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Entrevista - ROSÂNGELA VIEIRA ROCHA

por Vivaldo Lima Trindade *
publicado em 20/09/2005.

ROSÂNGELA VIEIRA ROCHA tem olhos misteriosos de uma femme fatale, há quem diga, sem nenhuma referência à música de Caetano, olhos de Clarice. Saibamos viver também sem estigmatizações. Há confluências e afastamentos bem delineados. Mineira, mora em Brasília desde 1968. Apesar de formada em jornalismo, não exerce a profissão, escolheu lecionar e escrever. O resultado: dois prêmios no bolso. E três publicações. O primeiro, belíssimo, Véspera de Lua (Editora UFMG, 1998), esgotou-se rapidamente e virou objeto de desejo dos amantes de ficção. O segundo, Rio das Pedras (Bolsa Brasília de Produção Literária, 2001), quase um acerto de contas, uma rasura na origem. Integrou ainda as antologias Antologia do Conto Brasiliense (Varandas, 2004), organizada por Ronaldo Cagiano, e Mais trinta mulheres que estão fazendo a nova literatura (Record, 2005). Agora, nos traz PUPILAS OVAIS (Editora LGE, www.lgeeditora.com.br, 2005), contos sinuosos, perfilados de costumes, dor, lirismo e algumas gotas de veneno, pois literatura não se faz de bons sentimentos.

Vivaldo Trindade - Você vem transitado com muita fluidez por formas distintas da prosa, começou com o romance, passou pela novela e agora publica um livro de contos. Esse foi um percurso planejado? Seria uma busca pela condensação, o almejado "dizer mais com menos"?

Rosângela Vieira Rocha - Não, eu não planejei nada. Apenas me senti estimulada a escrever contos, depois de receber o convite do Ronaldo Cagiano para participar da Antologia do Conto Brasiliense. Não tinha prática nesse gênero, que julgo especialmente difícil, do ponto de vista técnico. Comecei a escrever e me apaixonei, as idéias vinham-me aos borbotões, histórias novas surgiam a todo momento. Senti que uma alavanca havia sido puxada e tive de fazer força para controlar esse movimento, durante a escritura de "Pupilas Ovais".

VT - Um dos aspectos fortes de sua literatura está na exploração das múltiplas possibilidades da vivência feminina. Em que "Pupilas Ovais" mais se diferencia dos seus outros livros? De que maneira a mulher aparece representada nele?

RVR - Não vejo diferenças fundamentais entre as mulheres retratadas nos dois primeiros livros e as personagens de "Pupilas Ovais". Ao contrário, creio que existe um fio condutor, que liga todas elas. Como pano de fundo em todas essas histórias, eu poderia dizer que há um confronto entre a realidade e o sonho, entre a busca pelo que se deseja e, em quase todos os casos, a impossibilidade de se alcançá-lo. Refiro-me à impossibilidade de concretizar o sonho em sua totalidade e sem concessões, é claro. Não acho que possamos generalizar e falar em "mulher", como se existisse um modelo. Minhas personagens representam mulheres, mulheres possíveis, prováveis, que a gente encontra todos os dias.

VT - Sinto que você está mais impiedosa com seus personagens, que está trabalhando o cômico de uma maneira muito sutil e elaborada. A que se deve isso? Qual o encanto do desencanto? É uma interpretação da realidade ou uma crítica?

RVR - Não acredito que esteja mais impiedosa com minhas personagens. É um adjetivo muito forte. Ocorre que tanto "Rio das Pedras" quanto "Véspera de Lua" foram escritos há quase duas décadas. É natural que eu tenha amadurecido durante esse tempo, que a minha visão de mundo tenha sofrido modificações e que os contos de "Pupilas Ovais" retratem isso. Quanto ao senso de humor, um leitor atento pode percebê-lo em tudo que escrevi. Não um humor escrachado, é claro, mas um humor mineiro, meio contido. O encanto do desencanto está nesse movimento de encantar-se, desencantar-se e voltar ao encanto, em outro momento, que é incessante na vida de todos. Sem um pouco de fantasia a vida seria impossível. O problema está na dosagem, a meu ver. Minhas personagens vivem errando na dose, como nós mesmos, em nossas vidas.

VT - No conto homônimo ao livro, há um componente simbólico e de re-interpretação do mito da criação bíblica? Qual o espaço do sagrado na sua ficção?

RVR - Não creio que o sagrado ocupe grande espaço na minha ficção. Em se tratando de sedução, contudo, é impossível que não sejamos de alguma maneira contaminados por Adão e Eva, pois é um tema arquetípico e, como os estudiosos de Jung gostam de dizer, não se pode fugir do arquétipo. Ele está em toda parte e é muito forte. "Pupilas Ovais", o conto que dá nome ao livro, é uma espécie de brincadeira séria, digamos. Brinco com os nomes das personagens, por exemplo: Morgana e Lírio, como os próprios nomes indicam, formam um casal improvável. Nesse conto utilizo temas batidos, recorrentes, clichês, e o humor foi o caminho encontrado para obter a verossimilhança, se é que existe.

VT - Em que medida o biográfico e o ficcional se constroem em seu texto, há uma fronteira nítida que separa a escritora da pessoa Rosângela?

RVR - Não acredito em fronteiras nítidas entre o escritor e o que ele escreve. No entanto, acredito que, quanto mais se escreve, quanto mais o escritor amadurece, mais distanciado fica de sua própria experiência, tornando-se mais capaz de mergulhar em realidades diferentes da sua. É natural que seja assim: primeiro olhamos para nós mesmos e depois para o outro. A segurança que o escritor vai alcançando no seu ofício é que lhe dá essa desenvoltura, esse distanciamento. É claro que se trata de um distanciamento muito peculiar, que não é propriamente um distanciamento, mas uma capacidade de vivenciar a dor de suas personagens sem senti-la na carne. Fernando Pessoa, que além de poeta genial foi um sábio, grande conhecedor da alma humana, já dizia isso no verso famoso "O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente".

VT - Nesse sentido, seria o escritor como um ator, se reinventando enquanto se escreve?

RVR - Creio que ambos os ofícios têm algo em comum, embora, no caso do ator, ele realmente tente ser um outro, o que nem sempre consegue. Os atores que são sempre eles mesmos, independente do papel que estão desempenhando não são bons atores. No caso dos escritores, somos nós mesmos e o outro, o outro que inventamos, juntos. Não dá para separar. Reconheço que essa comparação é perigosa, até por que no processo de representação o ator enfrenta uma série de variáveis, como, por exemplo, o autor do texto, o diretor da peça ou filme, enfim, seu trabalho é permeado de outros olhares, de várias interpretações. Em seu processo de criação, o escritor parece-me mais solitário que o ator.

VT - Qual o seu processo criativo?

RVR - É muito variado. Às vezes crio uma história a partir de uma cena vivida ou vista, de uma imagem, ou até mesmo de uma frase. Sensações também podem me trazer uma história. Em geral essa gestação leva um tempo, também variável. Só depois, em um momento que não sei precisar, é que me sento para escrever. Em geral, nunca sei bem o que vai sair, é sempre uma surpresa. O processo de criação de um conto é um pouco diferente, permeado de forte tensão, pois a história tem de estar pronta na cabeça. É uma exigência do gênero. Por sua concisão, errar na alquimia do conto é algo mais complicado do que no romance ou novela, pois nesses últimos o autor tem tempo de consertar, sem inutilizar todo o resto.

VT - Você é uma mulher que ainda acredita em utopias? Fale um pouco da sua compreensão da literatura.

RVR - Creio que a literatura é uma maneira de transcender a banalidade do cotidiano, de ir mais além, de tentar compreender o mundo. A meu ver, não lhe cabe dizer verdades eternas, verdades que salvam. A literatura não salva nada, pois salvação não existe. Seu papel, como o das demais formas de arte, é tornar o mundo um lugar mais bonito, ou pelo menos mais possível de ser suportado. Sobretudo, um lugar mais rico, pleno de possibilidades, povoado de múltiplos olhares, aptos a oferecer uma visão mais complexa, multifacetada e ao mesmo tempo mais delicada das coisas.

VT - Sou apaixonado pelo seu romance "Véspera da Lua", hoje esgotado. O fato de ter sido publicada numa antologia de uma grande editora, com prestígio e distribuição nacionais, não lhe rendeu convites para uma nova edição?

RVR - Infelizmente, até o momento não. Por ter sido publicado por uma editora universitária, a da UFMG, que lhe concedeu o Prêmio Nacional de Literatura 1988, creio que o livro ficou confinado a um círculo muito restrito de leitores. De modo geral, a distribuição das editoras universitárias deixa muito a desejar. Além disso, a tiragem foi pequena, de apenas mil exemplares e a edição está esgotada. Restam-me apenas dois exemplares, que guardo a sete chaves.

VT - Como você avalia o cenário da Literatura Brasileira no momento? Sendo mineira, residindo em Brasília e tendo vivido em outras capitais, acha que o Rio e São Paulo ainda são os grandes detentores dos meios de produção literários, os grandes formadores de opinião?

RVR - A resposta a esta pergunta requer um certo cuidado. Se concordarmos que Rio e São Paulo são os grandes detentores dos meios de produção literários, onde se situam as grandes editoras, e isso não há como negar, pode se dar a impressão de estarmos dizendo que o restante do País não faz boa literatura. Em todas as regiões brasileiras, como não podia deixar de ser, há escritores de excelente nível. O que vou dizer agora não tem nada de original, mas é preciso repetir, até quase à exaustão: quando houver uma descentralização das editoras, quando todas as regiões contarem com editoras bem montadas e com boa distribuição, o problema será solucionado. A boa literatura não tem pátria, pois como toda forma de arte tem de ser universal. Não há Estado ou região brasileira mais apta a ter bons escritores do que outra. Creio que seria importante a formulação, nos Estados, de políticas governamentais visando ao estímulo da criação literária. Esta é uma discussão muito longa e muito importante também. Por isso acho que nós, como escritores, se convidados a discutir o tema, em instâncias governamentais, não podemos nos furtar a dar a nossa colaboração, por mais modesta que possa nos parecer.

Sobre o Autor

Vivaldo Lima Trindade: Vivaldo Lima Trindade é escritor, assinando apenas Lima Trindade. Tem publicados os livros "Supermercado da solidão" (novela) e "Todo o Sol mais o Espírito Santo" (contos). É também editor do site cultural Verbo 21 em Salvador, Bahia.

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