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A última chance de Anita: o incontornável desejo e a infalível velhice

por Chico Lopes *
publicado em 12/01/2008.

Entre os filmes que mais me deixaram satisfeito como espectador nos últimos anos, há uma tendência a predominar títulos do cinema espanhol. Com orçamentos pequenos, é um cinema que, desde a aparição redentora e libertária dos filmes de Almodóvar - que ganharam merecida ressonância mundial -, errando e acertando, tem sempre uma elevada dose de humanismo e uma simpatia contagiante, lembrando as melhores misturas do cinema italiano dos anos 50 e 60 (aquele delicioso calor humano, do qual a lucidez e mesmo a crueldade, não estavam excluídos, em comédias fabulosas). A gente percebe a pobreza das produções, locações limitadas, certos descuidos de figurino, cenografia, roteiro, mas isso é substituído, com talento, por uma verdade documental muito grande e por atores que se entregam aos papéis com vontade visceral de acertar.

Exemplo disso é o pequeno filme, que se vê por aí, despretensioso, nas locadoras (e muita gente nem tem maiores referências a seu respeito) chamado "Anita não perde a chance", de Ventura Pons.

"Anita não perde a chance" ("Anita no perde el tren") é de 2000 e não marcou maior presença, mas vale ser visto e descoberto, especialmente por quem se interessa por um cinema verdadeiramente humano, em que o melodrama e a comédia se fundem. Não é um grande filme, longe disso. Tampouco são grandes filmes "Fred e Elza", "Crime Perfeito" e outros petiscos espanhóis das locadoras. Mas, tal como os outros, a sua imperfeição é cheia de uma humanidade vital.

Traz no papel principal a atriz Rosa Maria Sardá, que trabalhou em "Tudo sobre minha mãe", de Almodóvar. Ela é Anita, uma bilheteira de um cinema de Madri que está para fazer 50 anos, viúva e solitária. O emprego como bilheteira daquele velho cinema, Capri, ocupou a sua vida toda. Ela é a típica mulher de uma geração mais reprimida (e mais romântica) que aprendeu algumas lições do feminismo, mas, muito contida, escrupulosa e correta, padece de acomodação, devido a sua tendência à auto-desvalorização, a choramingar em vez de agir.

Na caracterização de Sardá, isso fica bem claro: Anita é engraçada com seu medo de viver, de sair de seu casulo profissional e existencial. Dá pena, mas é compreensível. Ela é o que a maior parte das pessoas é, afinal de contas: simples, sonhadora, mas sem coragem e sem meios, e ainda por cima está envelhecendo. Pior: no início da história, já fica sabendo que o dono do cinema, que a tratou sempre com indiferença, no gênero "empregado móveis e utensílios", está com intenções estranhas a seu respeito, visto que se mostra humano, dá-lhe dinheiro (mesquinho, claro) e quer que ela entre em férias. Ela entra nessas tais férias, desesperada porque ficará ainda mais entregue à solidão e ao tédio sem seu emprego. Ao retornar ao trabalho, os seus presságios negativos se confirmam: o cinema fechou, o canalha do dono foi parar em Cuba, onde está enchendo a cara e se divertindo com mulheres, pois vendeu o cinema para uma multinacional que erguerá em seu lugar um multiplex.

Ela se desespera. No lugar do cinema, ergue-se uma obra, com uma movimentação enorme de máquinas e operários numa cratera. Sem que fazer, ela vai para ali todos os dias, ver o movimento dos operários. Como muitos desempregados e aposentados, o que faz Anita? Demora a se desprender daquilo que foi a única coisa significativa de sua vida, a ocupação que a tornava humana e útil. Agarra-se a ela pateticamente, deslocada. Essa tragédia do desemprego afeta o cinema espanhol de modo peculiar, bastando lembrar a força do filme "Segundas-feiras ao sol", que trata de quatro homens maduros demitidos depois de uma greve num estaleiro.

Anita não tem mais nada e, para seu aniversário, só contará com uma vizinha porra-louca, Natália (típica figura da pinel-cômica, meio ninfomaníaca, de Almodóvar e da nova Madri que comparece nesses filmes). Natália, mais pragmática, acha que ela tem que ser mais atirada. Faz o contraponto/contraste necessário à evolução da narrativa.

Anita descobrirá que um dos operários da obra, o que cuida da escavadeira, é um bonitão chamado Antônio (bem ao gênero do cinema espanhol, não é um galã impecável, do tipo americano, mas um tipo natural, meio gordo, sem o padrão enjoado e "sarado" dos astros assépticos e narcisistas). Ela mal pode desejar um homem assim, a seu ver, pois está já "passada" e ele é mais jovem. Mas, Antônio, com olhares ardentes, a procura, deixando-a perplexa. Ela não sabe o que fazer. Claro que Natália sabe e dá corda a seus desejos reprimidos. E ela irá para os braços da escavadeira, ou melhor, de Antônio. Iniciando assim um romance cômico e patético, bem à maneira Almodóvar.

SEM MISTIFICAÇÕES

"Anita não perde a chance" é despretensioso, mas sugere muitos outros temas, outras tantas reflexões. O principal deles parece percorrer o cinema atual com insistência: o drama do desejo na Terceira Idade, seja em homens ("Vênus", com um maravilhoso Peter O´Toole), seja em mulheres. Algumas dessas abordagens contém alguma coisa de dúbio e demagógico.

O cinema americano, por exemplo, insiste em vender Diane Keaton já andando pelos sessenta (em "Alguém tem que ceder" e "Mamãe quer que eu case") como irresistível e ainda capaz de exercer "atrações fatais" sobre galãs madurões. Muito discutível e um tanto ridículo, em que pese o charme da atriz. Insistir que a "juventude não morreu" e que "ainda é possível ser feliz" é desejável e simpático, mas há também algo de forçado e publicitário nisso, e, nos piores casos, pode parecer pieguice e safadeza. Melhor quando, como em "Anita...", isso é visto com boas doses de patético e ironia, com dignidade.

Porque, afinal, Antônio é simplesmente um homem com excessiva sensualidade que achou nela a "outra" providencial, já que é casado. Ele pensa só com a segunda cabeça de seu corpo. De pouca ou nenhuma conversa, é mais de ação, um bruto carismático, com um tesão que parece interminável, sonho de toda mulher reprimida. Sutil como uma escavadeira (a metáfora se impõe). Anita passa a se encontrar com ele na obra mesmo, furtivamente, à luz de uma vela. E renasce para o sexo e a vida. Mas, em termos, porque o filme de Ventura Pons não é mistificador.

Desejo é coisa que não deixará nunca o corpo de um ser humano, ainda que, cruelmente, esse corpo vá se tornando, pouco a pouco, cada vez menos desejável. Quem é que consegue conviver tranquilamente com isso? As academias podem se encher de homens e mulheres procurando ficar aptos e mais ou menos esbeltos e jovens para suas "últimas chances", mas a vida não é brincadeira.

E esse é um tema que rende maus e bons filmes. Nos melhores, há algo de decididamente sublime: Aschenbach (Dirk Bogarde) pintando cabelo, bigode e lábios para tentar seduzir o muito jovem Tadzio em "Morte em Veneza", de Visconti; o velho jogador (Burt Lancaster) encantado pela juventude inacessível da sua vizinha de apartamento (Susan Sarandon) em "Atlantic City", de Malle; em "Vênus", um Peter O´Toole aos oitenta e magnífico bem que desejaria ir para a cama com a jovenzinha vulgar, mas está com câncer na próstata; o velho príncipe (Lancaster, outra vez) em "O leopardo", com a linda Cláudia Cardinale dançando a valsa de Verdi que prenuncia a sua morte em "O leopardo", também de Visconti; a idosa Judi Dench sensacional e perturbadora em "O violinista que veio do mar" e "Notas sobre um escândalo".Dos filmes ruins, melhor não falar. Desfazem-se no pó das intenções comerciais.

É possível rir, é possível que isso tenha boa dose de cômico, seja lá como for: Natália, a amiga de Anita, começa a desprezar os homens simplesmente gostosões, alegando, com um certo número de experiências, que os mais interessantes são os mais intelectualizados, justificando: "É com o cérebro, e não com a coisa lá embaixo, que o melhor sexo é feito". Daí, passa a perguntar para os inúmeros candidatos a uma transa que vão lhe surgindo, antes de qualquer coisa: "Qual é o último livro que você leu?"

Mas o fato é que à crueldade básica da existência ninguém escapa, não importa que se ergam barreiras de eufemismo, "wishful thought", ilusões, conciliações, remendos: envelhecer é um fato, é preciso conviver com ele. Anita terá que saber, em cenas engraçadas e verdadeiras, que nem como a Outra (apoiando-se em lembranças de Jean Harlow, Greta Garbo e outras estrelas de velhos filmes) tem muitas chances. Uma paródia muito engraçada dela como Garbo e de Antônio como John Gilbert em "A Rainha Cristina" nos é oferecida. E, numa cena que evoca a Miss Lonely Heart de "Janela indiscreta", de Hitchcock, ela comemora o seu aniversário.

A Velhice, de que se foge hoje em dia a começar pela palavra, não há dúvidas, chegou. E é, na melhor hipótese, com serenidade fatalista e dignidade cada vez maior (mas também mais solitária) que se desce progressivamente ao vale das desilusões.

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

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