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A orelha de Van Gogh

por Pablo Morenno *
publicado em 06/06/2007.

Holanda em postais: um tapete de tulipas vermelhas, moinhos-de-vento como gigantes quixotescos sob o sol. Se imagino um holandês, é Van Gogh quem aparece. Com a ansiedade dos famintos, desesperadamente, despeja tintas em telas, densas e turvas camadas. E a espátula pare corvos negros, campos de trigos, girassóis, ciprestes fantasmas. Tristes quadros. Tudo extremamente vivo. Van Gogh é o holandês mais famoso do mundo. E sua orelha ausente - mais do que todas as de Pitangui - é a mais enigmática do mundo.

Sobre a orelha que não aparece no “Auto-retrato com orelha enfaixada e cachimbo”, 1889, há várias histórias. A versão que ganhou maior notoriedade relata a punição do pintor perturbado. Após uma das muitas brigas com Gauguin, com quem dividia o ateliê, como punição e pedido de desculpas, teria cortado a própria orelha e entregue ao colega. Outros contam que a orelha teria sido ofertada a Rachel, uma prostituta. O certo é que Van Gogh, além de sua arte, deixou-nos esse despojamento e coragem.

Lembrei-me da orelha de Van Gogh esta semana, enquanto vasculhava a internet lendo notícias amenas. O reality show "De Grote Donorshow" – show do grande doador - na Holanda colocou na TV uma mulher, Lisa, paciente terminal. Diagnosticada com câncer, devia escolher entre pessoas de uma fila de espera aquela que seria agraciada com um de seus rins. Por telefone e e-mail, os telespectadores deviam orientá-la na decisão.

Antes mesmo de ir ao ar, numa sexta-feira à noite, o programa dividiu a classe política, a opinião pública e os moralistas de plantão. O primeiro-ministro holandês, Jan Peter Balkenende, disse a Deus e todo mundo que não assistiria ao programa por ser de conteúdo absolutamente anti-ético. O deputado democrata-cristão Joop Atsma chegou a pedir ao parlamento holandês a suspensão do atrativo.

Show no ar. Um milhão e duzentos mil espectadores ligaram seus televisores para assistir ao drama. Para um país do tamanho da Holanda foi um número impressionante.

Ninguém esperava, e aconteceu. Durante a exibição, um segredo bombástico é revelado. Lisa era apenas uma atriz. Os receptadores, embora necessitassem realmente de um rim, estavam conscientes da farsa televisiva. A produtora Endemol, a mesma do Big Brother, bolou a atração para conscientizar os holandeses sobre a importância da doação de órgãos e tocar a opinião pública quanto à escassez de doadores no país.

Indignados por terem sido vítimas de um trote emocional, 100 assinantes da emissora cancelaram seus contratos antes do fim da exibição. Entretanto, mais de 12.000 holandeses se inscreveram como doadores durante o espetáculo e esse número vem crescendo dia a dia.

Embora a humanidade tenha evoluído científica e culturalmente, na maioria dos países com alto padrão econômico, alguns sentimentos - como a solidariedade e o espírito de doação – minguam em proporção inversa. O que acontece na Holanda de modo específico revela-se genérico no mundo. No Brasil também são freqüentes as campanhas, promovidas pelo poder público e instituições de saúde, que alertam sobre a escassez de doadores de sangue, órgãos e tecidos. E, quase sempre, um nome sucumbe na fila de espera. Tristes telas.

A história contada de Van Gogh, como o “reality show” holandês, não precisa ser irmã gêmea da realidade. Na vida, como na arte, o simbólico vence. O que sempre me impressionou no mais eficiente dos impressionistas foi a doação da orelha. Se quem recebeu foi um amigo ou uma prostituta também é desimportante. Para mim, foi a orelha de Van Gogh que tornou inesquecíveis seus girassóis, seus campos de trigo, seus corvos, e também as tulipas e os moinhos-de-vento da Holanda. Tudo extremamente vivo.

Sobre o Autor

Pablo Morenno: Pablo Morenno nasceu em 21.05.1969, em Belmonte, SC, e mora em Passo Fundo, RS. É licenciado em Filosofia e bacharel em Direito. Também é professor de Espanhol em cursinhos pré-vestibular, músico e servidor público federal do Tribunal Regional do Trabalho/4ª Região, e pinta nas horas vagas. Escreve uma coluna semanal de crônicas no jornal O Nacional, de Passo Fundo RS, e Nossa Cidade de Marau-RS. Colabora com os jornais Zero Hora, Direito e Avesso, e com sites de leitura e literatura. É Membro da Academia Passofundense de Letras, ocupando a cadeira cujo patrono é Érico Veríssimo. Como animador cultural e escritor, participa de projetos de leitura do IEL- Instituto Estadual do Livro do RS e de eventos literários no Rio grande do Sul e Santa Catarina. Com suas palestras interdisciplinares e descontraídas, utilizando-se de histórias e da música, conversa com crianças, jovens, pais, professores e idosos sobre a importância da leitura e da arte na vida.

Livros publicados: POR QUE OS HOMENS NÃO VOAM? Crônicas, WS Editor e MENINO ESQUISITO, Poesia Infantil, WS Editor. Contato com o Autor: Pablo Morenno

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