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O enigma do guerreiro-agricultor

por Amós Oz *
publicado em 07/01/2006.

Ariel Sharon passou grande parte da vida como um soldado-agricultor, a exemplo dos juízes da Israel do Velho Testamento.
Defendeu sua cidade de predadores e agressores, caçou inimigos, conquistou e destruiu as cidades deles, construiu novas, cuidou das velhas, voltou a seguir e combater os inimigos e assim por diante, como num círculo vicioso.

Depois, começaram os conflitos armados entre os pastores, que evoluiu, com o passar dos anos, para grandes batalhas com milhares de tanques de ambos os lados. Ainda assim, o homem Sharon continuou sendo o mesmo durante a Guerra da Independência de Israel, 1948, o conflito do Yom Kippur, de 1973, a Guerra do Líbano, de 1982, e o plano de construção de assentamentos. Durante sua vida, da infância até a velhice, ele sustentou que aquilo que não podia ser conseguido pela força podia ser conseguido com o uso de força extra. Ele sustentou que nós, israelenses, podemos criar cada vez mais fatos concretos, que os árabes terão que engolir isso e o mundo acabará aceitando.

Ele era o homem dos músculos. Lembramos dele com o curativo manchado de sangue na cabeça, no Canal de Suez, quando ameaçou soltar a ira das legiões contra os políticos se eles ousassem fazer a mínima concessão aos árabes.

Lembramos dele também em Beirute, durante a incansável cruzada no Líbano para tentar instalar pela força uma nova ordem no velho Oriente Médio.

E lembramos dele instalando centenas de assentamentos e colocando centenas de milhares de colonos judeus na Cisjordânia, na Faixa de Gaza, no Sinai, nas Colinas do Golan. Era sempre Sharon, o homem dos músculos.

Durante todas essas décadas, eu não gostava dele. Para mim, Sharon simbolizava tudo que eu menos gostava no meu país: uma arrogância violenta, uma mistura de brutalidade e auto-piedade, uma ambição insaciável pela terra e um discurso religioso místico que, vindo de um soldado leigo e hedonista, sempre me surpreendeu pela hipocrisia. Não havia outro indivíduo que personificasse tão bem a intoxicação de tantos israelenses com o poder da força.

Nunca me encontrei pessoalmente com Sharon. Nunca estive na mesma sala que ele. As pessoas dizem que, em ambientes mais restritos, Sharon é um homem caloroso, generoso e divertido. As pessoas dizem que ele é charmoso, com um senso de humor vivo, um amante de boa comida e do conforto.

Sempre me recusei a ser influenciado por esse tipo de impressão. Eu o detestava por ser um inimigo da paz.

E, então, dois anos atrás uma mudança repentina aconteceu. Uma metamorfose misteriosa. A retórica de Sharon mudou do dia para a noite.

Primeiro, o vocabulário começou a soar como o de seus rivais. Como se ele tivesse passado a falar outra língua repentinamente.

Quando Sharon disse pela primeira vez, cerca de dois anos atrás, que a ocupação era um desastre não só para os os ocupados, mas também para os ocupantes, não pude acreditar no que estava ouvindo. Quando ele começou a falar sobre dois Estados para duas nações, pensei que ele estivesse brincando. Quando mencionou pela primeira vez os direitos dos palestinos, achei que estava fazendo humor com as palavras de ordem do Movimento pela Paz. E quando ele anunciou que ia retirar os colonos judeus e o Exército israelense de Gaza, achei que não passasse de uma estratégia.

No entanto, Sharon fez tudo isso. Os israelenses o chamaram de "buldôzerquando ele instalou assentamentos. E de fato, agiu como um buldôzer quando os erradicou. A retirada dos colonos israelenses de Gaza foi uma operação militar. Sharon atropelou os colonos em Gaza com o mesmo estilo blitzkrieg com o qual ele venceu suas muitas guerras. Nem uma única construção nesses assentamentos foi deixada intacta.

No entanto, o que ele construiu em 35 anos teve apenas 2 anos para começar a desfazer. Todos os assentamentos na Cisjordânia e nas Colinas do Golan continuam sendo monumentos do velho Sharon. Ele vai nos deixar e levará consigo as respostas para dois grandes mistérios: por que, no outono da vida, ele repentinamente se converteu tão radicalmente, e o que mais ele faria na direção da paz e da reconciliação?

Uma coisa, no entanto, Sharon nunca conseguiu fazer, nem mesmo quando concretizou a saída de Gaza até o último centímetro. Ele nunca se sentou de verdade com os palestinos para tentar conversar com eles do jeito que um vizinho fala com outro. Nem do jeito que um mafioso senta com outro depois de uma longa disputa. Ariel Sharon está nos deixando no momento em que sinalizava: "Entendo meus erros. Finalmente, tentei remediá-los, mas a vida é muito curta."

Sobre o Autor

Amós Oz: Nasceu em Jerusalém, em 1939. Considerado um dos melhores escritores israelenses da atualidade, já foi traduzido para mais de 22 línguas. Atualmente mora em Arad, no deserto de Neguev, dedicando-se à militância em favor da paz entre árabes e israelenses e ao curso de literatura hebraica que leciona na Universidade Ben-Gurion.

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