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Minha Pátria é a Língua Portuguesa

Antônio Ribeiro de Almeida*

Bernardo Soares, um dos heterônimos de Fernando Pessoa (1888-1935), escreveu a frase título deste artigo, no seu "Livro do Desassossego". Ela tem corrido mundo quando se trata de exaltar a nossa língua e mostrar a sua riqueza e poder em relação às outras línguas. Permito-me transcrever a passagem em que esta frase é citada.

Escreveu Pessoa: "Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro.... a página mal escrita, a sintaxe errada.... Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha."

Na continuidade desse texto, Pessoa revela a grande emoção que se apossou dele quando, ainda adolescente, leu um dos sermões do Pe. Antonio Vieira que o fez feliz "... como nenhuma felicidade real me fará chorar." Pessoa é, sem dúvida nenhuma, um grande exemplo de amor à língua portuguesa como raramente se vê no Brasil de hoje. Se me fosse dada alguma autoridade no Ministério da Educação eu colocaria, no nível médio, como estudo obrigatório dos alunos, alguns textos de Fernando Pessoa na esperança que os adolescentes fossem despertados para este amor à nossa língua.

A língua portuguesa, no Brasil, experimentou na última década do século passado, avanços significativos e que revelam que ela está deixando de ser "inculta e bela". Tivemos a publicação do Dicionário Houaiss, hoje, sem dúvida, o mais completo dicionário de português que temos. Do seu lado, a Academia Brasileira de Letras (ABL), editou o seu "Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa" que registra 356 mil palavras ou seja 127 mil e 500 a mais do que o dicionário do Houaiss.

Arnaldo Niskier, o acadêmico que prefaciou a terceira edição do Vocabulário, lamenta que a existência de duas ortografias oficiais da nossa língua, a lusitana e a brasileira, é largamente prejudicial à "... unidade intercontinental do português e para o seu prestígio no mundo". (p.xxv). Ao mesmo tempo é cansativa a leitura das comissões que se sucederam, entre Portugal e Brasil, desde 1931, quando foi aprovado o primeiro acordo ortográfico entre Portugal e Brasil. Outras comissões vieram, mais propostas e discussões, mas, infelizmente, a unificação ortográfica luso-brasileira ainda não saiu.

Desta forma é compreensível que o escritor José Saramago, que teve a sua "História do Cerco de Lisboa" publicado em 2003 pelo jornal "Folha de São Paulo" , tenha exigido que a publicação seguisse a ortografia portuguesa. Sobre o Vocabulário cabe dizer que ele incorpora à nossa língua palavras que entraram no quotidiano do brasileiro devido às inovações científicas e tecnológicas. Na área da computação eu registrei que foram incorporadas palavras da informática como : "backup, bat, breakbug,byte, etc." como substantivos e registrada a origem inglesa.

Na edição do seu Vocabulário a ABL cometeu um erro fundamental ao entregar a uma editora desconhecida a impressão e distribuição do mesmo. A ABL tem o site (palavra incorporada) www.academia.org.br que é de uma inoperância total.

Durante um ano tentei aciona-lo para adquirir o Vocabulário. Tudo em vão. Por intermédio de uma irmã, que reside no Rio de Janeiro, é que consegui comprar o tão desejado Vocabulário que não estava à venda nas grandes livrarias. Devido a este erro de marketing (também incorporada) o Vocabulário dificilmente estará nos ginásios,nas faculdades, nos escritório de advocacia ou nas redações dos jornais de todo o país como seria desejável.

Quem sabe que neste século que se inicia, Portugal e Brasil saiam do plano das intenções e que a tão esperada unidade ortográfica, que o grande Machado de Assis já desejava no século XIX, venha a se concretizar.



O Vocabulário Ortográfico virtual contém os verbetes, as classificações gramaticais e outras informações. No site institucional da Academia Brasileira de Letras. Clique aqui.




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Sobre o Autor

Antônio Ribeiro de Almeida: Jornalista e escritor de São José do Rio Preto/SP.

Doutor em Psicologia Social, FFCLRP-USP



 

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