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Loja de bonecas II

por T.M. Castro *
publicado em 03/12/2007.

Em minhas andanças, vi-me, certa ocasião, em uma rua cuja estreiteza bem demonstrava sua secular existência. Em ambos seus lados alinhavam-se pequenos cômodos sob forma de caixas de vidro, vizinhosinconhamente, pegados uns aos outras por paredes de alvenaria. Entre uns e os outros que também se lhes defrontavam, não caberiam mais que dois a três passos do comum caminhar, razão porque o tráfego de veículos era ali vedado ou atéimpossível. Eram as caixas a parte térrea de edificações do século XVIII, com suas típicas janelas estreitas e compridas. Cortinados ao fundo limitavam o espaço envidraçado, vedando ao transeunte observador ter ciência da parte térrea que sobejava à caixa e de escadas de madeira que provavelmente conduziam aos andares superiores , dois ou três. A simetria e mesmismo que imperavam no conjunto eram habilmente disfarçados pelo multicolorido do interior das caixas, pela diversidade física das silhuetas nelas enclausuradas, uma a cada caixa, e pelos atavios, maquilagens e costumes que usavam. Sem dúvida, encontrávamo-nos em uma loja de bonecas de tamanho natural e esta impressão, em tudo real, só se dissipava pelo humano piscar de olhos daquelas quase imóveis criaturas.

Turistas que éramos, já tínhamos ouvido falar que naquela parte de Amsterdã, sua zona antiga, suspeita, vermelha, havia primores de caixas ornadas com veludos, cortinados e chaises longs à Recamier onde belíssimas mulheres, qual bonecas, mui bem maquiladas e vestidas, se expunham ao olhar dos passantes, que se demoravam frente às vitrinas. Significativos gestos e olhares cambiados entre o ser envidraçado e o passante compõem o preambular ritual da mercancia que se travará nas partes posteriores das caixas, cômodos que os postulantes só poderão devassar com seus olhos e corpos quando já admitidos clientes ou fregueses.

Usei dos termos postulante e admitido porque, como fui informado, os transeuntes interessados na mercadoria exposta não têm o direito de, como qualquer comprador, manifestar seu desejo pela aquisição do objeto exposto e, se o caso, adquiri-lo. Não, as bonecas das vitrinas de Amsterdãexercem, elas sim, o poder da escolha. A um gesto seu dirigido a quem lhe desperte a cobiça, o interesse ou a curiosidade, seja o que for que instrua aquele relacionamento, haverá outro em resposta por parte do potencial cliente. É de sabença geral, eu mesmo vim a saber, o valor das tarifas que recaem sobre os diversos procedimentos e por isso as avenças se restringem ao mero quero sim, quero não, o que é expresso por convencionais gestos. Mas são elasquem comanda o cliente a uma resposta.

Já que a prostituição é um mal necessário (para alguns),costume inderrogável, arte secular, ritual e catarse libertadora (para outros), já que assim é, melhor que assim seja, digo, que sejam as sacerdotisas que exerçam o quando e o com quem subirá ao altar, pois entendo que o como éditado pela pecúnia, elemento não disponível a todos, mas a todos comum.

Vejo aí, ainda que me submeta a pejorativos e às penas avernais, um avanço, um progresso, um grito de alforria das mulheres em relação ao mutismo estupidificante a que as bonecas de porcelana lhes inculcam no início da vida (Loja de bonecas I)

Quando estou transitando nessas obscenas elucubrações, tudo por culpa ou mérito da notícia de que tramitava projeto de lei que tornava letra expressa não ser crime o prostituir-se (soube que gorou), presunçosa e inócua letra, pois crime nunca o se prostituir foi, como aventei em Loja de bonecas I, deparo-me com duas outras notícias que fazem aflorar mais ousadamente o misterioso nicho da sexualidade feminina.

De fato, o Correio Braziliense, prestigiado jornal da Capital Federal, noticiou um fato e, para que nada fuja de sua autenticidade e bravura, permito-me transcrevê-lo sob aspas:

AMOR PROIBIDO
Professora foge com aluno


A polícia mexicana deteve ontem a professora norte-americana Kelsey Peterson, de 25 anos, que havia fugido do estado de Nebraska com o aluno Fernando Rodríguez, de 13 anos. Peterson, que dava aulas de matemática e era treinadora de basquete, foi descoberta em Mexicali, perto da fronteira com a Califórnia, e entregue ao FBI, a polícia federal dos Estados Unidos. O menino foi buscado pela família. Os dois haviam desaparecido no último dia 27 da cidade americana de Lexington, a mais de 2 mil quilômetros da fronteira, e entraram em território mexicano três dias depois. A professora deixou no computador mensagens de amor endereçadas ao aluno, e seráacusada de abuso sexual, corrupção e rapto de menor".

Ainda não havia repousado minhas comissuras de Santorini, que se esbaldaram como nunca, quando, via net, site do próprio CB, CorreioWeb, se não falho, deparei-me com a deliciosa nova, que ante a anterior já de nova não se pode chamar, e que segue, no que interessa também literis :

Da France Presse
03/11/2007- 19h55 - BUENOS AIRES, Argentina. Um rapaz de 17 anos, que fugiu com uma mulher de 40, com quem tem um relacionamento, foi obrigado pela Justiça argentina a voltar para a casa dos pais, em Santa Fé (centro-leste). Sua mãe havia denunciado seu sumiço como seqüestro.
...........................................................
O carro foi apreendido e o casal, levado para uma delegacia de polícia, onde prestou depoimento. O jovem negou ter sido seqüestrado. Disse que saiu de casa por vontade própria e antecipou que está disposto a continuar o namoro, mesmo que sua mãe não concorde. Após comprovar que não houve rapto, a Justiça decidiu mandar o adolescente para a casa dos pais e devolveu o carro para a sua dona.

Essas duas notícias tornam o projeto de lei - admitamo-lo ainda em tramitação na Câmara dos Deputados , - em que pese o pugnante e sempre atualizado punho do parlamentar seu autor - de um anacronismo atroz, pois, as mulheres, de passivas e cevadas cordeiras, já passaram à febril e pulsante condição de lobas caçadoras e contraventoras das leis que regem os costumes sexuais. Um inegável progresso.

Parece-me, fosse o caso de se legislar sobre o undoso campo dos relacionamentos humanos, parece-me, repito dever-se-ia descriminar a conduta de mulheres que, tocadas por setas partidas de efebos, a elas se lançassem, prestando aos iniciantes o incomensurável aprendizado em fonte madura e responsável. Sim, não será crime tal relacionamento, nem se apelará para as tipificações laterais e inadequadas de seqüestro, rapto, subtração de incapazes etc., que a adolescência já vota, já mata, já faz de tudo entre si, causando aos pais o pesadelo da gravidez desnutrida e da paternidade insolvente.

Ora, igualdade para ser igualdade tem de ser igual, chova-se no molhado... Ninguém diz nada quando se se depara com um próspero exemplar masculino de 40 anos e uma tenra ninfeta de 17. E em sendo no Marrocos e demais países árabes, o que digo por experiência própria, é admirado e mui acolhido o velhote de 60 com uma desabrochante flor nas condições pré-faladas. Alhures, não se pede nem documento nos hotéis. Estive por aí com a filha,foi um divertido vexame ter que gritar a todos pulmões para o saguão perceber: Sweety, come here to daddy. Ma fille, allons y.

É patente que tento justificar como válido que roliças experiências satisfaçam esguias e peraltas curiosidades e que a dadivosa loba não seja execrada como corruptora fato impossível nos tempos atuais, ante a total carência de ingenuidade e pureza no mercado. Execrar a loba e pôr-lhe a policia à caça é tática egoísta exercida por açambarcantes mães, pois os pais mesmos, se herdeiros dos humores dos daqueles de minha adolescência, muito se regozijarão ao saberem das ousadias amorosas dos rebentos homens. Fosse naquele tempo, o fato pertinente à loba de 40 anos, supra, politicamente incorreto aos olhares de hoje, alvo de caçadas policiais, seria encarado como poético e feliz evento a propiciar algum incentivo paterno , qual perfumes, calças e camisas mais condizentes para o feliz fedelho. E mais, nas rodas de chopes e de pôquer, receberia o orgulhoso pai solidários elogios e invejosos sorrisos. Diga-se ainda da tranqüilidade que exuberaria ante a certeza de serem os afagos licantropos descontaminados das prostibulares endemias, a gono, a crista, a sífilis... que felicidade as lobas propiciariam naqueles tempos!E mais, em sendo loba não corre o cordeiro o risco patibular do até que a morte os separe, pois, sabe elada efemeridade que caracteriza a afeição dos cordeiros, sempre em busca de pastagens mais verdes. Vivam, então, as lobas, morram as bonecas, que sugerem a inanição física e a anorexia da alma a uma significativa parte da humanidade, as mulheres.

Não posso deixa de registrar episódio impar da década de 70 que angariou geral simpatia, admiração e desejos de experimentação por quantos o conheceram. Falo do filme Houve uma vez no verão ( Summer of 42, no original ), em que a linda loba Jennifer O´Neil, sob a direção de Robert Mulligan, e aos belíssimos acordes da pauta de Michel Legrand - Oscar de melhor trilha sonora - submeteu-se com graça e maestria à inexperiência de Gary Grimes, que encarnava personagem de 15 anos, ao que parece sua real idade à época, em férias na praia, onde ambos se conheceram. O DVD está por aí... Vejam-no os que não no conhecem antes que a invasora e puritana mentalidade de Nebraska não o recolha ao argumento de atentado contra o Estatuto da Criança e do Adolescente, o famigerado ECA. Infelizmente, já se registram sinais de Nebraska, aqui, no lado de baixo do Equador. Ninguém merece Nebraska, mas...

Bem, este escrito, que pretende registrar a nova postura feminina, e com ela se solidarizar, de modo algum tem em mira sacramentar o visguento desmanche da infância (13 anos, supra) nem alçar loas ao macabro, recuerdos do argentino de 18 com a semicadáver de 80, como recém noticiado, bodas e velório. (Em hipótese alguma eu, pai, apelaria para a repressão policial; antes, uma viagem à Disney num caso, e uma estada na clínica da Dra. Aslan, no outro). Não, fazendo eco com a personagem representado pela excelente Arlete Salles, em o programa de televisão "Toma lá, da cá", dia 27 deste novembro, "Homem, se fizer tchbum quando jogado à piscina, pesando mais de 50 kg..." dê-se por feliz mamãe. Observe de longe e se informe do pedigree e hábitos da loba, tão só. Não, não, não, tem mais, passe-lhe bem as camisas, calças e enfie-lhe um cartãozinho de crédito limitado no bolso. Logo, logo a coisa passa... Enfadada, a loba voltará ao antigo parceiro, calmo, sem arroubos, certo e repousante. Seu filhinho, por sua vez, livre, experiente, confiante e com um invejável registro na biografia.

Finalmente, eis que já me alongo, como se aproximam as festas natalinas, oportunidades para externar nossos mais sinceros desejos, e, como desejar é pensar e, como pensar não é crime (Cogitationis poena nemo patitur, já diziam os romanos) ouso externar um voto: desejo ao bando de garotões que conheço, filhos de amigos, sobrinhos, afilhados e aos que vejo no metrô, que, em 2008, tenham um belo verão de 42.

Sobre o Autor

T.M. Castro: Temístocles Mendonça de Castro – é formado em Direito, lecionou em Faculdades, foi Promotor do Júri, Procurador de Justiça, Procurador do Cidadão, e hoje está aposentado. Vive entre Alexânia, GO, e Brasília, DF. Um texto seu já foi publicado no site messageinabotou, de Brasília.

Contato com o autor por email: temisbsb@terra.com.br

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