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O Brasil na era da culpa

por Moacyr Scliar *
publicado em 01/02/2008.

Façam a seguinte experiência: entrem no Google e digitem a palavra “culpa”. Sabem quantas referências aparecerão? Nada menos do que 31 milhões. Isso mesmo, 31 milhões. Daquelas que eu revisei, a maioria dedica-se a atribuir culpa a alguém: a culpa é dos políticos, a culpa é dos médicos, a culpa é do povo, a culpa é do homem, a culpa é da mulher, a culpa é do técnico Abel Braga. Um curioso achado desta busca: “Culpa” é também um acrônimo norte-americano; corresponde a Columbia Underground Listing of Professor Ability. Trata-se de um site em que os alunos da prestigiosa Universidade de Columbia fazem avaliações de seus professores, não raro associando-os a problemas de ensino. Como se a obsessão brasileira por culpa tivesse contagiando universitários nova-iorquinos...

Obsessão, sim. Culpa, no Brasil, está, e por óbvias razões, na ordem do dia. A culpa dos políticos é objeto de 3 milhões de referências. Quando a Editora Objetiva, do Rio de Janeiro, pediu-me um texto para uma coleção sobre os grandes temas da condição humana, imediatamente ocorreu-me escrever sobre a culpa. É um assunto que diz respeito ao país e é um assunto que diz respeito especificamente à minha geração. Mas é claro que estamos falando de coisas diferentes.

No caso do Brasil, trata-se de encontrar aqueles que estão atrás dos numerosos escândalos. Nesse caso, o termo melhor não é culpa, é responsabilidade. Responsável é aquele que tem de responder por seus atos, inclusive judicialmente. Um processo que demanda investigação, demanda provas, demanda um veredicto. E que, no Brasil, como na América Latina em geral, sempre foi raridade. O dito do século 18, segundo o qual não existe pecado ao sul do Equador, foi transferido para a política e para a administração pública. O resultado foi a impunidade, conseqüência lógica da colonização norteada por uma mentalidade predadora, cujo objetivo era desfrutar de todos os prazeres possíveis, enriquecer e retornar à metrópole. Prisão e castigo, só para os “três pês”: pretos, pobres e prostitutas.

Por outro lado, existe a culpa psicológica, aquela que resulta de sentença proferida por nosso tribunal interior, um tribunal implacável, em que juiz, jurados e testemunhas estão sempre contra nós (e no qual não temos advogado de defesa). Agora: se há um grupo social no qual a culpa é endêmica, esse grupo é a classe média. Os pais se sentem culpados por ser muito permissivos ou, ao contrário, muito castradores; os filhos se sentem culpados por não corresponder à expectativa dos pais. A isso se juntam as culpas geradas pelo trabalho, pela convivência com outros, por uma conjuntura social freqüentemente absurda. Culpa e classe média formam um binômio inseparável.

Juntemos as coisas: o movimento de protesto contra a corrupção é, em grande parte, um movimento da classe média. É como se essas pessoas estivessem dizendo: não somos só nós que devemos nos castigar pelo sentimento de culpa, também devem ser punidos aqueles que são responsáveis pelos escândalos. E isso é importante. A classe média pode não ser a mais numerosa, mas é a caixa de ressonância dos problemas do país. É a classe que mais paga impostos, a classe que menos se tem beneficiado com os avanços econômicos (o protesto dos médicos é um exemplo disso) e é também a classe que manda mensagens indignadas para jornais e revistas. O risco dessa situação é o denuncismo, mas é, convenhamos, um risco muito menor neste momento – um momento em que o país está próximo a uma mudança real. A culpa, como carga psicológica, deve ser elaborada, porque em grande parte resulta de fantasia. Mas a corrupção é real, como o é a responsabilidade por ela. Culpa não, responsabilidade sim: essa equação tornará o Brasil melhor.

Sobre o Autor

Moacyr Scliar: Nasceu em Porto Alegre, em 1937. É formado em medicina, profissão que exerce até hoje. Autor de uma vasta obra que abrange conto, romance, literatura juvenil, crônica e ensaio, recebeu numerosos prêmios, como o Jabuti (1988 e 1993), o APCA (1989) e o Casa de las Americas (1989). Já teve textos traduzidos para doze idiomas. Várias de suas obras foram adaptadas para o cinema, a televisão e o teatro.

O centauro no jardim, A majestade do Xingu, A mulher que escreveu a Bíblia e Contos reunidos são alguns dos livros marcantes de sua vasta obra literária, que soma hoje mais de 70 títulos publicados. Entre os recentes, destacam-se o romance Na noite do ventre, o diamante e o juvenil Um menino chamado Moisés, uma reconstituição imaginária da infância do famoso personagem bíblico.

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