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Paul Auster: a funda ausência do pai

por Chico Lopes *
publicado em 22/09/2004.

A escritora Rosângela Vieira Rocha ("Véspera de lua" e "Rio das pedras"), de Brasília, me visitou em julho último, e, ao conduzi-la pelas ruas de Poços, tínhamos que acabar entrando numa livraria. Mal ela chegava às primeiras prateleiras, surpreendeu-se com um livro que praticamente lhe despencou no colo. Era uma edição da Cia. das Letras de "Noite do oráculo", de Paul Auster. Ficou perplexa e afirmou: "Isso não é apenas acaso". E, disposta, determinada, comprou o exemplar.

Falei-lhe, então, de Auster, que ela não conhecia. Disse-lhe que ele tinha escrito um livro que me impressionara bastante: "O inventor da solidão". Mandei-lhe pelo correio "A trilogia de New York", que tinha em casa. Ela foi presenteada com o livro dele que primeiro me ocorrera por uma parenta, poucos dias depois de retornar a Brasília. E, por uma espécie de mal-entendido, achando que eu talvez não o tivesse lido ou quisesse relê-lo, mandou-me a nova edição, agora batizada "A invenção da solidão".

O que aconteceu foi simples: "O inventor da solidão" teve este título quando foi primeiro lançado no mercado, em 1997, pela editora Best-Seller. Saiu recentemente como "A invenção da solidão" pela Companhia das Letras, que parece deter e oferecer toda a obra de Auster disponível no Brasil. A nova edição tem 194 páginas e pode ser encontrada em todas as livrarias do país.

A qualidade da escrita de Auster não se associa necessariamente à originalidade. Ele não inova muito, em termos de forma, e eu cultivo o hábito - talvez cauteloso e propenso a erros, mas saudável - de duvidar de gente que se empenha em fazer literatura cheia de firulas, às vezes nada mais que mera pirotecnia para disfarçar a falta de idéias e de talento (quantos livros entre os que vemos por aí, "fragmentados", "transgressivos", "ousados", não oferecem nada além de cacoetes! - raspando-se o verniz de vanguardismo cosmético, não resta nada por baixo). Auster oferece solidez e oferece idéias, mas também, quando sucumbe aos artifícios, se perde um pouco. Por isso ler "A invenção da solidão" pode resultar em trafegar nessas duas vias e aprender algumas lições interessantes.

O livro se divide em duas partes, "Retrato de um homem invisível" e "O livro da memória". A primeira já pode ser colocada entre os mais belos textos da literatura americana contemporânea.

O lugar da perda

"Retrato de um homem invisível" é, na verdade, um depoimento (ou um simulacro de, mas pouco importa): o escritor Paul Auster perde o pai. A morte e seus rituais. A eterna perplexidade diante de alguém que estava ali agora há pouco e agora não está mais em lugar nenhum. A esse respeito, é ótimo, porque Auster nem mesmo arrisca apoiar-se no consolo dúbio de qualquer crença religiosa: ele registra um oco, uma ausência, e explora incessantemente esse vácuo latejante.

Todo mundo tem algo a contar nesse gênero porque, com a morte de um familiar querido e próximo, é sempre assim: demoramos a dar-nos conta completa do que perdemos, e entendemos que o enigma daquela vida, ora extinta, persiste: amávamos quem, realmente, se é que amávamos? Se formos honestos, teremos que admitir: um estranho. Auster radicaliza isso: seu pai era realmente um homem muito estranho, particularmente arredio, uma dessas pessoas em aparência comuns sobre as quais nunca se chega a um consenso preciso, porque se disfarçam, se camuflam, adaptando-se às situações exteriores e mantendo uma reserva inflexível sobre seus motivos e sofrimentos. A morte, no entanto, obriga Auster a repensar todo o seu relacionamento com o pai e aí se encontram os trechos mais pungentes e verdadeiros do livro. O texto tem um valor universal: não há quem não reconheça, em silêncio, que, infelizmente, é aquilo mesmo: só chegamos a nos interessar em profundidade por quem amamos (ou por quem supostamente deveríamos amar) depois que já nada mais podemos saber de concreto a seu respeito, quando a morte calou a pessoa para sempre. É com angústia semelhante à de um Proust relembrando Albertine ou a avó de "Em busca do tempo perdido", é com a pungência do mistério de Ivan Illich, o homem-que-vai-morrer de "A morte de Ivan Illich", de Tolstoi, que nos deparamos nessas páginas. Essas filiações ilustres nos ocorrem por força da universalidade dolorosa desse tema. Auster tem que lidar com esse fantasma - seu pai - sem consolo ou amparo algum. O que colocar no lugar dessa perda? O luto de Auster leva-o a investigar o passado do pai e a fazer descobertas - fortuitas - muito interessantes.

Mas, se "Retrato de um homem invisível" é quase antológico, "O livro da memória", a segunda parte, é menos forte. Aí, Auster lembra bastante escritores que escolhem enredar a vida pessoal e um projeto de ficção numa embrulhada metalinguagem abundante em citações. É um artifício óbvio e quase infalível na ficção contemporânea. A maldição da necessidade de ser original, de ser formalmente "inventivo" (mesmo que isso implique em caos e ininteligibilidade) afetou Auster, como afeta quase todo mundo que escreve hoje em dia. Ele não acredita que um texto simples, humilde e claramente escrito, possa valer para o mercado ou para os críticos cujas idiossincrasias precisa adular. Aí, parece já não ter o que dizer e disfarça isso sendo "habilidoso" e revelando as costuras. Pior para o leitor.

Ainda assim, "A invenção da solidão" guarda prazeres e descobertas para quem queira conhecer Auster e é uma ótima iniciação a seus livros. Não consegui digerir o "A trilogia de Nova York", não li "Noite do oráculo" e não me aventurei em outros. Mais tarde, Rosângela Vieira Rocha me confessaria que "A invenção da solidão" lhe parecera, realmente, o melhor dos três.

Se o leitor pretende conhecer Auster, então, fica aqui a minha indicação: comece por aí.

Sobre Paul Auster:

Paul Auster is the author of numerous works of fiction, including Mr. Vertigo, Leviathan, The Music of Chance, and the three New York Trilogy novels: City of Glass, Ghosts, and The Locked Room (all Penguin).

website oficial: http://www.paulauster.co.uk/


Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

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