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De volta ao começo: Cruzália/SP

por Henrique Chagas *
publicado em 16/07/2005.


Henrique Chagas volta à Cruzália/SP. Veja as fotos.


Convidado pelas professoras Michelina, Osana e por Micaela, sobrinha querida, compareci na comemoração dos 60 anos da Escola Joaquim Gonçalves de Oliveira, de Cruzália, SP, no último dia 13 de julho de 2005. Por gratidão à escola de onde saí há mais de 30 anos levei uma doação em livros para a biblioteca de uns 150 a 200 livros. Minha presença, não foi somente coroada pela emoção e pela gratidão, teve também um enfoque pedagógico. Na Segunda-feira, estive com Gabriel Perissé, que palestrou no Congresso de Educação organizado pela UNOESTE, e falávamos deste exemplo pedagógico. A simples presença falou mais que inúmeras palavras.

Fiz a 5ª e a 6ª séries na Escola Joaquim Gonçalves de Oliveira, nos anos de 1972 e 1973. Era o início do ginásio em Cruzália. Antes, quem estudava na Escola da Água da Pintada (1ª a 4ª séries) - onde estudei-, fazia a prova de admissão e ingressava no ginásio em Pedrinhas (cidade fundada e colonizada por italianos). No ano de 72, escapei do exame de admissão e do ginásio na colônia dos italianos. Ingressei na Escola de Cruzália.

Foram anos difíceis, pois minha irmã e eu não tínhamos condições sequer de ir à Cruzália. Morávamos na roça, distante seis quilômetros da escola. Existia apenas um ônibus (chimbica) que levava os estudantes à Pedrinhas (12 km de onde vivíamos), que naquele ano passou também a levar os estudantes a Cruzália. Por inúmeras vezes fomos a pé ou de carona em trator ou caminhão. Logo, naquele ano de 72 a Prefeitura comprou mais um ônibus (velho, que ficava mais tempo quebrado do que rodando) e passou a existir uma linha, que saia de Cruzália, passava pelos bairros da Estiva, Castelo, Curva, Pau Queimado, Pintada e Caçador. Quando o ônibus quebrava, o Siefried, motorista alemão, ou seu Chiquinho Kill, fazia a linha de caminhão. Quando chovia, não tinha ônibus nem caminhão, íamos a pé mesmo.

Minha irmã Joaquina e eu éramos conhecidos como os filhos do "Zé Terra", o homem que vendia vassouras. Meu pai foi vítima da tuberculose e não podia trabalhar na roça, então fabricava vassouras, a fonte do nosso parco sustento. Não tínhamos roupas suficientes para ir à escola e muito menos sapatos, andávamos de pés descalços. Lembro que deixamos de ir à escola descalços quando o professor de Educação Física nos presenteou com um par de congas (um modelo antigo de tennis). Lélio era o nome dele. Naquele ano de 1972, no aniversário de Cruzália, 04 de abril, teve desfile dos alunos na Avenida Luiz Zandonadi. Todos de uniforme, os meninos de calça cinza e camisa branca, as meninas usavam saias também da cor cinza. Joaquina e eu não tínhamos uniformes, estão desfilamos em cima do caminhão da prefeitura. Destacamos-nos por estarmos sem uniforme.

Vestíamos roupas feitas por nossa mãe, calça e camisa de panos de saco. Hoje usamos camisa de linho e ternos bem cortados, andamos de carro novo, mas naquela época era assim como lhe descrevo. Usei meu primeiro uniforme quando o Alonso, nosso colega, filho do Armandinho, me presenteou com um uniforme usado. Foi uma felicidade enorme. Cadernos, eu os ganhei do Paulo Bertolino, comprados no João Totti.

No ano de 1973, as aulas eram atormentadas pelos bate-estacas da construção do povo artesiano (que hoje é da Sabesp) ao lado da escola. Neste ano pessoalmente tive grandes alegrias. Ganhei uma bicicleta no sorteio de figurinhas, compradas no bar do seu Alfredo Soares. Lembro dos grandes colegas da época, os Henchel (Gerard), lá da Estiva, o Reinhold Both, os Kill, o Moacir Garcia, Mônica Braum, Clarice, Leonice e Ingrid, entre tantos outros. Da escola, lembro com saudade da Dona Matilde, a servente que carimbava nossas cadernetas.

Dos professores, não lembro nomes, mas lembro da fisionomia do professor de Educação Física (aquele que me deu um par de congas), que Dona Matilde lembrou-me seu nome, Lélio era o nome dele. Negativamente, lembro de uma professora, vinda de Assis, e falava sempre em sala de aula que pobre era pobre porque era vagabundo. Isso me magoou profundamente. Nunca esqueci isso, e com certeza isso nunca foi uma verdade.

Mas tudo muda. No final daquele ano, passou pela escola um senhor canadense chamado Fernand Lafontaine, viu minhas notas (coisa que nunca foi problema) e me convidou para estudar em Marília, no Colégio Cristo Rei. Coloquei um disco da banda do Cristo Rei na vitrola, no meio do pátio da escola, e ouvíamos marchas. Foi ao som de marchas que aceitei mudar o meu destino. Não tinha como não aceitar. Fui. Da roça para o colégio da elite mariliense, uma transposição difícil e dolorida. Terminei o ginásio e o colégio no Cristo Rei, depois faculdade em Belo Horizonte/MG e São Paulo/SP. Voltei para Marília, onde estudei Psicologia. Depois Direito em Presidente Prudente/SP. Fui professor, diretor de escola, bancário e hoje advogado de uma grande empresa.

Tudo mudou, mas tudo começou em Cruzália. Mesmo com todas as dificuldades inimagináveis, meus irmãos e eu nunca desistimos. Trabalhei na roça e nunca desisti dos meus sonhos. Fui muito criticado e humilhado por acreditar que um dia tudo seria diferente, que um dia deixaria de enfrentar o sol na cabeça, colhendo algodão ou carpindo soja e iria conseguir, junto com meus irmãos, dar um final de vida digna aos meus pais, especialmente à minha mãe, pois meu pai faleceu em 1982 e não conseguiu ver seus filhos formados.

Desanimar jamais. O sonho é possível, mas depende de nós. Não depende do governo, nem de nossos pais e nem dos nossos amigos, que somente podem nos ajudar, mas o sonho depende de nós.

Essa foi a mensagem que deixei no evento de comemoração dos 60 anos da escola de onde saí há mais de trinta anos. Voltei para expressar minha gratidão e dizer aos que lá se encontram: o sonho é sempre possível.

Veja as fotos.

Sobre o Autor

Henrique Chagas: Henrique Chagas, 49, nasceu em Cruzália/SP, reside em Presidente Prudente, onde exerce a advocacia e participa de inúmeros eventos literários, especialmente no sentido de divulgar a nossa cultura brasileira. Ingressou na Caixa Econômica Federal em 1984. Estudou Filosofia, Psicologia e Direito, com pós-graduação em Direito Civil e Processo Civil e com MBA em Direito Empresarial pela FGV. Como advogado é procurador concursado da CAIXA desde 1992, onde exerce a função de Coordenador Jurídico Regional em Presidente Prudente (desde 1996). Habilitado pela Universidade Corporativa Caixa como Palestrante desde 2007 e ministra palestras na área temática Responsabilidade Sócio Empresarial, entre outras.

É professor de Filosofia no Seminário Diocesano de Presidente Prudente/SP, onde leciona o módulo de Formação da Consciência Crítica; e foi professor universitário de Direito Internacional Público e Privado de 1998 a 2002 na Faculdade de Direito da UNOESTE, Presidente Prudente/SP. No setor educacional, foi professor e diretor de escola de ensino de 1º e 2º graus de 1980 a 1984.

Além das suas atividades profissionais ligadas ao direito, Henrique Chagas é escritor e pratica jornalismo cultural no portal cultural VerdesTrigos (www.verdestrigos.org), do qual é o criador intelectual e mantenedor desde 1998. É jurado de vários prêmios nacionais e internacionais de literatura, entre eles o Prêmio Portugal Telecom de Literatura.

No BLOG Verdes Trigos, Henrique anota as principais novidades editoriais, literárias e culturais, praticando verdadeiro jornalismo cultural. Totalmente atualizado: 7 dias por semana.

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