paixão
e silenciam baldias
quando tudo se dilui
ou se esgota.

Poema conciso no qual parece haver uma confluência de sentidos, que advêm tanto da idéia de movimento ("No vácuo em que te moves"), quanto de fechamento de um círculo imaginário da paixão, de maneira abrupta ("quando tudo se dilui / ou se esgota").

Sílvia é profissional da área de comunicação empresarial, em Belo Horizonte, e sobrinha do consagrado contista mineiro Murilo Rubião, falecido em 1991. Também escreve em prosa, mas resolveu estrear com este livro de poemas, revelando voz própria. Na entrevista a seguir, ela fala de sua poesia, de poetas diversos e do tio escritor.

1) Como era seu relacionamento com o Murilo Rubião? Devido à proximidade familiar, pôde perceber detalhes no ofício dele como escritor, ou nos próprios contos, que vão além do que nós leitores podemos apreender?

Meu tio, pelo seu estilo de vida notívago e boêmio não convivia com a família de forma tradicional. Era aquela pessoa que aparecia de vez em quando e fazia a festa das crianças sempre com muitas balas e presentes. Já adulta, convivi mais proximamente com ele, pois fomos vizinhos de porta. Mas infelizmente, com três filhos pequenos, não pude aproveitar mais a sua casa, na época muito freqüentada por artistas e intelectuais. Ele era assim: ou estava rodeado de amigos em conversas madrugada a dentro ou fechado no seu mundo de livros e papéis. Percebendo o meu interesse por literatura me dava uma atenção toda especial. Mas nunca consegui penetrar no seu universo criativo. Acho que seus contos refletem bem essa sua personalidade. Aparentemente contido e reservado, tinha um mundo próprio, uma grande ebulição interior, que resultou nessa literatura de grande potencial inventivo e imagético.

2) Seus poemas pressupõem tanto a sensibilidade da pessoa comum diante dos próprios reveses (em especial, da mulher), quanto do fazer poético em si. Qual é o sentido, para você, de se recriar a realidade através da literatura, diante da complexidade da vida?

A literatura é a minha forma de lidar com o insondável , de tentar descobrir o que não conheço ou não entendo. Durante algum tempo, cheguei a supor que poderia ir por outros caminhos, mas há certas coisas das quais é inútil tentar escapar. A poesia é para mim também uma forma de libertação, uma forma de ir além da linguagem. A linguagem, principalmente para quem lida com ela profissionalmente, escrevendo por encomenda, tem um lado opressivo, regras que nos obrigam a dizer as coisas de tal forma. A literatura é uma forma de escapar a essa ditadura da linguagem. É a minha forma de, partindo da realidade, criar uma encenação e subvertê-la.

3) De quais poetas brasileiros, contemporâneos ou não, você mais gosta?

Tenho procurado ler bastante a produção poética mais contemporânea, mas ainda me sinto muito presa aos clássicos modernistas. Drummond, João Cabral, Bandeira, Murilo Mendes, Cecília Meirelles etc A força gravitacional deste legado é para mim muito forte. Aliás esses grandes poetas, há mais tempo, me impediam de ousar escrever qualquer verso. Como se fosse impossível fazer qualquer coisa depois deles, como se tudo já tivesse sido dito. Só recentemente tenho tido um contato maior com Ferreira Gullar, Hilda Hilst e com outros que desconhecia totalmente como Mário Faustino, o recentemente premiado Paulo Henrique Salles Brito e estrangeiros como o argentino Juan Gelman, a portuguesa Sophia Meyer. E sempre retorno a uma obra que para mim é inesgotável, que é a de Clarice Lispector, a poesia em prosa.

4) Seu poema O ouro da rua possui um sensível desfecho: "Lá onde o meu cálice brilha e não há respostas". Para encerrar, poderia citar outro(s) verso(s) de seu livro, que seja essencial para você?

Não saberia apontar. Como tudo que escrevo é excessivamente depurado, o que fica é para mim o essencial, e com uma certa interdependência. Acho difícil enxergá-los isoladamente. Mas se tivesse que escolher apenas um ficaria também com este. Acho que justamente porque "não há respostas."

Sobre o Autor

Rogério Miranzelo: Rogério Miranzelo (Belo Horizonte/MG) nasceu em 1961. Escritor e jornalista, colaborou em vários jornais, revistas e sites do Brasil, com crônicas, artigos e resenhas. É autor dos livros "Lua Diferente" (poemas - 2007) e "Belo" (crônicas - 2004).
www.miranzelo.com

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