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Momentos desesperadores de um escritor

por Rodrigo Capella *
publicado em 08/01/2009.

É bem provável que você esteja lendo meus últimos respiros literários. Não que eu queira rumar uma vida melhor – acho que aqui não se cabe tal capricho. O que almejo é vida sem fastio, sem pejo. E, portanto, sem registro. Malditas anotações atemporais de tirar o sono, dar insônia e excesso de saliva na boca.

Dizem – os mais afortunados – que escrever é uma dádiva. Se tal façanha for concreta, deixei de reinar quando os abandonei – lápis e borracha. O barulho das teclas nunca me fascinou. Aliás, acho eu, que essa tecnologia atrasa as palavras. Era, portanto, no toque do papel que criava personagens – uns príncipes; outros candangos. Quando transformei todos em seres simples, veio-me o fastio. Personagem tem áurea magnânima, mas os meus já não a despertavam há anos (era como se todos tivessem a mesma alma, ao mesmo instante. Um tédio!). O pejo veio na seqüência: sem bons personagens não se tem ritmo. Comenta – o estudioso mais crítico – que o leitor precisa se sentir só para degustar. E que o caviar só é ingerido com um certo toque de sabor. Sem sabor e caviar, perde-se o ritmo, encontra-se o pejo.

Em busca de cenários autênticos, já percorri o Brasil todo. Não encontrei atração literária, apenas novo lar: mais calmo, nem por isso com mais elementos. Florianópolis é onde, portanto, o melhor da narrativa começa. E – contrariando a meteorologia daquele dia – o sol não veio de manhã. Foi substituído por um ruído e um pacote. O ruído eu ouvi as sete da manhã, junto ao cantar do agitado curió a fazer ninho. A escada do hotel rangia e em passos simétricos alguém – ligeiramente apressado – depositou algo em frente ao quarto 314. Quando abri a porta, o mancar levou-me a um embrulho pardo e úmido e preso a cordões e apertado e curioso.

Relutei – como faço sempre – em desenrolar os cordões. Poderia eu encontrar algo diferente desses meus trinta anos de poesia? Pronunciei o “algo”, com intensidade, como fiz nos dias anteriores. A tesoura guiou minha mão esquerda aos cordões e um corte certeiro desfez o que poderia ser considerado uma arte de empacotar. Juntei esse quarto embrulho aos demais: o primeiro intocado; o seguinte com um leve rasgo; o terceiro com um furo e um cordão cortado. E este com um buraco e sem dois cordões paralelos. A curiosidade – é lógico – aumentava dia-a-dia. O primeiro ignorei; o segundo quase abri; o terceiro contive-me; o quarto aos prantos... Eu queria conhecer o conteúdo deste e dos demais. Sabia, entretanto, que não poderia.

Os fãs nos enviam itens com a boa intenção que destrói casamentos. E depois questionam: você deixou de ser escriba? É a demagogia que se funde à ironia e irrita meus ouvidos. Palavras tornam-se obsoletas e bilhetes e pacotes e mensagens sem remetente viram – ou pelo menos deveriam – invisíveis.

Alívio se faz quando se recebe algo esperado, com conteúdo e formas previamente calculados. No mundo virtual, ter contato com algo presente, sem conhecê-lo é quase um atentado mental. Se imagina de tudo, se programa uma resposta, fica confuso, como se enforcasse nos cordões dos embrulhos.

Poderiam eles não ter sido enviados por fãs? Embrulhos caprichosos, da irritação no ouvido, demagogia de interesses, alegoria profana. Quem ou o quê poderia sucumbir-me tal irritação? Se bomba fosse, já – e até faço gosto – assistiria desgraças ao lado de Demo. Se vírus fosse, derreteria minha escrita sem direito a testemunho posterior. Se comida fosse, o cheiro a denunciaria. Se macumba fosse, ....

Se, Se, Se. A dúvida castiga, corrói e pergunta sorrindo: por que você não me guia? Ela quer paz, mas provoca. Parece muito com as mulheres: não sabem a hora de nos deixar a pensar sobre elas, sobre mundo, overmundo! E elas permanecem, tímidas, mas sempre aí. Então, quem os poderia ter enviado? Antiga namorada? Duvido, não teria tal capricho. Um familiar? Muito menos. Só lembram de mim em datas festivas ou quando preciso comprar presentes. Então, quem? O que? Putz. Pausa. A matemática precisa, nessas horas, é amiga de se descobrir. Talvez pontuar o que e como as coisas nos norteiam de modo a complicar as ações e contribuir para a dúvida.

Ah! Nunca fui um esperto em antecipação. No entanto, gosto de fazê-la, aos poucos, preferencialmente no ranger noturno dos dentes. Cochilei no sofá, abraçado a Tico – urso barrigudo de minha filha. Olhos de chamego, pêlos pardos, mãos na cintura... Despertei depois de horas, com o curió do ninho. Guiou-me ao quinto, colocado debaixo da porta do 314. Olhei aos demais e o mancar fez-me apanhar o novo. Coloquei-o na mesa, bem próximo aos outros. A tesoura já estava próxima, ao lado do quarto. Libertei-o dos cordões, fiz um furo maior e identifiquei. Remetente era “D.J”. Recorri – obviamente – à agenda. De nada acrescentou: lá não havia sobrenome, apenas apelido e pronome. Nunca encontrei motivos – agora os tenho – de preenchê-la corretamente.

Caminhei pelos corredores apertados, quase debruçando-me nas paredes. A resposta estava sempre à frente. Parecia ter se preparado anos antes. Como alcançá-la sem ter a fórmula correta da perseguição? Sempre assisti a filmes, li muitos livros – todos de mistério e pistas. Mas, quando se é personagem, a complicação alia-se ao desespero aparente. Há alguma saída ou a mais fácil terei que usar?

Relutei, busquei ar puro na varanda, com binóculo. Precisava encontrar algo longe, nem que fosse por um instante. Um algo perdido atrás do monte, que se fizesse importante e momentos de dúvidas. Cochilei, a tarde, no sofá, e, sem curió, manquei até a porta para encontrar o segundo embrulho do dia. A freqüência parecia aumentar demasiadamente, sem necessidade aparente. O dente rangia e a cada quarto de hora novo embrulho eu recebia. O fastio e o pejo pintavam gravura, a qualquer hora do dia. Pudera eu descobrir o remetente sem desembrulhá-los? Quisera o remetente tocar a campainha para encontrá-lo?

Mais um quarto, um outro embrulho. E assim se foi ao longo do dia. Totalizaram-se várias dezenas deles. Mesma cor e papel e cordões e cheiro. Mesmo tudo! Cheiro azedo, de quase desmaiar, pronunciar palavras esquisitas. Cheiro de dormir, durante horas, acordar ao som dos curiós para o mancar nada encontrar debaixo da porta do 314. Os embrulhos haviam parado e a curiosidade aumentava.

O que que havia dentro dos embrulhos? O que que eu poderia encontrar diferente dos meus trinta anos de poesia? Cortei e rasguei um a um. Libertei-os dos cordões e papéis pardos, como se abrisse a gaiola das loucas. Deparei-me com caixas azuis – lindas caixas azuis com desenhos gregos e mensagens positivas: “cubra-me de beijos, rápido”; “você eu quero”; “cubra-me”.

Caixa esquisita e picante, mas conteúdo similar à maioria das caixas: cartas, cartas amassadas, cartas amassadas e sujas. Manuscritas em letras redondas e legíveis à primeira passada de olhos. Alguns recortes de jornais – fotos e gravuras – colados entre cada linha do texto, como se fizessem parte de toda história. Cartas que lembram o passado e despertam lágrimas: “na juventude, o simples sinal de brincar provoca desejos”; que desafiam o futuro: “nada que fosse, justificava tal postura. O além a ninguém se pertence. O depois, nunca visto aquém”; e o hoje: “mudar o que de vitória seguida, ainda que você me alia”.

Mensagens que denotam certo sacrifício de escrita. É, por isso, que as cartas são símbolos fortes que atravessam gerações, buscam companhia em garrafas, gavetas e embrulhos pardos. Cheiro azedo, de quase desmaiar, pronunciar palavras esquisitas. Cheiro de dormir, acordar e ficar a pensar. Quando a pergunta é solucionada, domina-se o medo e vem outra. O que que essas caixas estavam fazendo debaixo de minha porta? E mais uma: por que que nunca as joguei fora?

Talvez, porque, cartas de ler a tarde toda, sem problema de ritmo ou tempo. Para se deliciar com um café e mancar confuso pelos corredores em busca dela, sem ter norte ou aptidão para desenhar. Cartas podem voar em direção oposta ao dom para se contextar que atrelado a isso se tem a vivência. Cartas! E principalmente cartas endereçadas a alguém – o vizinho do 315.

Sobre o Autor

Rodrigo Capella: Escritor, poeta e jornalista, Rodrigo Capella nasceu em São Paulo, Capital, no ano de 1981. Publicou o primeiro livro, intitulado "Enigmas e Passaportes" (Forever Editora), em 1997, com apenas 16 anos. Em 2005, quase dez anos depois, o autor voltou ao cenário literário com dois lançamentos: "Como mimar seu cão" e "Transroca, o navio proibido", ambos pela Editora Zouk. Rodrigo Capella também publicou poemas em diversas antologias, entre elas "Diversos" (Andross Editora), "Ave Palavra" (Clube Amigos do Livro) e "Além da palavra" (Scortecci Editora). Em breve, Capella vai lançar "Rir ou Chorar, o cinema sentimental", obra que narra as aventuras do cineasta Ricardo Pinto e Silva. Esse livro vai ser lançado pela Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial, comandada por Rubens Ewald Filho.
Mais informações: www.rodrigocapella.com.br

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