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ESCRITOR INTERROMPIDO

por Miguel Sanches Neto *
publicado em 17/01/2006.

Nenhum escritor brasileiro com tão poucas páginas conheceu o prestígio que Raduan Nassar granjeou com apenas duas novelas e cinco contos, aos quais foi agregada uma retumbante recusa da carreira literária. A obra de Raduan é composta, portanto, por seus três magros livros e pelo personagem que ele criou. E as duas instâncias, a obra escrita e a obra vivida, ocupam lugar de destaque em nossa cultura.

Espécie de eremita, ele se afastou da cidade de São Paulo e de seus valores cosmopolitas para afirmar um vínculo matinal com o campo, com o lugarejo interiorano e com os seus personagens. Assim, a recusa da literatura vem acompanhada pela recusa da cidade grande e seus signos. Diz Raduan numa entrevista: “sempre me mantive a distância de toda especulação teorizante ou programática, sobretudo por uma questão de assepsia, quer dizer, para preservar alguma individualidade da minha voz”. Na mesma entrevista, ele propõe um afastamento ainda maior entre o escritor e as questões teóricas: “com a folha de teoria a gente faz uma bolinha e manda longe com um piparote”. O personagem se aproxima assim da imagem de Cristo expulsando os vendilhões do templo, mas que prefere sufocar a discussão a manter um exercício literário desmistificador.

Numa tradição extremamente urbana e obcecada pelo papel intelectual do escritor, face mais visível na cultura paulista e em suas filiais ainda hoje, Raduan afirma a relação densa com o meio rural. Uma das suas declarações mais bombásticas foi proferida quando interrompeu sua obra após grande reconhecimento crítico, declaração que deve ser lida com a sua apimentada semente de deboche: “agora vou me dedicar à criação; não à criação literária, mas à criação de galinha” [cito de memória]. Nas últimas três décadas, ele se dedicou a esta e outras artes rurais, escrevendo apenas um conto novo (Mãozinhas de seda, 1996), reflexão sobre a impossibilidade de desmascarar os intelectuais e suas fatuidades. Ele poderia repetir um dos silogismos da amargura de Cioran, que também foi um filósofo da desistência: “O intelectual representa a maior desgraça, o fracasso culminante do homo sapiens”. Ao invés de apontar os impostores, Raduan prefere a sugestão irônica, num texto que acaba em rendição: “custou mas cheguei lá, sou finalmente um diplomata”. Ficam valendo a obra anterior e o silêncio que a sucedeu.

Também a sua obra é uma recusa do ideário modernizante que nutriu as ilusões do século 20. As suas duas novelas se complementam de forma perfeita. André, narrador de Lavoura arcaica, afasta-se da família interiorana e religiosa para experimentar o mundo, cuja função é curá-lo de um amor incestuoso, mas incontornável. No seu exílio no quarto de pensão da grande cidade, ele continua preso à casa paterna e à impossibilidade de herdá-la segundo os valores ancestrais. Ao ser resgatado pelo irmão mais velho, ele verbaliza seu drama, dando voltas analíticas em torno de seu incômodo por pertencer e não pertencer ao mundo familiar. Seu discurso é sinuoso, aparentado da poesia e dos versículos bíblicos, pois ele não nomeia claramente os sentimentos, que são turvos. No final, quando o mais velho está convencendo André a retornar, aquele diz: “seja simples no uso da palavra” — um pedido para que reconquiste a essência do mundo original. Mas ele volta como emissário da luxúria, desencadeando a inevitável tragédia.

André não se sente confortável na casa de seus familiares, por isso tenta fugir. Já o narrador de Um copo de cólera não se sente confortável na cidade, que ele conheceu num período de ditadura, e faz a volta para o campo, instalando-se em uma chácara, espécie de meio caminho entre a arcaica vida agrícola e a nova e insatisfatória existência urbana. O embate desta outra novela se dá entre o homem em processo de animalização, de retorno a um modelo rural, e a mulher frágil, representante da cidade. O narrador é uma espécie de “imenso feto” tentando achar o caminho para o útero de seu universo inaugural.

Fuga da casa na primeira novela. Tentativa de volta na segunda. A obra de Raduan Nassar ocupa este entre-espaço. Está na divisa do mundo rural e do urbano, da poesia e da prosa, do verbo e do silêncio, da vidência e do artesanato, num tributo ao poder encantador da palavra, ao seu valor poético-demiúrgico.

Para tentar entender o lugar de Raduan na literatura brasileira é preciso primeiro pensá-lo dentro da tradição paulista. Num estado em que os produtos intelectuais se sobrepõem aos literários, Raduan não descende de nenhuma das revoltas de vanguarda, de nenhum estilo urbano, dos muitos que o estado produziu. Ele me parece mais próximo de Monteiro Lobato, este ancestral poderoso, que sentiu o conflito dos dois chamados — o da roça e o do mundo. Cada um dando respostas diferentes, um combatendo até os últimos momentos, outro fazendo da rendição resistência, Lobato e Raduan são os mais densos produtos ficcionais produzidos em São Paulo no século 20.

Sobre o Autor

Miguel Sanches Neto: Escritor paranaense e crítico literário, assinando coluna semanal no maior diário do Paraná, a Gazeta Povo (Curitiba), tendo publicado só neste jornal mais de 350 artigos sobre literatura, fora as contribuições para outros veículos, como República e Bravo!, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde (São Paulo) e Poesia Sempre e Jornal do Brasil (Rio de Janeiro).

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