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O século do Eu

por Noga Lubicz Sklar *
publicado em 29/07/2007.

Em julho de 1976, recém-formada em arquitetura, ganhei de presente uma viagem de três meses para Israel e Europa, com uma possibilidade implícita de encontrar, quem sabe, o rumo de uma vida nova em Israel, numa reedição do abortado sonho pioneiro de meus pais que acabou resultando na minha dupla nacionalidade. Não deu certo. Meio confusa eu não sabia, na época, conciliar uma forte espiritualidade com meu eu judaico interior, e a insistência de um tio pra que eu ficasse no país, incluíndo um deixe-de-besteira-e-absurdos-que-o-seu-lugar-é-aqui, teve o efeito contrário: saí quase fugida do meu destino semita pra cair no colo macio da minha terrinha adorada, pátria amada Brasil dos despachos de esquina e pais-de-santo milagrosos. Ou pra ser mais honesta: da minha total falta de espírito aventureiro misturada a um conformismo de herança.

Pois neste domingo chuvoso de julho de 2007, em que o povo se divide entre a revolta e o orgulho de ser brasileiro, me espanto com a minha própria vergonha em ter optado por essa vidinha boa de beira-de-praia e meia dúzia de questionamentos íntimos desprezíveis ao encarar de frente, numa mesa de restaurante, a minha prima-irmã israelense que não vejo há mais de dez anos, e que insiste em sobreviver num ex-kibutz da zona de guerra na fronteira com o Líbano.

O ex-kibutz é por conta da decisão dos moradores de lá em acertar o passo com o século 21 adotando o materialismo, a competição profissional, e a ampla liberdade de consumir. "Visto de fora", a minha prima diz, "o kibutz parece ideal. Mas o que acontece mesmo é uma falta de motivação total de quem vive nele." Sobre a guerra ela se limita a contar que, durante o conflito, as crianças foram retiradas do kibutz e que sim, a coisa esteve feia por lá. Pergunto sobre o casamento dela, um relacionamento estável de 36 anos, e recebo de volta um reação perplexa: "Casamento? Que raio de pergunta é essa?"

Pronto. Já é o bastante pra me jogar no fundo do poço da minha íntima inadequação, sim, eu, uma patricinha fútil vivendo no bem-bom que já derrubou três maridos: perco o meio-ensaiado equilíbrio mundano e a disposição calculadamente relaxada, derrubo o chope no meu black velvet jeans e ainda por cima quebro o copo no chão, coisa que todo mundo sabe, alivia a energia pesada no ambiente e redime a destruição do Grande Templo: mazel tov. Não dá pra ter certeza, mas a grande chance é que isso não passe de um delírio da minha própria cabeça, enquanto a prima israelense simplesmente curte as férias bem merecidas em sua primeira visita ao lado tropical do mundo. E se escrevo sobre isso num domingo de manhã é pra tentar aliviar a minha culpa por algo de que não tenho culpa nenhuma e angariar a simpatia indevida dos leitores que a esta altura, imersos num turbilhão de emoções, se sentem culpados por algo de que não têm culpa nenhuma. A vida é assim mesmo: cada um com o seu pacotinho e a humanidade com seu pacotão.

É uma pena que eu já não me sinta tão espiritualista como em 1976, porque se me sentisse, compraria hoje mesmo online o novo lançamento da Sextante — O Despertar de uma Nova Consciência — pra aprender "de forma inspiradora e surpreendente", que "ele nos ajuda a descobrir o nosso verdadeiro eu, a essência humana genuína que nos permitirá construir o novo mundo e viver em harmonia com tudo o que existe". O livro "nos mostra que o salto para essa nova realidade depende de uma mudança interna radical em cada um de nós", e fala sério, até que eu acredito nisso, e se não tivesse optado pela ironia cotidiana — mais um erro fatal —, encontraria no modo de pensar esotérico um bom consolo pras minhas próprias limitações.

O resultado de tudo isso é que neste domingo não tenho resultado nenhum pra apresentar, enredada demais nos meus pequenos questionamentos sobre o sentido da vida pra poder iluminar vocês aí, com a vasta sabedoria que costuma freqüentar meus textos, sorry, folks. Coisas da vida. Para uma mulher analisada, egressa da década do Eu com 20 anos de Freud nas costas, não é surpresa nenhuma.

Sobre o Autor

Noga Lubicz Sklar: Noga Lubicz Sklar é escritora. Graduou-se como arquiteta e foi designer de jóias, móveis e objetos; desde 2004 se dedica exclusivamente à literatura. Hierosgamos - Diário de uma Sedução, lançado na FLIP 2007 pela Giz Editorial, é seu segundo livro publicado e seu primeiro romance. Tem vários artigos publicados nas áreas de culinária e comportamento. Atualmente Noga se dedica à crônica do cotidiano escrevendo diariamente em seu blog.

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