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RESENHAS

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Um poeta sem meias palavras

Ronaldo Cagiano*

O mapa poético contemporâneo, salvo raríssimas e honrosas exceções, tem deixado a desejar em sua geografia de valores. Há quase que uma repetição sistemática de tendências, escolas, ritmos e experimentações, o que reserva à poesia um estado de letargia ou inanição, rumo a uma condição de inexpressividade e caos, razão pela qual, cada dia mais nos voltamos para os ícones do passado, sejam autores das escolas tradicionais, sejam os modernistas de 22 ou a Geração de 45 -- que ainda são novidade em meio a esse cipoal de contradições criativas e tanta obviedade.

Em contraponto a essa desertificação literária, uns poucos nomes despontam como verdadeiros oásis na paisagem árida da atual produção poética. Entre eles, destaca-se Iacyr Anderson de Freitas, jovem poeta radicado em Juiz de Fora (nascido em Patrocínio do Muriaé em 22.09.63), cuja bibliografia o coloca entre as melhores vozes da recente poesia brasileira.

A negligência do eixo Rio-SP, com seus bafejos, sua política de compadrios e outras tendências excludentes, acaba por impor injusto alijamento aos que -- como Iacyr - produzem literatura de qualidade, não tendenciosa, cevada no preparo intelectual, na experiência de leituras, no profundo enraizamento no universo literário. E há muito o que se falar sobre o que de bom se produz no resto do País, aliás, há mais novidades interessantes do que se possa imaginar, mas, inevitavelmente, a reboque desse processo, e também por culpa e obra dos holofotes da ditadura estética dos grandes centros, muitas produções de alto nível acabam relegadas a edições independentes, sem distribuição, em detrimento do próprio desenvolvimento e conhecimento da literatura.

Não obstante esse cenário, Iacyr Anderson de Freitas, sem nenhum abrigo de panelinhas, ou grupelhos, vem sobressaindo nesse ambiente, apesar do sistema acachapante da mídia; impõe-se pelo valor de sua poesia, de alta voltagem estética, comprometida unicamente com a legítima recuperação da palavra, ultimamente tão aviltada pelos processos idiossincráticos de ruptura e transgressão.

Iacyr Anderson de Freitas vem construindo sua bibliografia dentro de um parâmetro que indica uma grande responsabilidade estética na condução de seus recursos criativos. Cioso de seu ofício, não repete os "ismos" de certa vanguarda afeita às massagens de ego, optando por uma volta às origens da arte poética. Seu trânsito pelas diversas linguagens da poesia ocidental revela um autor antenado com as emergências do seu tempo poético e das necessidades intelectuais modernas, sem, contudo, desprezar as conquistas estéticas do passado. Percebe-se em seu percurso literário um diálogo com essas diversas vertentes e tendências.

Do soneto ao verso livre, Iacyr demonstra profunda intimidade com a linguagem e uma busca permanente na qualidade de seu trabalho, que pode ser aferida na sua composição, que pugna pela contenção, pelas aparas, pelo estilete sempre empunhado para dar à forma a sua verdadeira lapidação, abstraindo-se dos excessos, das gorduras, fazendo-nos sentir em seus versos a virtude da depuração -- algo muito raro nos poetas de hoje, que criam um corpo poético sem vísceras, sem nervura, sem amálgama ou coluna dorsal. Quando muitos nos deixam uma poética invertebrada, sem ter muito o que dizer, senão um exercício titubeante e deficitário de palavras a esmo, Iacyr restaura a palavra poética, para recuperar sua essência e revelar seu alto teor comunicativo. É uma poesia na medida certa, sem meias-palavras.

Ao lançar A soleira e o século, em caprichada edição da Nankim Editorial (e chancela da Funalfa/ Lei Murilo Mendes), Iacyr mapeia sua produção reunindo livros anteriores e novas construções. Autor de "Verso e palavra", "Lázaro", "Sísifo no espelho", "Exercício estrangeiro", "Mirante", "Oceano coligido", o poeta inclui nesta antologia pessoal os inéditos "A poética do escasso", "Toda a gente", "Terra além" e "O ocaso de junho". São livros que panoramizam uma riquíssima produção, que traz muito de da mineiridade, mas com a marca essencial do universalismo, aquele saudável cantar provincial, sobre o qual nos revela Tolstói ser a porta de entrada para a compreensão da nossa relação com o cosmos.

Iacyr, artesão meticuloso, tece uma poética híbrida, que canta sua terra e decanta o lirismo das pequenas coisas, com um enfoque memorialístico, que transcende o mero registro cronológico dos fatos, par alcançar a necessária reflexão do universo psicológico de nossa ancestralidade, sem o que nenhum autor poderá sentir-se apaziguado com sua condição, porque é necessário esse sopro de humanidade, em que a passagem do tempo, o fluxo de consciência e as invocações coletivas funcionam como verdadeira catarse existencial.

Iacyr é um poeta de agora, mas com raízes projetadas no amanhã. É dessa literatura que carecemos. Felizmente ela existe, pois ainda há poetas no Brasil. E, sem dúvida, é a que vai ficar.

Sobre o Autor

Ronaldo Cagiano: De Cataguases, cidade mineira berço de tradições culturais e importantes movimentos estéticos, surgiu Ronaldo Cagiano. É funcionário da CAIXA. Colabora em diversos jornais do Brasil e exterior, publicando artigos, ensaios, crítica literária, poesia e contos, tendo sido premiado em alguns certames literários. Participa de diversas antologias nacionais e estrangeiras. Publica resenhas no Jornal da Tarde (SP), Hoje em Dia (BH), Jornal de Brasília e Correio Braziliense, dentre outros. Tem poemas publicados na revista CULT e em outros suplementos. Obteve 1º lugar no concurso "Bolsa Brasília de Produção Literária 2001" com o livro de contos "Dezembro indigesto”.

Organizou também várias antologias, entre elas: Poetas Mineiros em Brasília e Antologia do Conto Brasiliense.

 

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