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DOIS HITCHCOCKS MENORES: MAESTRIA, A DESPEITO DE TUDO

por Chico Lopes *
publicado em 04/09/2008.

Os espectadores de novas gerações, que têm hoje em dia o privilégio de poder descobrir a obra toda de Alfred Hitchcock em caixas de DVDs que são um dos maiores petiscos do consumismo cinéfilo atual, vão na certa se encantar com as obras-primas e descobrir nelas coisas que nem imaginavam, mas, se tiverem cuidado e não forem desprezando os filmes de Hitchcock tidos por menores, descobrirão prazeres menos óbvios.

Porque há uma lista de filmes de Hitchcock para os quais alguns fazem cara feia e outros simplesmente evitam ou deixam para ver quando não tiverem coisa melhor a fazer: "Topázio", "Cortina rasgada", "Disque M para matar", "Pavor nos bastidores", "A tortura do silêncio", "O terceiro tiro", "Trama macabra", "Um barco e nove destinos", "Quando fala o coração", "Agonia de amor", "Suspeita" etc.

Não nego que alguns desses filmes sejam mal-sucedidos (o caso mais óbvio para mim é o de "Topázio", uma produção quase injustificável). Mas, conhecendo alguns desses títulos primeiro pela má fama que os precede, surpreendi-me quando decidi vê-los a despeito dela. "Pavor nos bastidores", às vezes colocado na triste categoria do pior filme norte-americano de Hitch, não é de modo algum um filme desprezível. E haveria o que dizer de cada um dos outros, mas decidi escolher apenas dois porque os revi recentemente e me deleitei com redescobertas e confirmações.

OS FANTASMAS DE JOAN FONTAINE E O FINAL SUPRIMIDO - Em "Suspeita", de 1941, Hitchcock voltou a usar a atriz Joan Fontaine, que havia feito muito sucesso com "Rebecca- A mulher inesquecível" em 1940. Fontaine parecia especializada em fazer a esposa aterrorizada, que se mete numa fria ao se casar com tipos estranhos e neuróticos. Fez isso em "Rebecca", casou-se com o intempestivo Rochester vivido por Orson Welles em "Jane Eyre" e, em "Suspeita" é uma jovem tímida, de boa família inglesa, já candidata a ficar solteirona, que perde a cabeça por certo Johnny Aysgarth (compreensível, porque ele é vivido por Cary Grant).

Fontaine está muito bem, capaz de lançar olhares de esguelha, erguer as sobrancelhas, suspirar e tremer como poucas mulheres tímidas, decentes e assustadiças da história do Cinema. Hitchcock, com sua notória perversidade, devia se deliciar com seus medos e relutâncias, e achá-los perfeitos para as suas intenções de cineasta. Aysgarth (Grant) trata a boa moça, direita demais para saber o que é o mundo, com a displicência de um sedutor experimentado, encantando-se com sua inocência óbvia e divertindo-se com isso, chamando-a de "macaquinha", abusando de sua credulidade e de sua paixão basbaque. O filme, com direito a valsas vienenses e todos os violinos das produções dirigidas ao público feminino daquela década, parece uma caixa de bombons, uma antiguidade do tipo romance para moças de M. Delly, mas é uma operação tortuosa e cheia de sombras. Hitchcock envenena os bombons para que não morramos sob uma montanha de açúcar.

Para um espectador mais arguto, vai ficar óbvio que esses filmes que tratam de mulheres românticas casadas com tipos suspeitos e esquisitos aludiam simbolicamente àquilo que os filmes dos anos 40 e 50 não ousavam abordar diretamente: sexo. Os homens atraentes derrubam suas resistências no namoro, mas o sexo, of course, só depois do casamento, e mesmo assim é assustador para elas, e a estranheza, o perigo e a esquisitice dos maridos parecem metáforas da iniciação sexual que elas muito desejam e muito temem (afinal, trata-se de entrar em contato com o seu lado animal e elas, com todo aquele peso das valsas vienenses, parecem idealistas demais para a sensualidade real que as espera; portanto, há um sinal vermelho permanentemente aceso). Exatamente por não ser mencionada, a sensualidade contida nessas produções é de uma eficácia diabólica - ela se esparrama, não-dita, por tudo que é dito, é insinuada em objetos, esconsos, frases, olhares baixos, olhares de esguelha, presságios, suspiros, medos, impregna tudo de simbolismo e de duplos sentidos, e deleita a gente muito mais do que qualquer filme mais explícito poderia fazer. A cena do copo de leite, que pode estar envenenado, já foi lida como uma óbvia metáfora do sexo que o marido, Grant, oferece, e de que Fontaine tem a um só tempo necessidade crucial e terror - bebê-lo implicaria numa aceitação do bicho-homem e no seu auto-reconhecimento como fêmea carente. O leite, afinal, tem muito mais de um sentido.

"Suspeita" fez um sucesso moderado e desapontou muita gente devido ao fato de Cary Grant não ser visto como um ator denso, dramático, que pudesse interpretar um assassino, o que obrigou o diretor a uma concessão, deixando que os produtores interferissem no final. É precisamente no final que "Suspeita" perde toda a sua força de sugestão, se bem que conserve uns resquícios de perversidade.

Hitchcock tinha um final melhor, que envolveria Fontaine bebendo o leite e praticamente se suicidando. Antes disso, porém, ela teria escrito uma carta à mãe explicando que seu marido era um perigo para a sociedade e pedido a ele para que a colocasse no correio na manhã seguinte. Corte para o final: Grant, assoviando, já com a esposa devidamente despachada desta para melhor, coloca a carta no correio. Uma pena que a sequência não pôde ser aprovada. Os produtores não queriam Grant "maculado".

Em todo caso, Fontaine ganhou pelo papel o único Oscar de sua carreira e o filme não perdeu a sua aura, mesmo com todas as variações do tema "marido perigoso" feitas pelo cinema desde então. Maridos mal-intencionados continuam sendo um bom filão, mas a sutileza de Hitchcock, decididamente, não é nem de longe alcançada pelos filmes mais recentes.

O EPITÁFIO DO MESTRE: UM FILME MUITO SUBESTIMADO - Acho um equívoco lastimável que a maior parte da crítica considere que Alfred Hitchcock poderia ter tido como epitáfio não "Trama macabra", seu último filme, realizado em 1976, mas "Frenesi", o penúltimo, rodado em Londres em 1972. "Frenesi" é um bom filme, tenso e divertido, mas padece de uma crueza que a obra de Hitchcock evitava (a cena da mulher estrangulada, com aquela língua de fora, foi um verdadeiro abuso). E tinha atores notoriamente antipáticos, a partir do protagonista, Jon Finch, difícil de engolir, além de atrizes feias, embora talentosas.

"Trama macabra" (ou "Family plot") é visto com desdém precisamente por essa fraqueza dos atores - aliás, generalizada nos filmes dos fins da carreira do Mestre, que já não contava com James Stewart, Cary Grant e Grace Kelly. O quarteto principal - Karen Black, William Devane, Barbara Harris e Bruce Dern - é de atores do segundo time, realmente (é possível que o leitor mal se lembre deles), mas não é ineficaz. E havia uma explicação para essa escolha - Hitchcock ficara escandalizado com os preços de alguns astros, tendo achado abusivo o que já pagara para Paul Newman e Julie Andrews para trabalharem no fracassado "Cortina rasgada", em 1966. Isso fez com que rejeitasse Al Pacino, que faria o papel que acabou sendo interpretado por Bruce Dern. (O espectador encontrará essas histórias, e outras, bem saborosas, nos extras do DVD).

"Trama macabra" é um dos filmes mais divertidos e inteligentes que Hitch fez, e tem um aspecto de comédia leve de humor negro, como "O terceiro tiro", que é mal compreendido. É a história de dois casais - os vigaristas inofensivos Blanche e George e os vigaristas perigosos Arthur e Fran - cujos caminhos se cruzam. Os mal-entendidos começam aí, porque Blanche e George têm dinheiro em potencial a oferecer a Arthur e Fran, mas os dois, culpados por seqüestros e por várias outras coisas altamente culpáveis - têm medo de serem descobertos e fogem precisamente daquilo que poderia constituir um prêmio. Hitchcock se deleita com a geometria da trama, e isso é visível no início, com o literal "caminho cruzado" aberto por Fran, ao ser quase atropelada pelo carro de George, e também é visível na perseguição geométrica do cemitério, em que George, seguindo a esposa do homem que tinha algo a lhe revelar, arma com ela um desenho que, para alguns críticos, evoca uma tela de Mondrian.
Mas o filme tem seu ponto alto, em termos de interpretação, na médium vivida por Barbara Harris, comediante loura de quem pouca gente se lembra, mas é dito nos extras que divertia Hitchcock para valer. A médium é um grande papel, o melhor da carreira de Harris, na certa, e é evidente que inspirou o da médium-palhaça vivida por Whoopi Goldberg em "Ghost - Do outro lado da vida".

É esse papel, leve, histriônico e desmistificador, que faz com que o filme no conjunto ganhe um tom de brincadeira, e Hitch demonstra o contentamento e a serenidade de um cineasta consumado ao filmá-lo. Devia também ter presságios de sua morte (que ocorreu quatro anos depois), pois sua silhueta aparece por trás do vidro da porta de um cartório de registro de óbitos. E ao longo da história vai plantando suas brincadeiras visuais cintilantes, como na cena em que Fran, chegando da rua, guarda a sua peruca de "loura gelada" onde?...na geladeira!

Também já li críticos achando que a cena do carro sabotado de Blanche e George, em que eles entram em pânico por estarem despencando sem freio das montanhas, é prejudicada por "back projections". Besteira, pois é uma cena frenética, que envolve o espectador por completo, e termina hilariante, com Blanche pisando no rosto de George. Funciona bem, a despeito do recurso óbvio. E tem um parentesco evidente com a cena da montanha beira-mar em que, no final de "Suspeita", Joan Fontaine acha que Cary Grant vai jogá-la do carro. Hitch sempre conseguiu deixar o público desesperado e sem fôlego, nesses momentos, prova da eficácia de seus métodos "antiquados".

Uma pena que "Trama macabra" sofra de má fama, porque, além disso, conta com uma trilha sonora particularmente bonita e eficaz de John Williams. E, para os que vão ver o DVD, não esquecer de conferir os "Bastidores", onde Karen Black, ou Fran, fala de seu papel e é incrivelmente divertida imitando o vozeirão de Hitchcock. Uma delícia.

Sobre o Autor

Chico Lopes: Chico Lopes é autor de dois livros de contos, "Nó de sombras" (2000) e "Dobras da noite" (2004) publicados pelo IMS/SP. Participou de antologias como "Cenas da favela" (Geração Editorial/Ediouro, 2007) e teve contos publicados em revistas como a "Cult" e "Pesquisa". Também é tradutor de sucessos como "Maligna" (Gregory Maguire) e "Morto até o anoitecer" (Charlaine Harris) e possui vários livros inéditos de contos, novelas, poesia e ensaios.

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Francisco Carlos Lopes
Rua Guido Borim Filho, 450
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