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CAMILLE PAGLIA vê um Hitchcock aterrorizado por mulheres em sua leitura de “Os Pássaros”

por Chico Lopes *
publicado em 06/07/2007.

Uma boa coleção para cinéfilos que rola pelas livrarias, a preços acessíveis, é a de livros curtos sobre filmes clássicos, chamada "ArteMídia", da editora Rocco. Vários títulos atraentes estão por aí, e escritos por gente que ora é estudiosa específica de cinema ora é apenas militantes de outras áreas do conhecimento, mas com boa dose de cinefilia. Caso este de Camille Paglia, feminista já meio fora de moda que escreveu bastante bem sobre diversas coisas, e se esmerou em criar algumas polêmicas. Ela escreveu um volume bastante interessante sobre "Os pássaros", que nenhum apreciador de Hitchcock ou do melhor cinema que já foi feito no mundo pode perder.

O livrinho chama-se apenas "Os pássaros" e nem precisava mais, trazendo na capa o cartaz original do filme, com os pássaros ameaçadores esvoaçando sobre uma mulher que grita histericamente. Pensou-se - porque se trata de uma loura - que fosse a atriz principal do filme, Tippi Hedren, mas era outra, a venerada Jessica Tandy, na verdade já madura, intérprete da mãe possessiva do herói da produção, vivido por Rod Taylor. Essa ambigüidade, presente já no cartaz, é só uma das dezenas que Paglia descobre.

"Os pássaros" costuma desnortear o espectador comum de cinema, que implica até hoje com o final em aberto. Se não se vê o filme como uma especulação, uma fantasia poética, tudo estará perdido. Paglia o viu muito bem, com uma acuidade que poucos críticos normais especializados teriam, e o livro é uma festa em termos de informações sobre as filmagens, além de ser muito bem escrito.

PARDELAS SUJAS DE FULIGEM

O levantamento documental de Paglia a respeito das filmagens é muito interessante. Ela vai, por exemplo, até o exemplar de um jornal, "Santa Cruz Sentinel", que, em 18 de agosto de 1961, dois anos antes do filme ser produzido, noticiou que "milhares de pardelas sujas de fuligem, recém-saídas de um banquete de anchovas e provenientes da baía de Monterey, chocaram-se durante a noite contra as enevoadas áreas costeiras próximas a Santa Cruz. As gaivotas, migrando da Nova Zelândia e da América do Sul aos "milhões", colidiram com carros e prédios, quebraram antenas de televisão e lâmpadas dos postes de luz, e tentaram entrar nas casas quando os moradores saíram correndo para investigar o barulho às três horas da manhã e recuaram imediatamente ao ver que os pássaros voavam na direção do raio de suas lanternas." (Esta descrição impressiona mais ainda porque, para quem viu o filme, parece até pressagiar algumas cenas, literalmente; é óbvio que o incidente chamou a atenção de Hitchcock. Também na mesma região onde as filmagens foram feitas, Hitchcock descobriu que corvos tinham atacado carneiros de alguns criadores, mirando diretamente os olhos. De modo que, embora fantasioso e especulativo, o filme não era tão despropositado ao postular uma agressividade inexplicável no comportamento de todas as aves do mundo.)

Paglia faz outro levantamento - a da presença de pássaros em toda a filmografia do diretor, desde o período inglês - em "Sabotagem - O marido era o culpado", há um pássaro engaiolado muito saliente, em "Ladrão de casaca" há uma gaiola dentro de um ônibus onde Cary Grant se senta, ao lado do próprio Hitchcock, e em "Psicose", além de empalhar pássaros, o psicótico Norman Bates tem quadrinhos de pássaros espalhados pela casa (o cuidado de Paglia com detalhes reveladores chega até ao ponto de descobrir que o nome da heroína do filme, Marion Crane, é indicativo, visto que "Crane" significa "garça"). A explicação para o cacoete obsessivo de Hitchcock, por parte da autora, é que ele teria medo e aversão às aves, nem chegava perto, desde menino. Mas, Hitch, como todo artista de gênio, e, no caso, artista do medo, elaborava seus temores obsessivos e os transfigurava em Beleza.

ESTRELA PADECE COM O SADISMO DO DIRETOR

Mas, Paglia, como boa feminista pós-moderna, se interessa é pelo calvário vivido pela personagem principal do filme - Melanie Daniels, uma milionária fútil e mimada de San Francisco que se envolve na catástrofe dos pássaros por meramente flertar com um advogado charmoso que conhece numa loja que vende aves.

Os dois entram num joguinho irônico de paquera, que a deixará perdedora, e, orgulhosa, inconformada com a ligeira esnobada que leva do homem, ela decide surpreendê-lo, levando de presente de aniversário para a sua irmãzinha, em Bodega Bay, um casal de periquitos em gaiola.

Melanie leva o pânico à pequena cidade costeira com seu presentinho atrevido, mas Paglia acha muito glamuroso que a heroína tome a iniciativa de "caçar" o herói, assediá-lo, questionando a sua superioridade masculina. Só que ela será punida por isso. E encontrará, ademais, uma autêntica harpia pela frente: a mãe do advogado, uma mulher que é uma perfeita mãe edipiana, rancorosa, ciumenta do filho único, que não quererá entregar a uma forasteira com maus antecedentes. Paglia vê nessas mulheres o medo de Hitch à sua mãe e suas neuroses de puritano perverso, fascinado por fêmeas atrevidas. Na misoginia de Hitch, Paglia pinça os muitos atrativos ambíguos que o filme oferece.

Tippi Hedren, a atriz que encarna Melanie, era uma modelo de anúncios de televisão que Hitch viu na telinha, achou bonita e modelou para a produção. Era má atriz, e o filme sofreu críticas por isso (também sofreu pelo fato de Rod Taylor, o galã, não ser carismático; Hitchcock queria Cary Grant para o papel, mas ele estava deixando o cinema, já achando a sua estampa um pouco envelhecida). E Tippi sofreu mais ainda foi com o sonso sadismo de Hitchcock, que a expunha aos pássaros, em cenas torturantes, nas quais foi até bicada. Aliás, nada é mais erótico - e descaradamente fálico - que os biquinhos ávidos daquelas gaivotas sobre as belas pernas de Tippi. Mesmo quem achou as cenas assustadoras e violentas, não pôde deixar de sentir o glamour erótico envolvido.

Tippi resistiu às torturas das filmagens, não se deixou intimidar por Hitchcock. E, em 1964, filmou com ele o que é considerado o último grande filme do diretor: "Marnie - Confissões de uma ladra". As filmagens foram muito problemáticas, porque Hitch estava apaixonado por Tippi, mas era um amor nada recíproco - ela uma vez reagiu mal a seus assédios, chamando-o de "gordo", o que o deixou mortalmente ofendido (sobre isso há um livro interessante, não lançado no Brasil, chamado "The dark side of genius", escrito por Donald Spoto). "Marnie" não foi um sucesso e assinalou o fim da relação do diretor com a estrela. Mas, Paglia, ao final do livro, depois de contar tudo isso (e muito mais) com sua pena brilhante, ficando - logicamente - ao lado da heroína, defendendo as mulheres, acha que Tippi foi a grande vencedora desse embate.

"Os pássaros", em termos de trucagens, envelheceu (há quem ria das óbvias "back projections" das aves perseguindo as crianças, por exemplo). Mas possui uma estranha força, que o faz resistir ao tempo. E "Marnie", mal acolhido em sua época, é hoje em dia considerado uma obra-prima. Não foi apenas Tippi que saiu vencedora. O público, admirador de Hitchcock, também. Depois desses dois filmes, nos inícios dos anos 60, a grande verdade é que ele foi caindo pelas tabelas e nunca mais fez nada tão grandioso. Uma pena. Teria sido praga rogada pela atriz que tanto sofreu com ele?

Vale ler o livrinho de Paglia, que faz um "making of" fascinante dos bastidores da produção. São 130 páginas cujo interesse nunca decai.

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

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