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FIASCOS ROMÂNTICOS E CLÁSSICO DE CARMEN MIRANDA DIRIGIDO POR BUSBY BERKELEY

por Chico Lopes *
publicado em 04/10/2008.

UM AMOR PARA TODA A VIDA - O chato de quem vê muito cinema é a constante traição às expectativas. A gente sabe que a realidade cinematográfica anda medíocre e esgotada (parece que todos os gêneros vão se esvaziando dia após dia), mas sempre tem a louca esperança de encontrar aquele filme que desminta nossos tristes prognósticos infalíveis na maior parte dos casos. Queremos ter surpresas, queremos nos emocionar, irritados pela realidade lógica, mas desmancha-prazeres.

"Um amor para toda a vida", que tem à frente do elenco os veteranos Christopher Plummer e Shirley MacLaine, parecia merecedor de uma locação esperançosa.

Qual o quê! Realizado em 2007 pelo inglês Richard Attenborough, que já fez filmes de muito sucesso como "Ghandi" e "Um grito de liberdade", "Um amor para toda a vida" ("Closing the ring") é um filme particularmente frouxo, embora tenha um bom elenco e uma história de amor promissora, que começa na Irlanda, na Segunda Guerra Mundial, e é ligada aos dias atuais por um anel que certo piloto, morto num acidente, deixou para a sua namorada americana, muito desejada pelos seus amigos. Não vou me lembrar do nome do ator que ama e é amado por sua namorada americana (mais tarde, ela será o personagem de Shirley MacLaine), mas ele é de uma ruindade espantosa, não consegue passar a menor chama.

Aliás, o elenco jovem (incluindo Neve Campbell) fica devendo, e a gente se consola só quando os veteranos entram em ação, incluindo a inglesa Brenda Fricker, dona de um grande talento que, infelizmente, o filme aproveita pouquíssimo. Nem MacLaine, que tem salvado muito filme ruim, conseguiu, como protagonista deste, fazer muita coisa. No final, com Attenborough tentando apelar para o suspense, o drama e as lágrimas, ela até se expõe voluntariamente, motivada por seu grande amor, a bombas do IRA, mas, ainda assim, o filme não sai de sua pantanosa mediocridade - nem que fosse bombardeada a gente se comoveria. Lastimável.

CHATICE COM LINDAS FIRULAS - O cineasta chinês Wong Kar Wai, elogiado por filmes como "Amor à flor da pele", estreou no cinema americano com "Um beijo roubado" ("My blueberry nights") e boa parte da crítica não gostou, mas li vários críticos nacionais aprovando a produção, embora mantendo algumas ressalvas. Eram visivelmente fãs de Wai querendo preservar o prestígio do cineasta.

O filme é visualmente cuidado, mas padece de uma letargia estranha e é particularmente irritante no início, quando a conversa entre Jude Law e Norah Jones se desenrola no bar do primeiro em torno de tortas de mirtilo (o "blueberry" do título original) e outras obviedades que recebem um tratamento muito artístico de vidros e letreiros superpostos à frente dos gestos, do ir e vir dos personagens (o artifício é cansativo). As câmeras lentas, as cores saturadas, as tomadas com muito néon e muito visual metropolitano real-chique, fazem pensar em coisas afetadas dos anos 80 como "Paris-Texas", "Coração satânico" e "Fome de viver", uma estética datada.

Isso não chegaria a importar se a história, que é a de uma moça que perde o namorado e mergulha pelo interior da América, fosse mais vibrante.

Mas a coisa jamais pega fogo, porque a cantora Norah Jones, como protagonista, não tem vida e Jude Law, por mais que se esforce, não é um grande ator. A vida só dá as caras quando surgem David Strathairn, capaz de imprimir uma dignidade desesperadora a seu personagem de policial alcoólatra, e a bela Rachel Weisz como a mulher que ele ama, mas o despreza e o trai acintosamente com outros (e a beleza pungente de Weisz faz com que compreendamos a dor de Strathairn muito bem).

A personagem de Norah se envolverá depois com uma jogadora de Las Vegas vivida também muito bem por Natalie Portman, mas acaba aí. O interesse de seu caso de amor apenas esboçado no início com Jude Law perde-se em meio a essas figuras, e só o espectador mais fanático por Wai resistirá aos bocejos. Um filme só com Strathairn, Weisz e Portman teria sido infinitamente melhor.

Claro que "Um beijo roubado", com seus maneirismos visuais, sempre achará quem o defenda. Mas não é nada além de uma vitrine bonita debaixo da qual não há nada. Bem, a trilha sonora é convincente, com Ottis Redding de repente, cantando "Try a little tenderness", dando àquela coisa morta um brilho passional, e com outros números charmosos, incluindo um com a voz de Norah. Melhor que ela continue só cantora, concluímos.

CARMEM ERA TUDO QUE AQUELES FILMES TINHAM - Pode-se encontrar hoje em dia DVDs de Carmen Miranda a bom preço em bancas e promoções por aí. É o caso de "Entre a loura e a morena" ("The gang´s all here"), seu filme mais mítico e o que mais despertou entusiasmo da crítica, realizado pela Fox em 1943, sob a direção do coreógrafo Busby Berkeley. Quem é fã não hesitará em adquirir. Para o espectador comum, porém, aconselho: é melhor pensar bem.

Porque a grande verdade é que Carmen Miranda era tudo que aqueles filmes da Fox, da época da Política da Boa Vizinhança, tinham a mostrar. Já vi quase todos, e continuo achando Alice Faye e seus galãs inteiramente anacrônicos e insuportáveis. Faye é uma loura chata, que canta melosamente, e está sempre envolvida com algum galã sorridente e sadio, "all american", daqueles tempos. Tudo parece irremediavelmente morto, e as tramas - se aquelas historinhas contém vagamente uma trama - são sempre um caso de amor cheio de mal-entendidos que invariavelmente acabará bem, unindo a loura a seu louro ou moreno (contanto que seja americano) e os dois para sempre farão lindos filhotinhos sadios comedores de corn-flakes. No meio disso, algumas correrias e Carmen, sempre com um nome mais para argentino ou mexicano, fazendo seus números. É tremendamente previsível, e em "Entre a loura e a morena", Berkeley, coreógrafo de grande ousadia, mas mau diretor, nem mesmo se preocupa com o enredo idiota - capricha nos números musicais e pronto.

O filme é espantoso, porque já começa com alguém cantando a aquarela de Ary, na primeira imagem e fala na tela (!!!). O apogeu desse absurdo falsamente cômico é o número de Carmen "The lady with the tutti-frutti hat", com bananas gigantescas e já nem se pode dizer fálicas, de tão óbvio e vulgar aquilo é, mas o delírio evoca algum quadro de Dali e convence os que achavam que Berkeley era um gênio. Aliás, o filme só é salvo por esses delírios visuais tão cafonas que vão além do kitsch, deixando a gente boquiaberto, e porque Carmen é um dínamo - põe vida em qualquer coisa. Só que aparece pouco, e quem é que agüenta Faye e seus galãs por muito tempo? Eu não.

O recurso da seleção de cenas dos DVDs é o socorro a esse tipo de filme - a gente pode ver apenas os números musicais de Carmen, grande talento brasileiro, imortal com todo mérito. O resto é só o resto.

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

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