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Acaso, Ciência e Filosofia
por André Carlos Salzano Masini
*
publicado em 09/07/2003.
Para desfazer qualquer mal entendido, é importante deixar claro que essa é uma suposição metafísica. Quando refletimos sobre ela, estamos navegando em mares muito além do horizonte da ciência e irremediavelmente afastados desta. É uma suposição que não pode ser confirmada, nem refutada pela ciência, nem tampouco examinada por métodos científicos.
Estar "fora" da ciência pode hoje parecer algo desabonador. Mas isso é uma distorção da época que vivemos, em que Ciência parece algo onipotente – tal qual Igreja na Idade Média – e estar fora dela soa como excomunhão, como estar perdido para este mundo e para qualquer outro.
Mas essa tendência ao domínio absoluto da ciência é relativamente nova. Iniciou-se no século XVII com a publicação do livro Principia de Newton (1687), que conseguiu explicar o funcionamento do sistema solar a partir de leis físicas (as três leis do movimento). A idéia de ter alcançado "os céus" e explicado os fenômenos astronômicos que desde a antigüidade perturbavam a humanidade causou tal impressão na cabeça das pessoas, que a ciência começou a ganhar conotações míticas.
A partir daí – da mesma forma como antes os teólogos católicos haviam errado ao impor sua teologia à ciência – foram os cientistas e filósofos que passaram a errar ao não enxergar os limites dos métodos científicos. Essa tendência atingiu seu ápice em meados do século XIX, quando certos filósofos pretenderam aplicar "métodos científicos" à filosofia, e através desses supostos "métodos científicos" quiseram descartar toda a filosofia jamais produzida, e substituí-la toda por sua própria forma monolítica de entender o mundo. Foi o "fim da filosofia": a maior catástrofe da história do pensamento humano, a ditadura de idéias filosóficas autoritárias travestidas de ciência.
Essas idéias impregnaram o século XX e nos influenciam até hoje. Por isso às vezes nos parece que em nosso mundo não há mais lugar para filosofia, ou que este lugar teria sido ocupado pela ciência. Mas, se sacudirmos um pouco o ranço cientificista e a arrogância filosófica do século XIX, poderemos voltar a enxergar algumas distinções: Cabe à ciência lidar com as questões mais tangíveis, como os fenômenos do mundo físico que podemos perceber e medir (experimentar) sistematicamente com nossos sentidos (mesmo que através de instrumentos). Cabe à filosofia lidar com questões menos tangíveis ou que estão além da possibilidade de experimentação sistemática, e.g. a ética, a lógica, a estética, o estudo do próprio conhecimento humano e seus limites (epistemologia); e a metafísica.
Claro que a fronteira não é nítida nem estanque. Muitos temas que foram filosofia no passado, hoje são ciência. Um exemplo disso foi a discussão da natureza da matéria pelos filósofos pré-socráticos – como pode um carneiro comer grama e crescer, se ele é constituído de carne e ossos? Como pode ele ao morrer transformar-se em pó? Seriam todas as coisas constituídas na verdade por uma substância única? – discussão que hoje foi plenamente absorvida pela química.
Por fim, voltando a nosso tema das razões por detrás do acaso, podemos agora entender que ele está muito distante da ciência, mas que não há nenhum demérito nisso.
Metafísica é o ramo da filosofia que busca a realidade última das coisas, a realidade que existe por detrás de todas as aparências, por detrás daquilo que podemos perceber com nossos sentidos. Mas, mesmo entre os filósofos, ela tem alguns críticos; que consideram a tentativa de conhecer essa "realidade inacessível aos sentidos" como perda de tempo, devaneio ou até charlatanismo.
Assim caberá apenas ao leitor ou leitora decidir se vale ou não a pena dedicar alguns pensamentos à suposta existência de alguma razão por detrás do acaso.
Metafísicas à parte, o acaso também é assunto para a ciência e para outros ramos da filosofia. Tenho certeza que o leitor ou leitora ficará surpreso ao ouvir o que a ciência tem a dizer a respeito... na próxima semana.
(Ilustração: Carlo Carra - Piazza metafisica, 1918, Matita su carta, cm 30,7 x 30,5)