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Nascido no Inferno

por Abrão Slavutsky *
publicado em 04/05/2007.

Primo Levi foi o primeiro escritor a narrar o cotidiano dos campos de concentração nazistas, onde foram assassinados 6,15 milhões de judeus. Mas ele foi mais do que isso. Sua obra é sobre a vida e a morte, a dor e a amizade nos seus limites. Ele segue na escrita o caminho do narrador que está imerso naquilo que narra, tendência que foi crescendo ao longo do século XX, com Isaac Babel e Ernest Hemingway. O que passou a definir o escritor foi a forma poética, metafórica, pela qual transmitiu o que viveu. Um exemplo seria a descrição da véspera da viagem que fez como prisioneiro da Itália para Auschwitz, em fevereiro de 1944: "Cada um se despediu da vida da maneira que lhe era mais convincente. Uns rezaram, outros se embebedaram; mergulharam alguns em nefanda, derradeira paixão. As mães, porém, ficaram acordadas para preparar com esmero as provisões para a viagem, deram banho nas crianças, arrumaram as malas, e, ao alvorecer, o arame farpado estava cheio de roupinhas penduradas para secar. Elas não esqueceram as fraldas, os brinquedos, os travesseiros, nem todas as pequenas coisas necessárias às crianças e que as mães conhecem tão bem. Será que vocês não fariam o mesmo? Se estivessem para ser mortos, amanhã, junto com seus filhos, será que hoje não lhes dariam de comer?"

Esse é um trecho do livro "É Isto um Homem?" - e o título tinha que ser uma pergunta, pois toda sua obra questiona quem é mesmo o homem, capaz de tanto mal e também de bons sentimentos. Gostamos de nos definir como homo sapiens, mas somos também homo demens. Nos agrada a imagem de sapiens, daquele que sabe, do mais evoluído da espécie. Já ser homo demens, louco, é chocante, e evitamos essa verdade que nos angustia. Como pôde nascer um escritor no maior dos infernos do século XX é um mistério. Sua obra pode ser lida como uma resposta a Theodor Adorno, que afirmou não ser possível escrever poesia depois de Auschwitz.

Em uma entrevista, Primo Levi disse que gostava da aventura. Sem querer, encontrou seu destino em aventuras assustadoras, no terror dos campos de concentração. Sua literatura seduziu grandes autores, como Italo Calvino, Claude Lévi-Strauss e Philip Roth. Ler Primo Levi é fazer parte de sua odisséia, conversar com seus amigos, aprender sua arte de enfrentar a doença e a morte. "É Isto um Homem?" foi escrito entre dezembro de 1945 e janeiro de 1947. É um livro que não se pode parar de ler, tal é o ritmo das ações. Como pôde sobreviver onde a imensa maioria morreu é o que ele relata de forma objetiva, como se estivesse nos contando pessoalmente. Uma das cenas inesquecíveis é quando Levi ensina poesia no campo - imaginem-no dando uma aula sobre Dante, explicando a um preso o que era a Divina Comédia. Um dos amigos que ele fez na enfermaria, quando esteve doente, é Alberto, que, com 22 anos, dois a menos do que ele, foi o primeiro a compreender que a vida é uma guerra; não perdeu tempo com recriminações ou compadecimentos, foi à luta. Levi luta pela vida, é amigo de todos, sabe a quem subornar, quem evitar, a quem resistir.

Primo Levi tem seu nome inscrito entre
os escritores indispensáveis do século XX


Antes disso, já havia recebido uma lição de Steinlauf, que lhe disse: o campo é uma grande engrenagem para nos transformar em animais. Somos escravos, expostos a qualquer injúria, destinados a uma morte quase certa, mas ainda nos resta uma opção. A opção de recusar nosso consentimento, e, para isso, devemos nos lavar mesmo que seja com água suja e nos secarmos em nossas roupas. Devemos marchar eretos e lutar para continuar vivos e poder relatar a verdade e dar nosso depoimento. Também faz referência a um pedreiro italiano que o ajudou muito, bem como a importância de sua condição de químico. Jorge Semprun definiu este livro como "obra-prima de comedimento, de fabulosa nudez no testemunho, de lucidez e compaixão".

Philip Roth, em uma longa conversa com Primo Levi, diz a ele que seu pensamento prático, científico e humano foram condições indispensáveis para sua sobrevivência: "Por seres um homem de precisão, que controla as experiências, e busca o princípio da ordem, o cientista e o sobrevivente são uma só coisa". Diante dessa análise, Levi exclama: "Muito bem, você acertou em cheio". A Trégua é a continuação histórica de É isso um Homem?, escrito 14 anos após; seu tema é a viagem de volta de Auschwitz a Turim, onde morava. Inicialmente, Levi ficou de fins de janeiro de 1945 até setembro em um campo na Cracóvia, nas confusões que se vivia no pós-guerra. A viagem de trem só começou em setembro e durou 35 dias, fazendo voltas desnecessárias. Num estilo refinado, com frases bem tratadas, descreve sua volta à vida, depois de viver do lado da morte. Consegue divertir o leitor ao narrar episódios exóticos, alegres, estranhos. Dois amigos se destacam no livro; o primeiro é um grego que, ao conhecê-lo, o chama de estúpido, porque está sem sapatos. O grego tem uma sabedoria prática, conhece garotas e talharins, Juventus e música lírica, guerra e blenorragia, vinho e mercado negro. O trabalho é o fundamento de sua ética, que envolve algumas atividades lícitas, mas também o contrabando, o furto, a trapaça. Em tempos de guerra, alega que é preciso ter sapatos e comida. Costuma dizer: "A guerra é sempre, o homem é o lobo do homem".

O outro amigo, César, mantém grande calor humano em todas as horas de sua vida. Para ele, o trabalho é, de vez em quando, uma desagradável necessidade, nunca uma obsessão, como acontece com o grego. O grego é avaro, racional, lobo solitário em eterna guerra. César é livre, pródigo, um filho do sol, amigo de todos, não conhece o ódio nem o desprezo. Levi escreve: "Conviver com César me reconciliou com o mundo, e reacendeu em mim a alegria de viver, que Auschwitz apagara". São muitas as histórias contidas na "Trégua", algumas divertidas, contrastando com a dor de tudo que ele havia sofrido. A partir de 1975, Levi dedicou-se só a escrever, aposentado como químico. Pôde assim investir ainda mais no seu caminho de escritor e conferencista. Viajou o mundo, deu um sem número de entrevistas, algumas transformadas em livros, e ganhou vários prêmios literários.

Um de seus livros de maior sucesso foi "A Tabela Periódica", que recebeu de Italo Calvino os adjetivos de "extraordinário" e "fascinante". O prêmio Nobel da Literatura Saul Bellow escreveu: "Sempre estamos em busca do livro necessário. Depois de poucas páginas mergulhei em "A Tabela Periódica" com prazer e gratidão, não há nada supérfluo, tudo neste livro é essencial e maravilhosamente puro". Compõe-se a obra de Levi de quase 20 livros. Os "Afogados e Sobreviventes" são ensaios derradeiros sobre suas vivências em Auschwitz, um balanço final instigante. Sua morte produziu um choque na Europa. Levi caiu no vão da escada do edifício onde morava. Durante muitos anos, a idéia de que ele tinha se suicidado foi dada como certa, embora ele não tivesse deixado nada escrito. A família discordou sempre dessa hipótese, afirmando que medicamentos o teriam deixado tonto. Daí a queda. Sua principal biógrafa, Myriam Anissimov, publicou Tragedy of an Optimist, onde conclui que pode ter ocorrido mesmo um acidente. Fica a dúvida sobre sua morte, mas, 20 anos após esse triste episódio, já não há dúvidas de que Primo Levi tem seu nome inscrito entre os escritores indispensáveis do século XX.

Fonte: Zero Hora

Sobre o Autor

Abrão Slavutsky: Abrão Slavutsky, psicanalista e escritor

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