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O horror peculiar do pai espiritual de Stephen King

por Chico Lopes *
publicado em 12/05/2008.

Encontrei "O caso de Charles Dexter Ward", de H.P Lovecraft, num desses stands que trazem livros de bolso a preços simpáticos da L&PM, e não hesitei em adquirir.

Tenho uma relação de admiração e algum "pé atrás" com esse escritor. Conheci-o de duas coletâneas de contos lançadas nos anos 80/90 pela editora Francisco Alves ,"Um sussurro nas trevas" e "A casa das bruxas". Devem ser itens de sebo, hoje em dia, mas recomendo vigorosamente "Um sussurro nas trevas", coletânea que traz realmente o melhor de Lovecraft, contos bem mais curtos que o habitual dele e que, por mais curtos, são mais densos e sugestivos e acertam melhor na criação de atmosferas.

Jorge Luis Borges teve certo interesse por Lovecraft, mas dá para entender que deve ter achado aquelas narrativas repletas de documentos apócrifos e referindo-se a entidades, culturas, povos e raças que teriam existido na Terra antes da presença do Homem, afinadas com suas obsessões.

Também teria dito que ele o interessava por ser quase uma paródia de Edgar Allan Poe. Os excessos românticos de Poe são freados por um racionalismo e um cálculo na composição, mas Lovecraft é mais desatado e delirante e quase hilariante, de vez em quando: seu estilo, repleto de adjetivos, superlativos e coisas indefiníveis, cultos, entidades e evocações com letras maiúsculas, presta-se facilmente à imitação e ao deboche, e nisso Borges estava certo.

Não é de estranhar que Lovecraf seja tão imitado por seu discípulo mais conhecido, e mais bem sucedido editorialmente: o escritor Stephen King.

O INDIZÍVEL E O LASTRO PURITANO

Lovecraft quer nos falar do Indizível (pronto, sucumbi à sua mania de maiúsculas...), de coisas que, de tão terríveis, só podem existir como alusão, como vagueza, já que a sua realidade, ao ser definida, tende a enlouquecer definitivamente quem as encara.

Ele é um poço de medos puritanos e ancestrais - foi em vida um homem muito fechado e misterioso, segundo alguns dados biográficos, contista cultuado num círculo pequeno, que escrevia pilhas e pilhas de cartas. Tem todas as características do puritano da Nova Inglaterra com muito, muito medo de sexo, e isso deve explicar em grande parte a profusão de bruxas, sujeitos que vão a cemitérios fuçar em túmulos à procura de segredos perdidos (e, claro, se dão muito mal), cultos que parecem sabás sexualmente animados aos quais alude com pudor e temor, pois, claro, as orgias imaginadas deviam lhe excitar a imaginação, e ele as transformava facilmente em coisas diabólicas e muito mais que ameaçadoras ( é a velha associação entre Sexo e Morte, Desejo e Repulsa - Lovecraft é prato feito, até mesmo ingênuo, para quem quiser pinçar em sua obra provas do ABC freudiano). Seria necessário, aliás, que alguém fizesse (se já não o fez) um estudo de sua obra relacionado à sexualidade reprimida - a impressão que se tem é que o homem era uma verdadeira usina imaginativa de projeções, trocas e sublimações.

Adjetivado demais, o estilo de Lovecraft tem ainda assim uma qualidade hipnótica, mas, ao se tomar consciência precisa dos artifícios de que ele faz uso reiterado e até abusivo, o leitor pode recuar. As coisas são evocadas de maneira muito indireta, com superlativos e pompa estilística anacrônica, e Lovecraft faz muito uso de uma sucessão de qualificações que acabam por sugerir além da conta e provocar um excesso de irrealidade. Parece, aliás, ser esta a sua intenção, mas, quando a irrealidade é demais, o leitor perde o pé e se põe a refletir, o que pode ser fatal para a assimilação daquelas coisas. Digamos que, para funcionar bem, o autor de terror como ele precisa do leitor ingênuo, do leitor disposto a uma "suspension of disbelief" bem aguda. E é esse tipo de leitor que Lovecraft, por tabela associado a King, acaba conseguindo.

Porque o terreno por onde Lovecraft andou tornou-se clichê, devido aos livros de King e epígonos e principalmente devido aos filmes de terror. Documentos estranhos de personalidades obscuramente envolvidas em cultos diabólicos (é quase fatal usar estes adjetivos, em se falando de Lovecraft), fórmulas mágicas perdidas no tempo e no espaço, invocações de demônios nebulosos, ruínas, ruídos estranhos, o vento nas cortinas, ratos, animais indefiníveis que rastejam em torno de casarões prestes a ser demolidos, fantasmas que se insinuam, gargalhadas, noites de tempestade, cientistas envolvidos com experiências heréticas, sombras, noite, solidão, sujeitos mórbidos que se ocupam demais de devaneios insalubres e rondam cemitérios, está tudo lá, e quem é que não se cansou de ver isso?

Aparentemente, os adolescentes e os leitores mais complacentes não se cansam, porque King ficou milionário foi com esse filão, que continua sendo explorado editorialmente com lucros nos EUA. King modernizou as taras de Lovecraft, por assim dizer, incluindo mais tecnologia e apelando diretamente para recursos mais vulgares e atualizados. Por vezes, os livros de King, a quem não se pode negar talento criativo e imaginação, parecem uma espécie de gibi de horror popular que, descaradamente, foi transformado num volume de 500 ou 600 páginas onde as puerilidades e sustos foram levados para lá da hipérbole. Lovecraft, claro, a gente supõe que era mais inocente, mais envolvido pessoal e freudianamente com seus fantasmas do que King, comerciante astuto.

Os melhores contos de Lovecraft, para mim, estão mesmo em "Um sussurro nas trevas", e dois deles são antológicos, exemplares: "A cor que caiu do céu", onde a mania de Lovecraft de nada definir, de sugerir horrores indescritíveis vindos de partes obscuras do universo, se traduz numa certa cor que cai num poço, numa determinada noite, causando mudanças numa região toda, e atraindo as pessoas para olhar para a água ao fundo. Mas aí tudo funciona à perfeição, porque nada dizer, tudo sugerir, é o que torna o conto eficiente e consumado em sua proposta.

O outro conto é "Vento frio", curto, com uma tensão e uma eficácia indiscutíveis, onde o autor fala de certo homem idoso, um refinado espanhol que se tranca num quarto de hotel de onde raramente sai e onde, ao entrar, certo personagem será acolhido por uma brisa gelada. É um feito extraordinário, esse conto, porque a atmosfera é criada sem a necessidade de tantos adjetivos e o desfecho é de uma lógica implacável, fazendo com que o leitor se arrepie de fato.

E a prova de que Lovecraft devia ter depurado seu estilo e escrito contos mais curtos se dá em "O caso de Charles Dexter Ward", que, em 208 páginas, conta o que houve com um adolescente que, mergulhando no estudo de um antepassado excêntrico (era, na verdade, um bruxo), enlouquecerá.

Isso é só resumo de uma narrativa que avança penosamente, exasperando pelo seu excesso de personagens e de detalhes, e o pior é que as doses de convencionalismo (o gênero terror é percorrido sempre por um certo moralismo raso, que faz com que tudo que é diferente seja drasticamente punido) são elevadas, tornando o final previsível. Nesse livro, Lovecraft parece ter sucumbido à sua própria fórmula. Está tudo lá, mas não funciona tão bem quanto em outras vezes. Estamos tão habituados a tudo que espanta e assombra Charles Dexter Ward que o achamos, na verdade, um bobinho. E os terrores literários de Lovecraft, em que pesem todas as evocações soturnas, "transcendentais" e infinitamente sugestivas de medo que querem ter, nos parecem, ao fim, mais excêntricos e patéticos do que medonhos.

Na verdade, esses terrores todos são fichinhas perto da realidade que nos cerca. Por isso livros e filmes de terror, mesmo os mais clássicos e respeitáveis, nos parecem de uma enorme tolice, de vez em quando. Parecem apenas exorcizar pateticamente outros medos bem mais ocultos e ameaçadores.

Os viciados em King consomem essas coisas por prezarem mais as sensações que as idéias, como numa grande montanha russa, que os filmes comerciais não cessam de lhes dar. É por isso que o gênero se encontra tão esvaziado e renová-lo parece muito difícil.



Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

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