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Suspiros de 2007 e o que esperar de 2008

por Chico Lopes *
publicado em 12/12/2007.

Meus leitores sabem que sou mais de ver ou rever filmes em DVD do que de ir aos cinemas porque, decididamente, não tenho espírito novidadeiro o bastante para achar, entre os tantos lançamentos, algum que me pareça mais digno de atenção. Os filmes, na atualidade, chegam rápido ao formato DVD e, tendo passado o tempo de barulho, de "sucesso", sofrem certa decantação (ela também mais acelerada, em que pese o paradoxo) e pode-se escolher melhor. O que não nos isenta de decepções, porque, hoje em dia, há muito mais publicidade que qualidade. Os outdoors, capas de revista, páginas da Internet, obas aqui, obas acolá, dão a impressão de que cada filme que sai é imperdível. É a ilusão de um mundo excessivamente consumista onde o excesso de sinais pretensamente qualitativos a todos engana.

Nessa floresta de chamarizes falsos, é preciso ter certa resistência crítica que chega a parecer estoicismo e escolher com frieza.

O hábito de ver e trabalhar profissionalmente com filmes dá considerável fadiga nesta época, quando todo mundo se põe a fazer listas dos melhores do ano, encontrando certas unanimidades e estranhando quando alguém não dá muita bola pra elas.

Eu não me abalo. Creio que, ecoando o "ficou chato ser moderno/agora serei eterno", de Drummond, procuro mais o que é sólido nesse mar de futilidades e descartes automáticos que nos assola. Simplesmente, Will Ferrell e Adam Sandler e não sei mais quem ainda não me convenceram de que são comediantes ou atores minimamente interessantes - ninguém pode superar Jack Lemmon ou Jerry Lewis nesses momentos e, se uma mesma locadora dispõe de títulos novos e antigos, e o usuário que entra conhece bem o cinema do passado, só entrará em fria vendo coisas novas se quiser.

O mesmo se aplica aos filmes e diretores famosos. Um Bergman ou um Herzog elimina não sei quantos pseudo-filmes franceses de arte com os quais muita gente mais refinada se arrisca.

Gostei, neste ano, de vários relançamentos de clássicos em DVD, e dou destaque para "Pacto de sangue", um Billy Wilder, policial de1944 que andava esquecido, trazendo Bárbara Stanwick e Fred MacMurray, além de Edward G.Robinson, em caracterizações de primeira num "noir" magnificamente fotografado.

Fiquei impressionado com a qualidade do filme espanhol "Segundas-feiras ao sol", que me pareceu o melhor já feito sobre o tema do desemprego. "Notas sobre um escândalo", pela qualidade contundente do trabalho de atriz de Judi Dench, me impressionou também. Gostei do tenso e revelador "Caché", de Michael Haneken, de coisas que nem vou lembrar agora, cenas, climas isolados, certas impressões de que o cinema europeu sempre arrisca melhor que o americano. No cômputo final, senti-me sempre mais à vontade com o já conhecido, dando mais valor às re-visões.

E lamentei muito a morte de Deborah Kerr. Quem não? Há alguma atriz de cinema hoje em dia com aquela classe toda? Estigmatizada pelos seus papéis que seriam "de mulher virtuosa e chata" pela crítica francesa (François Truffaut a tratou com crueldade injustificada ao comentar "Bom dia, tristeza", de Preminger), basta vê-la interpretando a preceptora Mrs. Giddens em "Os inocentes", de Jack Clayton, para concluir que atrizes como ela, intensas, elegantes, bonitas, capazes de passar por nuances tão sutis de drama, malícia e loucura, não existem assim com tanta facilidade.

Quanto a 2008, pelo que acompanho em revistas, não lhe faltará barulho, na área cinematográfica. Anuncia-se o "revival" do gênero faroeste, com um Jesse James feito por Brad Pitt e um "Os indomáveis" com Russell Crowe e Christian Bale que vem fazendo sucesso na América. Anuncia-se um novo petardo sobre os anos 30, de John Paul Anderson, o diretor de "Magnólia, "There will be blood", com Daniel Day Lewis. O filme, que trata de petróleo, vai chamar-se "Sangue negro", ao que parece, no Brasil. Uma terceira parte de "Chinatown", outra vez com Jack Nicholson, também é anunciada (mas a seqüência deste clássico foi um fracasso, e não se pode esperar muito da terceira parte) e também se fala bastante de "A bússola de ouro", candidato a novo "Harry Potter", com Nicole Kidman.

E, é claro, anuncia-se um monte de filmes adaptados de gibis, praga que já me cansou há muito tempo. Se alguém gosta do gênero, perfeito. Mas a overdose é estupefaciente, e é preciso ser tenazmente teen, infantil ou debilóide para ficar curtindo grandes proezas de gente que, ao arrebentar não sei quantas barreiras de vidro, pedra, destruir prédios, ser amassada por carros, simplesmente não sangrará, ficará tetraplégica ou será vencida. A inumanidade dos heróis faz com que a gente se sinta, mais que compensado, traído, frustrado. Essa hiper-compensação da realidade de que somos frágeis e limitados, como seres humanos, dá a impressão persistente de que a humanidade toda regride fantasticamente a fantasias infantis indignas de consideração.

O cinema de ação excessiva simplesmente me dá impressões contraditórias. Um filme como "O ultimato Bourne", muito bem feito em seu gênero (pelo diretor Paul Greengrass), deixa a gente estatelado e interessado na cadeira, e não há trégua naquelas perseguições, que são extremamente bem feitas, mas, acabada a exibição, não resta nada em que pensar - o espetáculo parece ter feito tudo por nós e os personagens desaparecem da memória. Coisa que filmes antigos, que criaram praticamente a fórmula desses, não tinham - lembramos de "Intriga internacional", de Hitchcock, com um sorriso no rosto: havia humor, poesia, havia Cary Grant, música de Herrmann, fantasia, brincadeira. Tudo era feito pressupondo que, com inteligência, não acreditaríamos mesmo em nada. Hitchcock se deleitava artisticamente com os absurdos, o teco-teco perseguindo Grant, a mãe incrédula, o trem atravessando eroticamente um túnel. Mas esse Jason Bourne de Matt Damon é um ícone da dureza e da crueldade desprovido de charme e as pessoas se divertem com um sadismo sem leveza com essas coisas. O realismo casca-grossa, eficaz, mas sem arte, parece ter tomado conta de todos.

Os filmes de ação que fazem sucesso ultimamente, por tecnicamente brilhantes que sejam, padecem de uma coisa óbvia: falta de interesse humano. Um drama de pequeno orçamento, sem tanto movimento, como "O violinista que veio do mar", com duas atrizes inglesas do porte de Judi Dench e Maggie Smith, nos emociona mais profundamente e tem uma fixação muito mais duradoura em nossa lembrança. O cinema erra fragorosamente ao querer ser só movimento e ação. Pensar não faz mal nenhum, emocionar com pequenas coisas, como em "O labirinto do fauno", bom filme, de poesia surpreendente em meio a tantos mastodontes sem sutileza, tampouco.

Curiosamente, os grandes acontecimentos cinematográficos parecem sempre ir na direção do retrospecto - por exemplo, o lançamento em DVD de uma versão mais completa de "Blade Runner -Caçador de andróides".

Isso é bem sintomático. O Cinema não tem recebido injeções inovadoras que convençam o público e a crítica de estarem diante de grandes filmes. A crítica americana garante que isso será remediado pelo "There will be blood", de Anderson. Veremos. Temos muito a lamentar e pouco em que apostar.

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

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