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O que vem por aí

por Noga Lubicz Sklar *
publicado em 19/11/2007.

"Este é um romance de ficção. Com exceção das partes que não são."
Michael Crichton


O que ele faz nem é considerado literatura, mas Michael Crichton não está nem aí. Segue em sua trajetória alarmista de sucesso iniciada com "Parque dos Dinossauros", agitando o cartão vermelho do futuro no nariz de quem discorda de sua visão do mundo. Entre os quais não me incluo, e a prova disso é que até me arrisco, sob o risco de desprezo dos meus pares, a citar seu último romance "Next" na coluna "Estou lendo" do meu blog. A partir dessa decisão me comprometi com algum comentário, e pra ser honesta, me espantei ao encontrar o livro resenhado no NY Times. Metendo o pau, claro.

Michael Crichton discorda do pensamento dominante e por isso - e também por seu trabalho de pesquisa e a ousadia de ir contra a corrente do lucro que permeia hoje em dia o idealismo ambiental -, tem a minha simpatia. Além disso, domina o ritmo frenético da prosa e a política da linguagem, o que garante, pelo menos, uma boa e bem revisada diversão. No original em inglês, pelo menos.

Com sua proposital ambigüidade, Crichton irrita críticos e leitores. Mas provoca a reflexão quando a gente descobre, por exemplo, que o coelho fluorescente de Eduardo Kac, um dos ícones da arte biogenética que ele descreve, é pura realidade, não delírio deslavado de um ficcionista de araque. O Alan, por exemplo, não sabia disso, mas Eduardo Kac, vocês sabem, é daqui do Rio e o coelho verde dele, pra nós, não é novidade nenhuma.

Outras idéias do livro, como o humacaco e o papagaio que não somente fala, mas também pensa, soam sim, absurdas, exageradas, o que atenua a sensação futurista de pesadelo (ou seriam, por outro lado, uma boa metáfora para o conhecimento contemporâneo?). Algumas a gente encontra no google, outras não, estas últimas, geralmente, tratadas por Crichton como falsas na própria trama. Afinal de contas, o clima de segredo e competição industrial que ronda a pesquisa científica acaba sempre de fora das reportagens sensacionalistas, que funcionam como um tipo de névoa que nos impede de ver os verdadeiros interesses envolvidos.

Não me entendam mal: adoro ciência, e costumo acreditar que a tecnologia é totalmente do bem, mas bem, hum... Nem terminei de ler o livro e dou de cara com o conhecimento genético explorado comercialmente como se fosse nada, por um laboratório da Califórnia. Dá ou não dá arrepio? E uma tremenda sensação de poder, claro. O que não dá é pra classificar como ridículas as preocupações de Crichton, tratadas seriamente como nota do autor nas últimas páginas do livro: sem os fogos de artifício da ficção, ao lado de extensa bibliografia. O cara se dedica, gente.

Além do mais, não falta humor ao texto. Nele são desbancados alguns mitos antigos como o da lôraburra, mais ultrapassado que as próprias leis de Mendel. Crichton afirma que ser loura legítima é sinal não só de inteligência superior, mas também de sensualidade, com altos teores comprovados de estrogênio no sangue. Nossos machos, porém... tsk tsk: preferem as falsas.

O problema é que neste livro, em particular, há um excesso de situações, de personagens e de sub-enredos entrecortados que, a partir de certo ponto, se traduzem em tédio e resultam num fim apressado, decepcionantemente mal-cuidado. O NY Times acredita que é por Crichton ter completado em "Next" sua transição de simples hipócrita para demagogo profissional. Mas eu duvido. Quando li em seu site que o autor fez pós-doutorado no Salk Institute for Biological Studies em La Jolla, e que o romance resultou de sua indignação com os rumos da ciência genética, minha conclusão foi outra: Michael Crichton perdeu a paciência com os meandros da fantasia e resolveu partir pra militância a sério contra os abusos e a desinformação da tecnologia científica. Prova disso é a petição aberta no site para proibir a patente de genes.

Ou será tudo isso nada mais que uma bela jogada de marketing? E Crichton estaria se divertindo com a nossa ingenuidade, colecionando em caixinha própria os milhões que ele tanto critica? Fica em aberto a questão, mas sinceramente, de minha parte, acreditei nas boas intenções do escritor. Novidade nenhuma: tendo a ser meio ingênua mesmo. Falha minha. Não consigo viver vendo risco e maldade em tudo, fazer o quê.

Sobre o Autor

Noga Lubicz Sklar: Noga Lubicz Sklar é escritora. Graduou-se como arquiteta e foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica exclusivamente à literatura. Hierosgamos - Diário de uma Sedução, lançado na FLIP 2007 pela Giz Editorial, é seu segundo livro publicado e seu primeiro romance. Tem vários artigos publicados nas áreas de culinária e comportamento. Atualmente Noga se dedica à crônica do cotidiano escrevendo diariamente em seu blog.

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