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RESENHAS

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Devaneação

Wagner Grillo*

Primeiro Capítulo

A praça

Andou o dia inteiro como há semanas vinha fazendo; hoje o cansaço batia mais forte, certamente a fadiga acumulada das intermináveis caminhadas de sete meses. Por último, percorreria as ruas da cidade a esmo, a cabeça não aliviava, e dizendo que nunca sairia desta. Andava com a persuasão íntima de jamais chegar em nenhum lugar, porque não ia a lugar algum. Andar, andar. Vez ou outra senta por breve tempo nas repartições públicas, só para representar, e os contribuintes pensarem que o inútil estava ali com alguma finalidade. A breve mentira o deixa mais desnecessário ainda.

As pessoas enxergavam através dele, atravessavam-lhe os olhares tal flecha negra e gelada, traspassando seu ser, deixando lá, no coração, a nódoa da indiferença.

Às vezes descansava as pernas. A consciência, no entanto, pesava cem quilos por segundo. Os pensamentos relampejavam clareando o lado infeccionado do passado: de quando adolescente com vergonha dos pais, foge de casa querendo voltar rico, e nunca mais pode voltar. A empresa o dispensa, pois se torna desnecessário, dispendioso e ultrapassado. Sua mulher o expulsou de casa porque não tinha dinheiro, e necessitava colocar outro homem no lugar, mesmo porque, aluguel vence todo mês, e seus dois filhos precisam comer.

— Hoje não consigo manter meus filhos, e quando era criança tinha vergonha de meu pai que me sustentava. Será que é castigo de Deus?

Sete longos meses procurando emprego comeram o dinheiro do acerto, também as roupas e a esperança do João. Para aquele albergue dos crentes não voltaria mais, disto tinha convicção. A vida na terra era muito ruim, não precisava daqueles donos da verdade, falando no ouvido que depois da morte ia arder no fogo de enxofre do inferno, aí é carma demais para qualquer um suportar.



Senta desiludido no banco da Mauá como nunca havia sentado antes, desaba, e nunca mais levantaria. Joga a carcaça humana naquele banco de concreto cinza, enterrava a vida medíocre no jazigo público, adequado ao indigente. Daquele instante por diante, sua vida desgraçada não foi a mesma.

— Pra que continuar assim? Já não sirvo pra sociedade, não consigo manter minha família e nem ganhar o sustento pra minha própria sobrevivência, no suor do rosto desempregado não ganho o sustento de meu corpo. Recebo só cobrança, e o que sobra pra mim é desonra e humilhação. Meu Pai, meu Pai, que filho da puta que sou?



No banco em frente um indigente gesticulava sem parar, fazia veemente discurso a algum amigo ausente. Vez ou outra aponta, irado, na direção de três mendigos no canto da praça; (sim, a praça tem cantos). Quando o dedo em riste aponta para os desafetos, eles simultaneamente abaixam as cabeças e desviam os olhares, igual cães ensinados repreendidos pelo adestrador. Aquela cena se repete por duas horas, o discurso sem ouvintes seca á saliva do orador, de minuto a minuto dá o gole na boa pinga. E foi nela; na boa pinga, que João se interessou, não queria nem saber o malfeito dos cães adestrados, muito menos o teor daquela oratória difusa. Naquele fluxo de melancolia e dor, só queria o remédio e curar sua moléstia. Só queria beber álcool até afogar a consciência na embriaguez, era a forma de apagar as terríveis imagens o condenando, como o Deus mau da velha Igreja.

— Feliz é este cara, não tem nenhum passarinho pra dar de comer, sem casamento ou sogra, sem conta pra pagar. Aí está o segredo de sua alegria: não é só a pinga, é a pinga no lugar onde tá tomando: na rua; solto na rua, sem o menor compromisso com porra nenhuma.



O mendigo parecia ter morrido, o cheiro emanando do seu corpo era de carne em decomposição. João senta ao lado do cadáver, e bebe de sua pinga. O pedinte foi logo justificando por que se afastara dos outros indigentes: — Você notou como eles estão com os pés inchados? Não demora muito, não vão tá aqui bebendo cachaça. — João olha os pés de Demóstenes, e eram tão inchados como os dos outros companheiros de desgraça. — (Caracas, a única coisa que quero da minha vida é afogar a miserável sina na pinga, e ele é o dono dela, pode falar qualquer coisa, não tô nem fedendo).

— Esses panacas tão é por fora; tam’ém o nível de cultura e formação é outro, nós somos homens diferentes. Olha o Alan, o cara mija na calça todo dia, tem trinta anos e faz igualzinho menino de três. Ele fala que foi depois do cacete da peeme, mas é cascata, tava nesta praça antes do cacete, e o Alan já mijava nas calças quase toda madrugada.

João balança a cabeça concordando com tudo, o novo companheiro estava certo, em cada aceitação mais veemente dava um gole na bebida do inopioso.

— Eles ficam pra lá é porque não quero que fiquem perto de mim, eu tô cansado de levar estes manés nas costas. Os três já teriam morrido há muito tempo se não fosse por mim. Pode perguntar pra eles, se ocê não tiver acreditando. — Eu acredito meu amigo, eu juro que acredito. — Meu amigo é o caralho, eu me chamo Demóstenes e não sou seu amigo, acabo de te conhecer, mané, e não tô indo com seus cornos. Ocê foi chegando de masinho, bebe toda a minha pinga e me vem chamar de irmãozinho; irmãozinho é o caralho.

— Calma lá, Demóstenes, não te conheço nem quero ser seu irmão, mesmo porque, matei meu irmão.

João não sabia por que disse aquela besteira, mas funcionou, o indigente deixa de valentia, e fala moderado:

— Tá aí, gostei de tua sinceridade, e mais ainda, ocê pronunciou meu nome direito, os mané no outro canto me chamam de Demóstele, Demóste, Demônio, mas nunca Demóstenes.

Nesse instante João aproveita o baque de simpatia do mendigo, ou medo, não importava, e lasca outro gole corajoso e tardo na águardente do fétido falador.

— É isto aí, caro desconhecido Demóstenes, só quero agora é apagar tudo que vivi pra trás. Embriagar no fogo desta droga de cachaça e nunca mais sarar, morrer este homem que nunca serviu de nada e vê se nasce sei lá o quê, qualquer coisa será melhor. — Termina de falar e manda outro trago tão caprichado como o último.

— É, meu amigo, infelizmente lembranças não se matam nem com milhões de porres; é muito mais complicado. Mas, este sagrado líquido vai anestesiar as feridas e animar o animal bravo dentro de nós, só assim conseguimos viver nesta selva do caralho. — Filosofou Demóstenes, o mendigo.

Nisto, os discípulos impostos de Demóstenes se aproximavam de mansinho: Alan, Índio e Almirante, vinham com cara de cachorro perdido, olhares descabriados, olhando de lado como quem procura o que não perdeu.

— Ô Demóstele, ocê não vai apresentar pra nós o novo camarada?

— Novo camarada é o cacete, ocês tão querendo é beber da minha pinga, tenho certeza que a do’cês acabou. Mostra a garrafa, quero ver! — Falou o chefe Demóstenes.

— Que isso Demóstele? Ocê é como pai pra nós, mas tem hora que ocê julga a gente muito errado. Tá aqui, oh! — E mostra a garrafa a Demóstenes, como fazem os garotos propaganda em frente à câmara. O apóstolo sem doutrina fica envergonhado e permite que os discípulos assentem a seus pés.

— Esses três não merecem nem dó, os filhos da puta viviam jogados na rua igual os outros indigentes. Hoje, se quiser, pode tomar banho quente na igreja, almoço aqui na praça, roupa tem que pedir pras madames parar de trazer. Ocê acha que eles dão valor? Porra nenhuma. Sou chefe desta turma na hora que o trem desanda. — Demóste, por que ocê tá bravo com a gente? — Ele faz ar absorto de pensativo, olha o ensebado pupilo e solta: — Não me lembro por que, mas tenho certeza que ocês merecem.

Mesmo com a rigidez de Demóstenes, via-se alegria nos olhos dos três amigos saídos do castigo, e agora perto do mestre, (para quem está afundando, qualquer toco é iate).

João, bem descontraído, anestesiado com a pinga e ambientado aos novos companheiros — (cheirando bem, eles nem fedem tanto assim) — e os anfitriões, satisfeitos com a novidade na pequena sociedade dos mendigos da Mauá, afinal de contas, todos eram meio pai do neófito. E nesse estalo familial que João pega a garrafa com Alan e da o forte gole, faz aquela cara de quem está com a bílis na boca, cospe longe, em seguida joga a garrafa numa caçamba de entulhos; e ela se fez em mil. Todos olharam para ele espantados, Demóstenes atira um olhar de cólera e cisma, afinal, julgava estar olhando o assassino do próprio irmão, era a cisma, e a raiva de não poder meter a mão naquele demente. O filho da puta cuspiu o sagrado líquido filando de pedintes, Demóstenes não podia ficar calado: — Ocê é doido ou faz de doido? Seu filho de uma que ronca-e-fuça. Faz isso é porque não foi ocê que mangueou o dinheiro...

— Pára com isso, Demóstele, o Chegado veio hoje pra sarjeta, não tá acostumado com o tranco. O desastrado engasgou e por pouco morria no primeiro dia de praça. — É isto mesmo, engasguei, nunca mais vai acontecer outra vez, tenho uns dois contos no bolso, dá pra quase um litro. — Tam’ém não é o fim do mundo, pessoal, o que é meio litro de pinga, o João é gente boa e tá precisando da nossa ajuda.

O humor de Demóstenes muda quando sabe da verba no bolso de João. — Almirante! Vai naquela moita de cipreste e pega um tubo de vinho sangue de boi, eu tava guardando o mosto para uma ocasião como esta.

Almirante cumpre a ordem e sai em marcha rumo ao arbusto bem podado, e de lá, vem trazendo o vinho. Então, Demóstenes lembra a palavra da cigana: — Você vai comandar um grupo de valentes e até Almirante vai lhe obedecer. — Puta-que-me-pariu! Eu não acreditei na cigana. Tava achando que era muito pra mim que já tô velho, veja só você, esse é meu grupo e sou chefe desta matilha, puta-merda eu tô é fudido.

Sorri marotamente como é próprio das crianças e dos bebuns originais, toma posse da garrafa e dá outro largo trago, o verdadeiro trago de general. Mira no olho de João e passa-lhe o vinho, o sangue de boi, o sangue do cordeiro, sangue representando o sacrifício do novo legionário. — (Ah! O deserto! O coitado pobre não conhece nada deste deserto, na noite tudo é embaciado, e todos os malas são pardos).

Bebe do vinho, feliz como bobo, ou bêbado, entrega o néctar a Alan que bebe e sorri feliz, aproxima-se do novo companheiro e murmura: — Valeu, mano, ocê não vai perder com a gente. Nossa pinga detonô, aí o Almirante teve a brilhante idéia de mijá dentro da garrafa. Nós tava fingindo que era cachaça e ia jogando fora devagarzinho até acabar, ocê puxô o litro de vez; eu gelei, meu camarada. Mas tu és de fé, sangue bom, já tá virando cabra da rua.

Na sociedade aí fora não tem muito valor, mas aqui na rua é tudo, já que nós não temos nada, se não puder contar com o outro, com quem é que vamos contar?

— Porra, Alan, será que não dava pra vocês ter colocado água na garrafa?

Cuspia e fazia careta, repugnando o gosto salgado da urina, ainda na boca.

— O mel era amarelo. E a gente só queria mesmo era ficar perto d’ocês. De mais a mais, até rendeu o vinho do Demóstenes, o cachorro velho tem mais ossos enterrados por aí.

Sobre o Autor

Wagner Grillo: escritor mineiro

 

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