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Dedo de Moça

por Conrad Rose *
publicado em 04/06/2004.

Osvaldo caiu certa vez. Assalto à mão armada. Era uma casa de classe média, onde os cacos de vidro no muro externavam a herança de algum militar. Nada para fazer fortuna, só zombaria.

A velha andava doente, e somente por isso o neto pousara com ela. A velha dormia cedo, Osvaldo sabia. Constatara ao ser recebido às seis da matina com o café posto, desde a primeira vez que fora chamado para cuidar do jardim.

Osvaldo aprendera a arte com o falecido pai e começara bem. Mas veio a gravidez, desnecessária e problemática, de sua esposa. Osvaldo então desdobrara-se em múltiplos ofícios a fim de custear o trato. Restara-lhe apenas o celular pré-pago, para o qual cliente algum ligava devido ao custo da chamada. As más influências introduziram-no ao mundo do crime.

O neto chegara cansado da academia. Professor de jiu-jitsu. Acompanhara a avó na janta, quer dizer, ela na canja e ele na vitamina, repleta de nutrientes tecnologizados que, estranhamente, é conhecida por um nome relacionado a milk-shake!? Realmente, o pitbull da vovó e a própria dormiram cedo.

A velha dormia cedo e era surda, Osvaldo sabia. Já não havia esposa e a cria não vingara, fato que lhe causara uma imensa cicatriz endodérmica. A porta abriu facilmente.

A velha não podia, mas abusava, com a dedo de moça, ralada na canja. Hipertensa e diabética, a velha era a própria contra-indicação. Aquilo a embrulhara e começava a incomodar. A velha tinha dois caminhos a seguir: a pia, próxima e instantânea; ou, analgésicos, muitos e lerdos. Os dois e uma fatia da torta de maçã. Só uma pequena fatia. A velha, incentivada mais pela torta que pelo desconforto, acendera o abajur.

Osvaldo adentrou caminhando leve, atravessando a casa em direção ao quarto da septuagenária. A cada passo dado mais ele se distanciava de seu pai. Esquecera a arte. Osvaldo rabiscava as retinas, implorando o perdão do pai e cagando para o mundo.

O neto dormia pesado quando a velha gritou. Depois ela tombou. Osvaldo não sabia se acudia, fugia ou chorava; feito criança de arma na mão. A velha contorcia-se no assoalho. E o pitbull, solícito, voava no pescoço do Osvaldo. Pouco depois Osvaldo desacordava; a velha também, e para sempre.

Quando o socorro chegou, o neto massageava a velha, já bem mais fria que o habitual. E Osvaldo lá: algemado, detido, fichado, interrogado, surrado, e tal. Aí o neto chorou, babou e regurgitou os shakes da vida.

Pior de tudo, para Osvaldo, era a reprovação do pai desencarnado. Deus não significava nada pois levara sua cria.

Osvaldo fora parar na provisória, dividindo cela com um senhor de cinqüenta e poucos que maldiziam louco e gritava sem parar. Muito prazer foi como começou. Em seguida, pequenas peças de um quebra-cabeça encaixavam-se, implorava clemência e jurava inocência. Eternizando sua complexa e fragmentada história, na provisória denominavam-no insano.

Osvaldo havia absolvido o dito; os dias compridos, simbolizados com riscos na parede da cela, induziram diálogos. Marcavam semanas então. Amigos já eram. A companhia fizera bem ao insano. Parara com o quebra-cabeça. Cadenciava as emoções. Osvaldo agora o respeitava.

O insano encontrava-se ali por acaso; trabalhara durante anos para uma velha que o bendizia porque apesar de pardo, honesto! - ela costumava grifar. A velha rogava-o e conduzia-o à prosperidade materializada pelas próprias septuagenárias mãos, salpicadas de veias emboloradas e sardas escurecidas.

A maré virou quando o neto começou a roubar. O pardo e honesto, agora maldito, acusado de roubo. Na apreensão, a polícia facilitara. O pardo ao encontro da velha, somente o suficiente para um único golpe. Na fuça. A velha zunira e descera. O insano, pardo e maldito fora algemado, detido, fichado, interrogado, surrado, e tal. À velha, quatro safenas e um hematoma. O neto passou a fazer michê, faturou e socializou-se.

Na descrição das mãos Osvaldo relacionara. O neto certificara. Osvaldo recebia a absolvição do pai. No quebra-cabeça. Na justificativa.

Naquela noite os dois jogaram palito até tarde; e o insano, pardo, maldito e inocente deixara toda a provisória dormir, menos Osvaldo.

Sobre o Autor

Conrad Rose: Conrad Rose é um escritor paranaense que observa o comportamento humano e brinca com sua paisagem. Atualmente ministra oficinas de criação literária em Santa Teresa, bairro do Rio de Janeiro.

Email: conradrose@hotmail.com

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