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Entre homens e livros, sempre num entre-lugar

por Rogério Miranzelo *
publicado em 19/07/2005.


E na minha infância eu convivi com homens reais, com pessoas sofridas, com dores e alegrias de gente de carne e osso. Eu escrevo a partir disso – e não sobre (MGS)

"Minha literatura sempre será uma forma de contrariar o mercado das vaidades literárias". Miguel Sanches Neto

Nascido numa família de agricultores pobres no interior do Paraná, Miguel Sanches Neto tornou-se um dos mais importantes críticos literários do país, além de ser professor universitário, com doutorado em Teoria Literária pela Unicamp. Escreve na Gazeta do Povo e na revista Carta Capital. Vindo de um Estado que já deu importantes escritores ao Brasil, como Paulo Leminski e o grande ficcionista Dalton Trevisan, Miguel Sanches publicou, dentre outros, o romance autobiográfico Chove sobre minha infância (2000), o livro de contos Hóspede secreto (2003 – Prêmio Nacional Cruz e Sousa) e o de crônicas Herdando uma biblioteca (2004), todos pela Record. Neste julho de 2005, mês em que completa 40 anos, Sanches Neto lança em Curitiba o livro de poemas Venho de um País Obscuro, pela Bertrand Brasil, e concede esta entrevista.

RM - 1) Dalton Trevisan fez 80 anos e continua recluso, misterioso. E produzindo. É conhecido como “O vampiro de Curitiba”. Em Minas, sujeito com tais estranhezas é chamado de sistemático ou folclórico. Você, também contista, que estudou a obra dele e o conhece pessoalmente, está fazendo 40 anos neste mês e parece não gostar muito de comemorações. Considera-se meio vampiro também?

MGS - Eu herdei algumas idiossincrasias do bom Vampiro: não sou dado a festejos, mas sou bem menos recluso e mais falastrão. Gosto, por exemplo, de dar entrevistas por e-mails, mas detesto telefonemas, encontros, congressos, submetendo-me a eles quando inevitáveis. Fora esta aversão à imprensa, na sua roda de amigos, Dalton Trevisan é muito amável, um monstro de delicadeza. O que também herdei dele é um olhar crítico, ácido e desencantado do ser humano. O seu pessimismo está comigo, é uma postura que eu já trazia, mas que se intensificou depois de nosso convívio. Minha literatura sempre será uma forma de contrariar o mercado das vaidades literárias.

2) Além de Dalton, você poderia citar cinco grandes contistas brasileiros contemporâneos?

Êta perguntinha mais difícil. Para facilitar, vou falar de mais cinco contistas vivos cujas obras me tocaram mais profundamente – Luiz Vilela, Rubem Fonseca, Raduan Nassar (autor de um único livro de contos: Menina a caminho), Domingos Pellegrini e Sérgio Sant´Anna. Uma lista meio machista, não é verdade? É que agora está na moda falar em mulheres escritoras.

3) Em termos de literatura estrangeira, você tem destacado a obra de Isaac Bashevis Singer, judeu de origem polonesa. Em que sentido ela pode seduzir o leitor comum e inspirar o escritor brasileiro?

Todo escritor tem várias faces que podem nos encantar. Não leio Singer por causa do judaísmo ou por sua defesa da vida vegetariana, mas por ele ser um grande narrador, que sabe contar histórias de forma profunda e natural, sem nenhum artificialismo, e por ele ter vivido entre dois mundos e dois tempos, a Polônia medieval dos judeus de pequenas vilas e a modernidade extrema do Estados Unidos, não se encaixando em nenhum dos dois mundos, mas buscando suas misérias e suas grandezas. Ele também escrevia em uma língua periférica – o iídiche –, assim como nós escrevemos em português. E por ele acreditar na não passagem do tempo, que tudo que existiu continua existindo em alguma dimensão. O Singer é um autor mais essencial do que Faulkner ou Joyce, pois faz um contraponto a esta tradição experimental que domina nossa literatura e que nos desensinou a narrar.

4) Você é a favor da aproximação da literatura com a teledramaturgia e o cinema? Já imaginou Chove sobre minha infância transformado em um longa-metragem? O que eventual filme poderia acrescentar ao romance?

O romance já tem um roteiro – de um cineasta aqui do Paraná, o Fernando Severo. Eles querem fazer um filme que mostre a permanência de um mundo opressor no meio rural dos anos 70, quando um grupo de personagens vive o fim de uma era de desbravamento de terras no interior do Estado. Todo filme bem feito encontra outras histórias dentro do romance e cria uma recepção mais aberta para a obra. O cinema prepara o leitor comum para o livro e o recria em outra linguagem. Eu sou humilde o suficiente para acreditar que o filme é uma leitura crítica do trabalho do escritor. Talvez seja a mais perfeita leitura crítica.

5) Sua poesia já foi comparada à de João Cabral. Na condição de crítico literário, como você define Venho de um país obscuro?

De João Cabral eu só tenho a obsessão pela clareza, mas sou um impulsivo, um lírico, mais próximo de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e Mário Quintana, mas sempre preocupado com a linguagem cristalina. Minha poesia é um discurso despido de pedantismo, quero falar às pessoas sobre coisas que nos atingem. Não sou uma máquina de palavras soltas e desconexas, busco o verbo lírico que pensa. Entre Drummond e Cabral, portanto.

6) Cito duas passagens de seu livro de poemas, para perguntar em seguida.
“Eu vi meninos com mãos calejadas / de tanto escrever a vida com a enxada”.
“E analfabeto que também era / fui decifrando aquelas letras / estrangeiro na própria língua / soletrando mal suas belezas”.
Vem daí esse País obscuro?

É este o meu país obscuro, a minha pátria. Este negócio de que minha pátria é minha língua é de uma estultice sem fim. Minha pátria, como dizia o mineiro Cacaso, é a infância. E na minha infância eu convivi com homens reais, com pessoas sofridas, com dores e alegrias de gente de carne e osso. Eu escrevo a partir disso – e não sobre. O meu texto é autobiográfico por apresentar no estilo aberto o meu contato com o mundo. O poeta de hoje escreve apenas a partir de um discurso pronto – há uma lógica da auto-ajuda em nossa sofisticada lírica: basta seguir a receita. Os poetas não vivem no mundo dos homens e daí tornam-se aberrações abstratas, veludosas vozes. Eu vivo entre homens e livros, estou sempre num entre-lugar.

Sobre o Autor

Rogério Miranzelo: Rogério Miranzelo (Belo Horizonte/MG) nasceu em 1961. Escritor e jornalista, colaborou em vários jornais, revistas e sites do Brasil, com crônicas, artigos e resenhas. É autor dos livros "Lua Diferente" (poemas - 2007) e "Belo" (crônicas - 2004).
www.miranzelo.com

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