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Parábola de Frank Darabont é um filme de terror para ser lembrado

por Chico Lopes *
publicado em 08/11/2008.

Entre os filmes que vi neste ano, não me lembro de nenhum que tenha me prendido tanto a atenção e me deixado tão incomodado quanto "O nevoeiro" ("The mist"), produção norte-americana de 2007 dirigida por Frank Darabont.

A história original é de Stephen King, notório em fornecer ao cinema argumentos que degeneraram, no mais das vezes, em filmes meramente horríveis ou por vezes terrivelmente ridículos, tão ruins que é melhor nem citá-los. King é contraditório - produz material literário em abundância e, na sua política de fertilidade produtiva, perpetrou muito lixo e algumas coisas boas. Diretores como De Palma ("Carrie, a estranha"), Rob Reiner ("Louca obsessão"), Stanley Kubrick ("O iluminado") fizeram alguma coisa digna com suas histórias, mas mesmo um filme tão cultuado quanto "O iluminado" parece uma enorme bobagem salva pelo enfoque monumental gelado, a sugestividade e as perícias de direção de Kubrick. Virou um filme de arte fazendo o lixo reluzir, mas, para muita gente, o lixo continuou lá, fazendo a mistura cheirar mal. Frank Darabont foi feliz adaptando "Um sonho de liberdade" e "À espera de um milagre", tornando-se uma espécie de marca de qualidade a partir de King. Por alguma razão, achou a maneira certa de adaptar as histórias abusivamente paranormais e apelativas do escritor, extraindo delas personagens ricos e lições de humanidade. Em "O nevoeiro", nada de braçadas.

A história, que parece ter sido aproveitada para um filme de John Carpenter (que não vi), é esquemática: uma cidade do Maine é aterrorizada por uma estranha ameaça, vinda por um nevoeiro depois de uma noite de tempestade que acaba com a energia elétrica, derrubando árvores e casas. Curiosamente, o filme reproduz muito do que se viu na obra-prima "Os pássaros", de Hitchcock - a atmosfera de catástrofe fazendo com que as pessoas, confinadas, aterrorizadas com um mistério que não se esclarece, se unam num supermercado (lembra-se de imediato aquele bar próximo a um posto de gasolina onde se passa a parte final do filme de Hitch). Até mesmo o papel de Marcia Gay Harden é derivado de um bêbado que dizia "it´s the end of the world" em "Os pássaros" e era particularmente irritante, assustando uma pobre mulher e seus filhos. Os que assistem filmes de terror com a atenção devida notarão isso imediatamente.

Claro, os abusos ficam por parte dos bichos monstruosos que há no nevoeiro lá fora e que impedem os sensatos aprisionados no supermercado de fugir imediatamente - insetos tão pavorosos e gigantescos, além de uma espécie de criatura com tentáculos saída de qualquer filme clichê de horror B, que fazem a gente pensar que a coisa degenerará em mais um lixo de King. Curiosamente, e aí tem que se louvar a direção de Darabont, essas criaturas apavorantes não são tão relevantes assim para a história: fornecem excelentes razões para o confinamento, produzindo aquele tipo de morte-em-série-mais-horrível-de-cada-vez que é tão comum nos roteiros vagabundérrimos do gênero, mas o Terror está mais pelo lado de dentro, nas pessoas confinadas, que aos poucos vão vendo emergir o que trazem de pior dentro de si mesmas.

A professora veterana (excelente atriz, cujo nome não recordo agora) é um ótimo personagem e a gente acredita piamente que provém do mundo real. Thomas Jane, o ator que faz o personagem principal, não é nenhuma maravilha, mas segura a interpretação com dignidade e competência, e também os atores secundários como os donos e funcionários do supermercado são muito convincentes. No entanto, o filme só tem a estatura que adquiriu devido ao prodígio de interpretação de Marcia Gay Harden, uma beata evangélica que, com o Novo Testamento nas mãos e disposta a ganhar poder através de maldições e acusações aos pecadores com argumentos retirados do Apocalipse, promove uma ruptura entre os confinados. Ao entrar em cena, rezando no banheiro e tratando Deus com intimidade absurda e com aquela chantagem emocional típica de quem usa a Divindade como instrumento pessoal de busca de poder sobre os outros (há muito disso em paranóicos religiosos que vemos por aí), ela já nos vai dando arrepios. Os arrepios se acentuam quando a personagem da assistente social tenta conversar com ela humanamente e é repelida com uma ameaça tão insana e preconceituosa que a gente já sabe, a partir daí, quem ela é e o que teremos que enfrentar. O personagem, se formos procurá-lo na própria obra de King, já estava naquela fundamentalista bíblica enlouquecida (Piper Laurie) que era a mãe de Carrie em "Carrie, a estranha".

De modo que a história de "O nevoeiro" é manjada, mas, devido à excelente direção de Darabont e à qualidade dos atores, levanta vôo e ganha uma dignidade especial. Isso devido à inteligência do diretor, que também eliminou a trilha sonora, só reservando para o final uma espécie de coral elegíaco que, então, faz muito sentido. Na verdade, numa história assim tão apavorante, nada além de silêncio é requerido - outra lição de "Os pássaros", que não tinha trilha sonora, mas ruídos eletrônicos esparsos produzidos por Oskar Sala e Bernard Herrmann.

Tudo no filme é cuidadoso e qualitativo. No entanto, já conversei com várias pessoas inteligentes que gostaram dele e me deparei com uma incongruência curiosa: a não-aceitação, a revolta com o final que Darabont dá aos personagens. Muita gente acha que o filme foi grandemente prejudicado por ele.

É um absurdo dizer isso e é um tanto reveladora, essa rejeição. Faz pensar que Darabont foi mesmo corajoso, afrontando o tabu de redenções sentimentalóides, e que os espectadores não perceberam que se tratava de uma parábola trágica, com uma lição precisa sobre o desespero humano. Se caísse no consolo barato, o filme teria caído também na vala comum das produções relativamente bem-sucedidas que se vê e se esquece rapidamente. Tiro o chapéu para um diretor que, mesmo depois de encenar uma produção que, afinal de contas, não foge muito do espectro comercial, teve a coragem de propor uma coisa como aquela. Isso torna o filme especial e o transforma realmente numa produção para ser lembrada.


Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
CEP 37706 062 - Poços de Caldas - MG

Email: franlopes54@terra.com.br

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